Isolamento e arma de Israel: a rotina na prisão que abriga Vorcaro, Marcola e o espião russo; veja o vídeo

O presídio em que o banqueiro Daniel Vorcaro ficará detido é dividido em quatro blocos, que ficam isolados entre si. Em um deles, se encontra encarcerado Marcos Hermes Camacho, o “Marcola”, apontado como um número um do Primeiro Comando da Capital (PCC). Em outro, está o espião russo Sergei Cherkasov, que tem a extradição disputada entre Estados Unidos e Rússia. A Penitenciária Federal de Brasília fica a menos de 15 quilômetros da Praça dos Três Poderes. Avaliação: Ministros do STF veem como 'grave' e 'difícil' de explicar mensagens entre Moraes e Vorcaro no dia prisão do banqueiro em 2025 Repercussão: Conversa entre Vorcaro e Moraes no dia da prisão do banqueiro em 2025 amplia pressão por investigação sobre Master no Congresso A rotina no presídio é rígida e, assim como os outros detentos, Vorcaro não poderá receber comida de fora nem visitas íntimas. O contato com o mundo externo ocorrerá somente no parlatório separado por uma parede de vidro blindada. O banqueiro terá que se submeter aos procedimentos rígidos desenhados para evitar uma eventual fuga, rebelião e resgate dos líderes de facções criminosas que ali se encontram. Ele será revistado toda vez que sair do seu dormitório e algemado nos deslocamentos até a enfermaria e o banho de sol, que dura duas horas por dia. No banho de sol, a vista do céu é coberta por uma tela antidrone. Os presos dão voltas na linha e fazem exercícios físicos em grupos de até três pessoas — ultrapassar o limite pode ser considerado falta disciplinar. Às quartas-feiras, eles recebem uma bola de borracha e se dividem em times para jogar futebol. Aos fins de semana, os internos são autorizados a assistir a televisão que fica na parte de fora dos pátios. É nessa hora que o ex-investidor do Atlético Mineiro, poderá ver partidas de futebol - nunca ao vivo, apenas reprises de transmissões antigas. A cela de Vorcaro será uma das 208 celas do complexo, com 6 metros quadrados. Os presos recebem escova de dente, canetas desmontadas, barbeadores descartáveis de plástico, toalha, lençol. E não há grades nas janelas para impedir a possibilidade do que chamam de "autolesão". Em relação à alimentação, os presos recebem seis refeições ao dia, com direito a lanche pós-jantar. Mas é proibida a entrada de cigarro, chocolate e refrigerante, além de álcool e drogas. Para evitar ao máximo a saída de um preso para atendimento médico, a penitenciária de Brasília conta com minifarmácia, clínica odontológica e ambulatório - onde é possível fazer pequenos procedimentos cirúrgicos. Entre os remédios mais pedidos pelos presos estão analgésicos e antidepressivos. Não há superlotação, sujeira e o local é bastante silencioso - diferente dos presídios comuns. Como é a rotina O GLOBO esteve no presídio em julho para detalhar a rotina. Do alto de uma das torres de vigilância, policiais penais praticavam tiro ao alvo com armas israelenses recém-adquiridas para reforçar o arsenal de guerra que protege o presídio considerado “o mais seguro do Brasil”. O treinamento e o armamento pesado não são despropositados. Construída inicialmente para isolar os líderes de facções, a unidade virou modelo contra planos de fuga e resgate e abriga hoje os presos mais perigosos do país. No local, cercado por uma muralha de 9 metros de altura, estão reclusos os principais nomes do Primeiro Comando da Capital (PCC), como Marcos Hermes Camacho, o “Marcola”, e seu irmão, Alejandro Herbas Camacho Júnior, o “Marcolinha”; um integrante da máfia italiana, Nicola Assisi, conhecido como “fantasma da Ndrangheta”; e até mesmo um espião russo, Sergei Cherkasov, que tem a extradição disputada entre Estados Unidos e Rússia. ‘Agente na ala’ O dia dos detentos começa às 7h, quando os líderes do PCC, o espião russo, o mafioso italiano e outros 70 presos da unidade são acordados com o acionamento da luminária das celas individuais. “Agente na ala”, anuncia um policial penal, que distribui o café da manhã. Ao abrir a portinhola, o preso deve estar