Ser ou não ser cantor? Eis a questão para Gabriel Leone

O ator, qualquer um que tenha visto os filmes “Ferrari” e “O agente secreto”, as séries “Senna”, “Verdades secretas” e “Dom” ou a novela “Velho Chico” conhece bem. O cantor, alguns hão de lembrar da série “Os dias eram assim”, do musical “Os miseráveis” ou do filme “Meu álbum de amores”, em que interpretou Odilon Ricardo, um fictício cantor brega dos anos 1970, e cantou músicas especialmente compostas pela dupla Arnaldo Antunes e o Odair José. Ídolo nos anos 1980 (e eterno nas rádios de flashback), Bryan Adams prega: 'Não siga as redes sociais. Siga a música' 'A noiva!', 'Frankenstein' e mais: Relembre as adaptações do universo de Mary Shelley para os cinemas Agora, o Gabriel Leone colecionador, que reúne em casa mais de três mil LPs, de MPB, rock, pop, soul e jazz, somente os mais íntimos sabem que existe. E é justamente este quem dá origem a “Minhas lágrimas”, seu álbum de estreia como cantor, que chega hoje às plataformas de streaming, pela Som Livre. Composto por dez canções do repertório lado B de autores consagrados da MPB, o disco é resultado, em boa medida, das visitas de Gabriel à Galeria Nova Barão, no Centro de São Paulo, onde estão algumas das principais lojas de vinil (novos e usados, alguns desses bem raros) da cidade. Capa de “Minhas lágrimas”, álbum de Gabriel Leone Reprodução A galeria fica a algumas poucas quadras do Edifício Copan, onde o ator estrela, desde o último dia 19, “Hamlet, sonhos que virão”, montagem da imortal peça de William Shakespeare, no canteiro de obras do Nu Cine Copan (cinema abandonado, que está sendo reformado). A temporada, nas ruínas da antiga sala, segue até 19 de abril. — Tem músicas que estão no disco que eu conheci entrando numa loja de vinil. Eu entrava, escutava e falava: “Cara, que música linda, que música é essa?” E aí ficava com ela guardadinha no bolso — revela o ator/cantor de 32 anos, em uma tarde que começou no Copan e seguiu pela Nova Barão, na capital paulista. — Sempre quis fazer alguma coisa com música. Comecei a tocar e a fazer teatro na mesma época. Cantei com Milton Nascimento (na série documental “Milton e o Clube da Esquina”), cantei com Boca Livre (na gravação da música “Benefício”), cantei com um monte de gente. Eu achava que um dia ia parar para compor, e até já compus algumas coisas. Mas nada que olhasse e falasse: “Quero tornar isso um projeto meu.” Ao longo dos anos em cena, Gabriel foi organizando uma playlist bem particular. — Eu pensava assim: “Ah, se algum dia eu fizer um show, se algum dia acontecer alguma coisa, esse seria um repertório que eu gostaria de cantar.” Eram músicas de grandes compositores da MPB, músicas que, em sua maioria, não eram as mais conhecidas deles, mas que talvez por isso me tocassem. Foi quase como se eu as tivesse descoberto, pérolas esquecidas que emocionavam muito — conta. — Eram músicas que falavam entre si em nível de densidade, de letra e de dramaticidade. Não que eu não goste de música alegre, para cima, mas as letras profundas, que têm imagens e poética, sempre acabam me interessando mais. Ano passado, ele resolveu partir para a ação, juntamente com o amigo Marcus Preto, produtor de discos recentes de grandes artistas da MPB como Gal Costa (1945-2022) e Erasmo Carlos (1941-2022). Dono de uma coleção de mais de dez mil LPs só de MPB, ele conheceu Gabriel durante o trabalho na trilha de “Meu álbum de amores”. Logo, estavam juntos em caçadas de discos raros na Nova Barão e noitadas de audição de LPs regadas a vinho. — As músicas de “Minhas lágrimas” passam muito por essa relação nossa, essa troca musical. Tanto que, quando mostrei a minha curadoria (da playlist de 40 músicas, enxugou para dez possíveis de entrar no disco), ele sugeriu que eu só trocasse uma música: a “Capoeira do Arnaldo”, por outra do Paulo Vanzolini, “Cara limpa”, que se encaixava melhor no todo, e que, por acaso, acabou sendo a que abre o disco, com aquele arranjo meio (Rogério) Duprat, meio tropicalista, quase desconstruindo o samba que tem na música — conta. Pérolas ocultas Está no disco, além dessa, o “Choro das águas”, de Ivan Lins e Vitor Martins — que remete a “Aos nossos filhos”, de Ivan e Vitor, que Gabriel emplacou como sugestão (e como cantor) na série de TV de 2017 “Os dias eram assim” (“e ali eu compus uma música para o meu personagem, que entrou na trilha também”, conta). Está lá também “Nós dois”, canção de Celso Adolfo, gravada em um LP raro do cantor Tadeu Franco, produzido por Milton Nascimento. E “As portas do meu sorriso”, de Paulinho Tapajós e Fagner, que o ator literalmente descobriu no disco que tocava em uma loja na Galeria Nova Barão. Outra pérola oculta de “Minhas lágrimas” é “Antes da chuva chegar”, música de “Guilherme Arantes” (1976), primeiro LP do cantor, compositor e pianista paulistano. — Sou louco por esse disco, acho que é uma das grandes estreias da música brasileira. E a faixa que mais me tocou do disco era “Antes da chuva chegar”, justamente por ser curta, mas uma densidade tanto na harmonia quanto na letra, com aquelas imagens — diz Gabriel, que quebrou a predominância de composições dos anos 1970 e 1980 com a faixa-título, que vem de “Cê”, disco de Caetano Veloso de 2006. — “Minhas lágrimas” não virou grande sucesso, não está no repertório do Caetano, mas, com aquela letra, com a forma que ele interpreta aquilo tudo, sempre mexeu muito comigo. ‘Torneirinha aberta’ Para o ator, esse título não se refere apenas às lágrimas tristes, mas ao transbordamento. Lágrimas de prazer, de alegria, de orgulho, de emoção, de felicidade, de gargalhar... o negócio é botar para fora os sentimentos, sejam eles quais forem. — Nunca fui de chorar fácil, até em cena. Mas de uns anos para cá, a torneirinha foi ficando mais aberta — admite. — É a maturidade de me permitir, talvez, transbordar mais. Ou a própria decisão de finalmente fazer o projeto, gravar o disco. De outra forma, talvez eu ficasse me guardando, segurando com alguma justificativa de que “ah, não, que eu quero compor, que um dia eu vou um dia eu vou fazer...”