Comissão de Ética do HC-USP nega uso experimental de polilaminina em sargento que levou tiro e lesionou medula

Estudo da polilaminina apontam que proteína pode ajudar a devolver movimentos para quem tem lesões na medula Reprodução/TV Globo A Comissão de Ética Médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP indeferiu o pedido de tratamento experimental com a substância polilaminina para um sargento da reserva da Polícia Militar. O 3º sargento Valdecir Figueiredo Pascoal foi internado em 22 de dezembro de 2025 após ser atingido por um tiro na região torácica, que fraturou sua vértebra T12. O resultado foi uma lesão medular completa, com ausência de funções abaixo do nível atingido. O parecer, assinado pelos médicos Guilherme Lepski e Raphael Martus Marcon, considerou que a intervenção com polilaminina carece de comprovação clínica robusta de eficácia e segurança em seres humanos para ser realizada fora de protocolos de pesquisa. A solicitação foi feita em dezembro do ano passado e negada em 2 de fevereiro de 2026. ️ A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, proteína produzida no corpo humano especialmente durante o desenvolvimento embrionário, quando exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular. Por meio de uma manifestação extrajudicial, a defesa do sargento solicitou autorização urgente para o uso "compassivo" da substância. A alegação era de que o paciente estaria dentro de uma "janela terapêutica crítica" e que não haveria outras alternativas eficazes para a reversão do quadro. Os médicos relatores do parecer destacaram diversos pontos técnicos e éticos para vetar a aplicação imediata do produto: Evidência científica frágil: a base científica atual para a polilaminina é pré-clínica, baseada em estudos com roedores. Estudos em humanos ainda são limitados a relatos iniciais abertos, sem grupo de controle ou revisão por pares; Riscos: o paciente encontra-se no período de choque medular, fase em que mudanças neurológicas podem ocorrer espontaneamente em até 20% dos casos. Sem um estudo controlado, seria impossível determinar se uma eventual melhora foi causada pelo medicamento; Procedimento invasivo: a aplicação intra-espinhal é considerada um ato invasivo, podendo gerar riscos como sangramento, infecção e piora neurológica; Divergência regulatória: embora a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tenha autorizado um estudo de fase 1 em 5 de janeiro de 2026, os critérios exigidos (lesão entre T2 e T10, com menos de 72 horas) não coincidem com o caso do sargento (lesão na T12). A Comissão de Ética do HC determinou que qualquer utilização da polilaminina deve ser enquadrada exclusivamente no contexto de pesquisa clínica aprovada. Para o sargento, a recomendação foi manter o cuidado de acordo com as melhores práticas de reabilitação já aceitas pela medicina. O g1 procurou a defesa do sargento para entender se ele pretende judicializar o caso, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem. Como funciona a polilaminina Entenda como funciona a polilaminina. Arte/g1 A polilaminina virou tema de diferentes trends nas redes sociais nos últimos dias: destaque para paciente em recuperação, debate sobre perda de patente e posts de orgulho pela ciência nacional. Instagram e TikTok ficaram tomados pelo assunto. Mas o quê, de fato, essa substância pode fazer? Em sua pesquisa, a cientista Tatiana Sampaio usava a substância para tratar lesões medulares agudas, ou seja, que tinham acontecido há pouco tempo e deixaram as pessoas sem os movimentos. Ela conseguiu bons resultados em animais e, posteriormente, em um pequeno grupo de pessoas. Isso levou à parceria com um laboratório nacional e à aprovação da Anvisa. O objetivo da pesquisa é responder ao seguinte questionamento: A polilaminina funciona mesmo como tratamento para pessoas com lesão medular aguda? Em entrevista ao g1, a pesquisadora explicou que o que ela apresenta ao país hoje é uma substância com a promessa de se tornar uma medicação, mas que ainda há um longo caminho a percorrer. "Ainda não é um feito, é uma promessa de tratamento. No dia em que ele estiver registrado, as pessoas usarem e todas elas recuperarem a função, se todo mundo voltar a andar, aí sim fizemos uma revolução", explicou. Polilaminina: a esperança no centro de uma corrida na Justiça