Raimundo Fagner lança hoje, 6 de março, o álbum 'Bossa nova', com produção musical e arranjos de Roberto Menescal Isabela Espíndola / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Bossa nova Artista: Raimundo Fagner Cotação: ★ ★ ★ ♬ Raimundo Fagner lança hoje, 6 de março, um álbum intitulado “Bossa nova” – com regravações de 10 músicas mais ou menos associadas ao movimento nascido oficialmente em 1958 – e é inevitável a comparação com o álbum “Bossa sempre nova” (2026), apresentado por Luísa Sonza em 13 de janeiro. Até porque Roberto Menescal, papa remanescente da bossa, é nome fundamental como produtor e arranjador dos dois discos. Justiça seja feita: o álbum da cantora tem mais charme e brilho do que o mergulho de Fagner nessa onda de revalorização da bossa nova em escala mundial. Por mais que os tradicionalistas tenham tapado os ouvidos, o disco de Luísa flui lindamente, com a apropriada leveza da bossa. Falta a Fagner o balanço da bossa nova, embora, justiça seja feita novamente, o cantor procurou ajustar o canto (habitualmente rascante) à suavidade pedida pelo cancioneiro da linha sal, céu, sol, sul. Fagner amaciou a emissão, refreou os vibratos e enfatizou os graves para se aproximar do universo das canções a que dá voz. Como mostra o canto de “Chega de saudade” (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1958) na abertura de “Bossa nova”, o álbum resulta correto e apaga o vexame do show apresentado pelo cantor no Rio de Janeiro (RJ), com certa irritação, em setembro de 2025, como uma prévia do disco. Se falta a Fagner o ímpeto pedido pelo “Canto de Ossanha” (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966), afrossamba distanciado já na gênese da leveza da bossa, o feat com Zeca Baleiro em “Tereza da praia” (Antonio Carlos Jobim e Billy Blanco, 1954) reedita com certa graça o dueto dos rivais Dick Farney (1921 – 1987) e Lúcio Alves (1927 – 1993) na gravação original do samba, com a diferença de incluir o toque de uma sanfona, tocada por Marcos Nimrichter, no arranjo excepcionalmente assinado pelo pianista Antonio Adolfo (consta que Menescal foi contra a inclusão de sanfona em dois arranjos do disco). Já o feat de Fagner com Wanda Sá em “Samba em prelúdio” (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1963) é chama sem luz, até porque esse samba triste pede intensidade, interiorizada mais no canto suave de Wanda do que na voz de Fagner. Fagner canta músicas como 'Rio' e 'Wave' no álbum 'Bossa nova' Isabela Espíndola / Divulgação Assim como fez para Luísa Sonza, Roberto Menescal armou a cama para Fagner deitar com conforto, exercendo com louvor as funções de produtor musical e arranjador do álbum “Bossa nova”. Além de tocar violão em oito das dez faixas, Menescal arregimentou banda formada por músicos como Adriano Gifoni (baixo), Adriano Souza (piano) e João Cortez (bateria). Afinada com o universo da bossa nova, a banda valoriza o disco. Parceria póstuma de Carlos Lyra (1933 – 2023) com Dolores Duran (1930 – 1959), “O negócio é amar” (1984) exemplifica a acertada contenção do canto do intérprete. Ainda assim, “Bossa nova” é daquele tipo de álbum que pode até não agredir os ouvidos, mas tampouco provoca alguma sensação de encantamento. Talvez porque, como mostra a abordagem de “Samba de verão” (Marcos Valle e Paulo César Valle, 1964), feita ao lado do autor Marcos Valle, Fagner parece cantor de outra estação, em que pesem todos os louváveis esforços do intérprete para se afinar com o padrão vocal da bossa nova. A mesma sensação paira sobre a onda de “Wave” (Antonio Carlos Jobim, 1967) em arranjo pontuado pela gaita de Rildo Hora. A propósito, “Águas de março” (Antonio Carlos Jobim, 1972) também evolui com o toque da gaita virtuosa de Rildo Hora na gravação incrementada, a partir do segundo minuto, com breve passagem instrumental de ambiência jazzy. É a tal influência do jazz entranhado na bossa. O suingue do samba “Rio” (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, 1963) reforça a boa vontade do artista de entrar no clima da bossa nova. De toda forma, a banda arregimentada por Roberto Menescal é sempre mais bossa nova do que o canto dosado de Fagner, como atesta o registro de “Por causa de você” (Antonio Carlos Jobim e Dolores Duran, 1957), samba-canção que fecha o álbum outonal do artista. Enfim, Raimundo Fagner canta bossa nova com correção quase asséptica, como se estivesse tolhendo a própria alma de intérprete, mas, ao menos, o disco editado pela gravadora Biscoito Fino apaga a péssima impressão deixada pelo show de setembro. Capa do álbum 'Bossa nova', de Raimundo Fagner Divulgação