Sarah Menezes, a primeira e única campeã olímpica como atleta e como treinadora do judô brasileiro, não é mais a treinadora da seleção brasileira feminina de judô. Assim que voltou da licença maternidade, após o Carnaval, ela foi demitida. Sarah deu à luz a Catarina, sua segunda filha em maio de 2025, em Teresina. Ela também é mãe de Nina, que nasceu há cinco anos. Sarah, que foi eleita a melhor treinadora mulher de modalidade individual em 2024 pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), contou que recebeu uma ligação da Confederação Brasileira de Judô (CBJ) e que foi desligada de forma "curta e grossa". Disse que sua licença maternidade se encerraria em novembro e que a CBJ lhe deu férias em dezembro. — Em janeiro, eles sumiram e em fevereiro me ligaram. Não fiquei surpresa por causa dessa dinâmica. Não fui convocada para o Grand Slam de Paris, nem para os treinamentos do início do ano — contou ao GLOBO. — Foram curtos e grossos. Disseram que reavaliaram e que por escolhas, inclusive por questões financeiras, estavam me demitindo. Agradeceram o meu trabalho e foi isso. Questionada pelo GLOBO se ela acredita que a maternidade, muitas vezes encarada como uma "limitação" para a mulher, foi motivo de seu desligamento, ela disse que não. — Pode ser que a maternidade tenha a ver ou não. Mas acho que não, não tem a relação com o meu tempo em si ou algo do tipo. Sempre fui muito organizada, tenho uma vibe muito boa e rede de apoio. Meus pais me ajudam. Minhas filhas são tranquilas e Nina nunca me deu trabalho. A CBJ só falou da demissão e agradeceu pelas minhas contribuições. Também disseram que continuo sendo parceira da entidade e citaram questões financeiras. Acho que são escolhas — opinou a treinadora, que lembra que a entidade passou por mudanças após a última eleição (e voltou a ter Paulo Wanderley, ex-presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), como mandatário) — Eu sou grata por toda a caminhada juntos. A realidade para estas profissionais ainda é muito desfavorável. Sarah era uma das poucas mulheres em cargo de treinadora na elite do esporte brasileiro e mundial. Em Paris-2024, que foi a Olimpíada da equidade de gênero para atletas, com 50% das vagas para homens e 50% para as mulheres, apenas 13% dos treinadores e assistentes eram mulheres. Essa porcentagem global foi de 11% em Tóquio-2020. No caso do Brasil, dos 84 treinadores de Paris-2024, apenas 11 eram mulheres (13%) — sendo cinco, quase a metade, da ginástica. Procurada pela GLOBO, a CBJ explicou via nota que "em razão de processo de reestruturação interna, Sarah Menezes deixa de ser integrante da Comissão Técnica da Seleção Brasileira. A CBJ expressa seu reconhecimento e agradece a Sarah Menezes por seu profissionalismo e contribuição ao judô brasileiro, tanto em sua trajetória como atleta quanto em sua atuação na comissão técnica da seleção brasileira". A nota diz ainda "Sua história no esporte é marcada por conquistas, ética e responsabilidade, valores que permanecem como parte de seu legado no judô. Por fim, a entidade reafirma a admiração por sua história e deseja sucesso, realizações e novos caminhos de conquistas em sua vida pessoal e profissional" A CBJ informou que Andrea Berti, que dividiu o posto com Sarah na seleção feminina, segue como a única treinadora no naipe. Futuro aberto Após encerrar sua carreira competitiva em 2020, quando deu à luz sua filha Nina, Sarah foi convidada pela CBJ a assumir a seleção feminina como treinadora no final de 2021, dividindo o posto com Andrea. No primeiro ano, as duas foram indicadas ao prêmio de melhores treinadoras do ano, no IJF Awards, pelos resultados obtidos no Mundial daquele ano, com os dois ouros de Rafaela Silva e Mayra Aguiar, além da prata de Beatriz Souza. A demissão de Sarah acontece após sucesso do judô nos Jogos de Paris, em 2024. Na ocasião, Sarah acompanhou Natasha Ferreira (48kg), Larissa Pimenta (52kg) e Beatriz Souza (+78kg) na cadeira de treinadora, compartilhando sua experiência olímpica com as atletas e sendo fundamental no resultado final do judô brasileiro. E em sua primeira participação olímpica como treinadora, aos 34 anos, Sarah voltou de Paris-2024 com o ouro de Beatriz Souza (+78kg) e o bronze de Larissa Pimenta (52kg) — o judô ainda conquistou o bronze por equipe. A medalha de bronze de Pimenta veio, coincidentemente, na mesma data da medalha de ouro de Sarah, em Londres-2012, 28 de julho. Cinco dias depois, Bia Souza repetiu o feito da treinadora e também sagrou-se campeã olímpica. Logo após este ano de conquistas e vitórias inesquecíveis, Sarah dedicou-se às filhas. — Ninguém vai tirar o que eu fiz. Estou feliz e grata ao meu esporte. Fui camepeã olímpica como atleta e treinadora e isso ninguém me tira. Por isso que eu só agradeço. Não tenho que reclamar. Minha relação com a CBJ sempre foi muito boa e saio com as portas abertas. Cada um tem uma maneira de pensar e agir. Eu sou assim. Sarah contou que ainda não decidiu o que fará, mas que pode voltar a trabalhar com a Prefeitura de Teresina. Em outubro de 2024, ela foi convidada para integrar o time da Secretaria de Esportes de Teresina. Chegou a aceitar o convite no início de 2025, mas teve de escolher entre a CBJ e a pasta. — À época, escolhi a CBJ. Mas os três meses de trabalho na Secretaria me deu uma visão diferente de como posso ajudar minha cidade, como posso melhorar a estrutura esportiva e educacional. Estou bem e com a consciência tranquila. Tenho outros planos e vou em frente — declara Sarah. — Não tenho certeza de nada ainda, não sou filiada a nenhum partido. Vamos ver no que vai dar.