posicionado de pé no fundo do aposento. As luzes são apagadas impreterivelmente às 22h, quando é hora de dormir: “Atenção, silêncio na ala”, avisa o agente. Um dia no presídio mais seguro do país As celas extramente limpas e o silêncio nas alas contrastam com a imagem que costuma a ser associada à maioria dos presídios do país, mantidos por governos estaduais. O perfil da população carcerária também destoa do sistema estadual — a maioria é branca, já foi condenada, tem entre 30 e 50 anos e é escolarizada. Para sair da cela, o preso é algemado pela portinhola e se dirige de costas e cabeça abaixada até um dos quatro pátios do banho de sol, que mais parecem uma quadra cimentada com uma faixa amarela pintada no chão. A vista do céu é coberta por uma tela antidrone. Os presos dão voltas na linha e fazem exercícios físicos em grupos de até três pessoas — ultrapassar esse limite pode ser considerado falta disciplinar. Às quartas-feiras, eles recebem uma bola de borracha e se dividem em times para jogar futebol. Do alto, um agente observa atento a área da penitenciária de Brasília Agência O Globo/ Cristiano Mariz Agentes da penitenciária de Brasília andam numa das alas com corredores limpos: o silêncio absoluto é regra; luzes são acesas às 7h e apagadas às 22h Agência O Globo/Cristiano Mariz ]Aos fins de semana, os internos são autorizados a assistir à televisão que fica em um dos pátios. A programação inclui a transmissão de shows, filmes ou jogos de futebol (os preferidos), mas nunca ao vivo. A derrota do Brasil para a Croácia na Copa de 2022, por exemplo, só foi exibida aos detentos no ano passado. — O fato de ser um sistema rigoroso e que visa ao isolamento não significa que ele seja desumano. Não se admite casos de tortura e maus-tratos — afirma o titular da Secretaria Nacional de Polícias Penais (Senappen), André de Albuquerque Garcia. A direção da penitenciária vê esses pequenos agrados como uma forma de manter a ordem. Em meio ao racha interno no PCC que colocou de um lado Marcola, e do outro os fundadores da facção Abel Pacheco, o Vida Loca, e Roberto Soriano, o Tiriça — reclusos em outros presídios federais e “decretados” (sentenciados à morte) —, a vigilância sobre os faccionados foi redobrada. Apesar do clima tenso, a maioria dos incidentes se resumem a fraturas ocorridas durante as “peladas”. Já as faltas disciplinares mais frequentes se referem ao acúmulo de alimentos na cela — biscoito ou paçocas. A direção da penitenciária evita que os petiscos sejam usados como moeda de troca. Na unidade federal de Brasília, o cigarro está na lista de itens vetados, ao lado de chocolate, refrigerantes e bebidas alcoólicas. Refugiado ambiental devido à devastação do Cerrado, lobo-guará procura abrigo onde não pode viver Os presos recebem seis refeições ao dia, com direito a lanchinho pós-jantar. No dia em que O GLOBO esteve no local, o cardápio do almoço era uma marmita bem feita de arroz, feijão, frango à milanesa com queijo e presunto, chuchu e salada de fruta. A qualidade da comida, porém, já foi alvo de queixas na Justiça. Marcolinha, o irmão mais novo líder do PCC, por exemplo, pediu refeições sem glúten e lactose. O espião russo, por sua vez, pediu mais variedade de carboidratos, como macarrão. Estrutura médica Para evitar a saída de um preso para atendimento médico, a penitenciária de Brasília conta com minifarmácia, clínica odontológica e ambulatório — onde é possível fazer pequenos procedimentos cirúrgicos. Todas as macas e cadeiras têm suporte para algemas. Mas nem sempre a estrutura é suficiente. No mês passado, por exemplo, agentes precisaram levar Marcola para uma bateria de exames no Hospital de Base de Brasília, o que demandou a mobilização de dezenas de homens da Polícia Penal Federal e o isolamento do local. Segundo o prontuário médico do líder do PCC, ele tem sofrido com sangramentos intestinais “esporádicos” e faz uso constante de psicotrópicos para tratar depressão e ansiedade. Remédios desse gênero são os mais prescritos aos internos da unidade, diz uma enfermeira que prepara diariamente uma caixinha