Nos 48 anos em que atuou na diplomacia, Marcos Duprat assumiu postos em cidades como Washington, nos EUA; Lima, no Peru; Tel Aviv, em Israel; Milão, na Itália; Budapeste, na Hungria; Montevidéu, no Uruguai; Tóquio, no Japão; Cidade do Cabo, na África do Sul; e Katmandu, no Nepal. Em todas, colecionou a luz local, transposta para telas às quais dedicou boa parte do seu tempo livre, sob camadas de pinceladas a óleo. Agora aposentado do Itamaraty e inteiramente dedicado à produção em seu ateliê, em Ipanema, na Zona Sul do Rio, o artista de 81 anos apresenta 32 obras na individual “Matéria e luz”, em cartaz até 3 de maio, na Casa de Cultura Laura Alvim, no mesmo bairro. Com curadoria de Luis Sandes, a mostra segue na sequência para o Ateliê Casa Um, em São Paulo. Em cartaz: MAR com entrada grátis , mostra da Bienal de SP e mais exposições no Rio Maeve Jinkings: Filha de fotógrafa exposta no CCBB do Rio, atriz fala da influência da mãe: 'Olhar despido de tabus' Na varanda envidraçada do espaço, voltada ao movimento da Avenida Vieira Souto e da Praia de Ipanema, estão telas nas quais Duprat trabalha cores e a luz a partir do reflexo e a ondulação da superfície líquida, como uma obra da série “Horizontes” (2025) ou o díptico “Águas” (2023). A difusão e a refração são captadas por meio da tradicional técnica da velatura, com a aplicação de finas camadas de tinta sobre as outras. — Chego a ficar dois meses trabalhando numa tela. Tem que esperar secar para voltar a pintar (por cima). Não tem como produzir assim numa velocidade determinada pelo mercado, e isso também não me interessa. A pintura é totalmente contra o tempo, ainda mais nesse que estamos vivendo, tão imediatista — comenta Duprat. — E o mercado de arte no Brasil não era como hoje, com os preços que as obras alcançam agora. Mas havia muita amizade, um ambiente ótimo, todo mundo se encontrava. Um desses pontos de encontro era o Atelier Livre do MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio, onde Duprat teve aulas no fim dos anos 1960 com mestres como Fayga Ostrower, Aluísio Carvão e Anna Bella Geiger. Depois de passar pelo Instituto Rio Branco e começar a carreira diplomática em Brasília, Duprat deu sequência à formação artística ao obter o mestrado da American University, em Washington, onde serviu a partir de 1974. Na Laura Alvim, apresenta uma tela da época, “Figura em interior” (1977), que integrou sua primeira exposição, na capital americana. — Professores como Ben Summerford e Robert d’Arista eram formados pela escola abstrato-expressionista americana e muito influenciados pelo De Kooning. E eu ali, pintando um nu figurativo, achava nada a ver com aquele contexto. Mas eles me estimularam a continuar, diziam para fazer o que achava bom. E que o próprio De Kooning trabalhava com modelo vivo, desconstruía a figura para chegar naquelas obras — conta o pintor. — As linhas de tensão do corpo humano são as que mais te ensinam. O mais difícil de desenhar, ou na escultura, é fazer uma figura em pé, criar a interação dela com o espaço. São conceitos básicos, mas são difíceis. Tela de 2025, da série 'Horizontes' Divulgação Um dos amigos que ele conheceu em Washington e levou para a vida foi o poeta, compositor e ex-ocupante da cadeira número 27 da ABL Antonio Cicero (1945-2024). É do irmão da cantora e compositora Marina Lima o texto de apresentação da mostra, escrito para a montagem feita em 2018 no Palazzo Pamphilj, em Roma, e recuperado agora como homenagem ao amigo, que optou por um procedimento de morte assistida na Suíça, aos 79 anos, ao enfrentar problemas relacionados ao Alzheimer. — Conheci o Cicero quando cheguei a Washington. Ele fazia doutorado em filosofia na Universidade de Georgetown. Ia à casa do pai dele, o doutor Ewaldo (Correia Lima), que era representante no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Lembro da Marina bem jovem, estudando música e muito antenada, antes de voltar para o Brasil — recorda Duprat. — Falei com o Marcelo (Pires, viúvo do poeta) sobre trazer para a mostra o texto dele, é uma oportunidade para o público brasileiro. E uma forma de ter o Cicero aqui com a gente. Ele esteve lá em casa uns cinco dias antes de ir para a Suíça. Ele falava abertamente sobre a doença, mas nesse dia ele estava muito bem. Compreendi totalmente a sua decisão, ele foi lúcido até o fim. Em seu texto, Antonio Cicero aborda o “mundo interior” do pintor, referindo-se às representações, figurativas ou abstratas, de ambientes íntimos, em contraste às linhas do horizonte e a luz emanada pelo sol e a lua em suas telas. — Ele captou isso muito bem, essa representação do mundo interior. Para pintar, também é preciso introspecção, silêncio, disciplina — diz Duprat. — O que faço é muito simples, não tem nenhuma tensão social, nem ideológica. Não é uma pintura que age na superfície, que chama seu olho de imediato. Mas tem uma dimensão humana, que fala de um jeito para cada pessoa.