. E aí uma hora alguma coisa te dá uma virada, te dá um estalo, te dá uma coragem de fazer, de botar para fora. A sonoridade de “Minhas lágrimas”, bem rock e densa, ficou a cargo de Tó Brandileone, produtor musical do álbum ao lado de Marcus Preto. A orientação na hora de gravar os vocais foi a de: esquece o cantor que um dia você foi. — O canto que eu estudei foi um canto mais de espetáculos musicais, então é aquela voz um pouco mais empostada, com vibrato, sustentação. E eu estava gravando músicas de MPB, mesmo que num rearranjo de rock, com letras de MPB, nas quais o texto é muito importante. Então, o centro iria ser justamente o ator, interpretando as canções e dando vida às imagens — explica. — A música virou ferramenta de trabalho, mas nunca tive a pretensão de me lançar como cantor. Eu não estou trocando de profissão nem nada, estou só realizando um projeto pessoal. Não sei se vou gravar outro disco, mas lógico que vou fazer shows para lançar este. Escalando o Everest dos atores Tijucano que estudou no Colégio Marista São José, praticou polo aquático no Tijuca Tênis Clube e montou no bairro carioca as suas bandas de rock, Gabriel Leone virou um cidadão do mundo a partir de “Ferrari”, “Senna” e “O agente secreto” (este ano, ele volta às telas internacionais com a segunda temporada da série “Citadel”, ao lado de Stanley Tucci e Leslie Manville). A vida, ele admite, estava a milhão quando decidiu fazer “Hamlet, sonhos que virão”, com Rafael Gomes, que o havia dirigido no cinema em “Meu álbum de amores”. — A gente conversou sobre teatro e eu falei: “Pô, cara, eu sonho em fazer um Hamlet!” E ele falou: “Eu também e eu quero fazer, e num cinema abandonado de São Paulo.” E aí oito anos depois, coincidentemente (aconteceu) — revela ele, que no fim do ano passado se tornou pai de um menino com a atriz Carla Salle, com quem é casado. — Toda vez que eu faço a peça, parece que fiz 20 peças ao mesmo tempo. O que é maravilhoso. Primeiro, por voltar a fazer teatro oito anos depois da última vez. E Hamlet é Hamlet, né? A gente brinca que ele é o Everest para todo ator. É um texto que possibilita infinitas escolhas e caminhos. Meio a contragosto, brinca, ele estará na cerimônia do Oscar (“vai ser uma semana da peça que eu não vou fazer, coincidiu de a premiação ser no meio da temporada...”) para ver de perto o que acontece com “O agente secreto” (ele concorre aos prêmios de melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator — para Wagner Moura — e melhor elenco). Gabriel conta que o diretor Kleber Mendonça Filho chegou a ele depois de ver sua atuação em “Ferrari”, no papel de um piloto espanhol que fala em inglês. — E aí o Kleber disse: “Pô, esse cara tem a presença que eu quero que o Bobbi, o meu personagem de ‘O agente secreto’, tenha.” Bobbi tem uma presença grande de tela, tem momentos muito importantes ao longo do filme, mas de poucas falas, muito silencioso. Ele queria que eu preenchesse a tela dessa maneira — diz. — Depois da nossa primeira conversa, li o roteiro e fiquei arrebatado. Sem dúvida, foi um dos melhores roteiros que já li na vida. E acho um grande roteiro que virou um grande filme, um filme que funciona tanto na medida do entretenimento quanto na do cinemão, e que ainda funciona em todas as camadas políticas, com todas as críticas sociais também. Gabriel Leone em 'O Agente Secreto' Divulgação Gabriel se diz orgulhoso ao ver, logo em seguida a “Ainda estou aqui” (de Walter Salles), mais um filme brasileiro, falado em português (e com forte conteúdo político), no Oscar: — Não que eu ache que o cinema nacional ou que a arte nacional precisem de alguma aprovação gringa, mas fato é que esse movimento está acontecendo e isso está se refletindo no nosso público. “Ainda estou aqui” fez mais de seis milhões de espectadores, “O agente secreto” mais de dois milhões e outros filmes, como “O auto da Compadecida 2” e “Homem com H” são filmes que estão trazendo o espectador brasileiro de volta para o cinema. Uma alegria extra para Gabriel Leone em “O agente secreto” foi ter ao lado Wagner Moura, que lhe deu uma cópia da tradução de “Hamlet”, feita a seis mãos por ele, Aderbal Freire-Filho e Barbara Harington, e estrelada pelo ator baiano e dirigida por Aderbal em 2008: — A gente leu e falou: “Definitivamente é essa tradução que a gente vai usar, porque é a que mais se aproxima do público sem perder a poesia, sem perder a complexidade do texto.” E o Wagner sempre dizia: “Hamlet foi uma experiência transformadora na minha vida. Faça, não deixe fazer!”