com as pílulas receitadas para cada detento. Alvo de operação da PF, fábrica de fuzis clandestina em SP usava sistema 'inédito': 'Não é barato' Separadas por meio de um vidro blindado, as clínicas ficam em frente às celas destinadas aos internos que tentam suicídio ou fazem greve de fome — são as únicas da unidade “vazadas” por grades para possibilitar a observação médica. Em 2020, Marcolinha foi um desses pacientes que deixou de comer por 15 dias em protesto contra a detenção. No mesmo ano, no presídio federal de Catanduvas, o traficante Elias Maluco, condenado pelo assassinato do jornalista Tim Lopes, se matou enforcado na cela. Com tempo livre e estimulados por um programa que abate o tempo de pena mediante a entrega de resenhas literárias, os presos federais se tornam leitores assíduos — um dos títulos mais requisitados por eles é a coletânea de “Game of Thrones”, de George R. R. Martin, que foi lida tanto por Marcola quanto por Cherkasov. Os livros passam por vistoria constante para não serem utilizados para troca de bilhetes. A fiscalização sobre anotações que possam servir de comunicação dos detentos já foi alvo de reclamação de Cherkasov. Em uma vistoria em sua cela, policiais penais confiscaram papéis que, segundo ele disse ao Ministério Público, eram “palavras cruzadas” que ele criava para passar o tempo. Segundo ele, por “não entender o idioma”, os agentes pensaram tratar-se de “mensagens cifradas ou códigos secretos”. A presença dos estrangeiros na unidade levou a mudanças nas regras na penitenciária federal. As conversas nos parlatórios passaram a ser obrigatoriamente em português ou com a presença de um tradutor. A norma começou a valer depois que representantes do consulado iraniano foram flagrados conversando em persa com o iraniano Farhard Marvizi, o Tony, acusado de chefiar um grupo de extermínio formado por policiais e ex-policiais em Fortaleza. Penitenciária de Brasília: enquanto um agente se aproxima da cela, o outro faz vigília com arma de choque Agência O Globo/Cristiano Mariz O parlatório é o único local onde os detentos têm contato com alguém de fora, uma vez que as visitas íntimas são proibidas. Seja com o defensor ou familiares, todos os diálogos são grampeados e monitorados por uma equipe de inteligência, que já flagrou advogadas escondendo bilhetes no sutiã ou mesmo na boca. Foi numa dessas conversas no parlatório que Marcola admitiu pela primeira vez ser líder do PCC, segundo o Ministério Público. “E foi aí que eu me tornei o chefe do negócio. Porque antes disso aí (assassinato da sua primeira mulher por membros da facção), eu não era chefe de nada, entendeu?”, disse ele a um advogado em 2022. Para se chegar à ala dos presos, é preciso passar por três detectores de metal e não há sinal de celular. O espaço aéreo é fechado. E scanners radiografam o subsolo em busca de túneis nas proximidades. Fuga em Mossoró Apesar da segurança extrema, a fuga de dois detentos em fevereiro do ano passado, em Mossoró, motivou reformas também na unidade de Brasília. O episódio foi o primeiro registrado em uma penitenciária federal. Na ocasião, integrantes do Comando Vermelho escaparam usando o vão de uma luminária. Depois disso, foram instaladas três barras de metal nas luminárias das celas. Uma barra fina ainda foi colocada no vão das portas para evitar que os presos jogassem bilhetes por baixo delas. Policial faz treinamento com uma metralhadora israelense na penitenciária de Brasília Agência O Globo/Cristiano Mariz Apesar de nunca ter registrado fuga, a unidade de Brasília já entrou em alerta máximo de segurança duas vezes desde sua inauguração em 2019. Isso ocorre quando um protocolo de defesa, batizado atualmente de “Óbidos” — em referência à cidade fortificada de Portugal —, é acionado. O episódio mais recente ocorreu em novembro de 2024, após um homem detonar explosivos em frente ao STF. — Se um dia ocorresse uma invasão em Brasília, aqui seria o lugar mais seguro para se refugiar — afirma a diretora do presídio, Amanda Teixeira, enquanto mandava abrir um portão de aço com oito camadas de blindagem.