Crítica: entre a construção e a ruína

Em “Hamlet, sonhos que virão”, tudo é construção e também ruína. A encenação de Rafael Gomes para a tragédia de William Shakespeare está viva em meio às obras do falecido (e futuro) Cine Copan. Localizada no edifício de mesmo nome, a casa ressuscitará de vez em 2027 no coração de São Paulo, após duas décadas sem projeção de filmes e uma reencarnação como templo evangélico. A impermanência do local se transforma, quase sempre, em trunfo do espetáculo, em especial no uso esperto do design visual e da iluminação. Os certeiros figurinos de Alexandre Herchcovitch enfatizam a atemporalidade do texto e, em mãos outras que não as de Gabriel Leone, tanta exuberância poderia migrar a atenção do público do papel-título, não por acaso no topo do desejo dos melhores e mais sensíveis profissionais do ramo. Rosamaria Murtinho: Atriz interpreta Iris Apfel, ícone fashion até os 102 anos, e fala sobre etarismo: ‘Sinto na vida pessoal e no trabalho’ 'O agente secreto': Longa lidera ranking do Rotten Tomatoes entre indicados ao Oscar na categoria de melhor filme Há oito anos afastado do palco, Leone retorna às suas origens após êxitos seguidos nas telas, em currículo que inclui os protagonistas das séries “Senna”, sobre o gênio da Fórmula-1, e “Dom”, inspirado no bandido mauricinho que assustou o Rio no início dos anos 2000. Mais recentemente, deixou a audiência sem fôlego com o matador profissional Bobbi, de “O agente secreto”, longa de Kleber Mendonça Filho indicado a quatro estatuetas do Oscar. Faz sentido, portanto, não se ouvir um pio além do chiado constante do ar-condicionado quando o ator de 32 anos se posiciona a um palmo do público em algumas das cenas mais emblemáticas de “Hamlet”. O fascínio pela estrela é recompensado por uma interpretação que equilibra intensidade e o rigor técnico pelo qual Leone é devidamente celebrado. A violência da história do príncipe da Dinamarca, que suspeita de crime na morte do pai, após o quase imediato casamento de sua mãe, Gertrude, com o irmão dele, seu tio, Claudio, eventual assassino, é revisitada de forma acentuadamente sombria. Outro acerto. O barulho assustador de uma tempestade recebe o público antes mesmo de a ação começar. O fantasma do monarca recebe tratamento cinematográfico. A reinvenção do fim de Ofélia, a amada rejeitada por Hamlet, vivida por Samya Pascotto, é de uma beleza doída. As trevas reais do Centro de São Paulo se confundem com as do clássico encenado. Há algo de podre dentro e fora do teatro improvisado. A loucura e o desejo de vingança contra injustiças, o ímpeto pela ação sufocado pela hesitação conformista e a corrupção escancarada na busca vazia pelo Poder invadem o limbo do futuro Cine Copan de forma arrepiante. Êxtase de duração mais curta do que o desejável, no entanto, por conta do som claudicante, que impossibilita a compreensão de falas de Leone e de um bom elenco, que inclui a craque Susana Ribeiro, na pele da rainha Gertrude. “Hamlet, sonhos que virão” fica em cartaz nas obras do Nu Cine Copan até 19 de abril, com sessões de quarta-feira a domingo, em temporada única. Cotação: bom