O retorno de Willa Ford ao universo musical demorou mais de vinte anos - e foi resultado de uma jornada difícil. No início dos anos 2000, quando estrelas do pop como Britney Spears, Christina Aguilera e Mandy Moore dominavam as paradas, Ford - que tem formação em canto lírico - acabou sendo associada a uma imagem de “garota má” ao lançar seu primeiro grande sucesso, “I Wanna Be Bad”, em 2001. A faixa, marcada por uma atitude confiante e sensual, ganhou ainda mais repercussão com um videoclipe estilizado em que a cantora aparece dançando de forma provocante, flertando com policiais e fugindo com o carro deles. O single acabou se tornando seu cartão de visitas. Ao mesmo tempo, Ford aprimorou suas habilidades de composição ao trabalhar com nomes consagrados da indústria como Diane Warren e Desmond Child. Mesmo assim, naquele período ela lançou apenas um disco, Willa Was Here - até agora. Hoje, aos 45 anos, Ford finalmente retoma sua trajetória musical e abraça uma nova fase na carreira. Sentada no restaurante de um hotel em Midtown Manhattan, ela demonstra entusiasmo ao falar sobre o lançamento do novo álbum, amanda. Enquanto bebe chá verde quente, usa um moletom preto com a frase “Finja que sou uma estrela pop”. A peça reflete bem o momento atual da artista: mais tranquila, leve e focada em fazer música por prazer - para si mesma e para quem a acompanha desde o começo. Revistas Newsletter “Eu não entendia por que não me sentia à vontade fazendo música”, declara Ford sobre seus anos de afastamento. “O medo me paralisava.” Nos primeiros anos dos anos 2000, o segundo álbum da cantora acabou sendo engavetado após mudanças internas em sua gravadora da época, a Atlantic Records. Desde então, ela chegou a tentar voltar a compor em alguns momentos, mas admite que acabava desistindo. Com o tempo, outra forma de criatividade passou a ocupar espaço em sua vida: o design de interiores. Depois de projetar casas para si e para amigos, Ford decidiu investir na área profissionalmente. Em 2012, criou seu próprio estúdio, o WFord Interiors. Hoje, ela costuma comparar o processo de produzir música com decorar um ambiente. “É como se a linha de baixo fosse um tapete”, explica. Atualmente, seu negócio de design continua sendo a principal atividade profissional - inclusive rendendo participações no reality imobiliário Flip It Like Disick, do canal E!, ao lado de Scott Disick. Mas foi uma crise de saúde que acabou reacendendo sua relação com a música. Willa Ford Elias Tahan Em dezembro de 2023, Ford começou a sofrer crises não epilépticas psicogênicas (CNEP), episódios que podem ter origem psicológica. “As crises foram o que me fizeram decidir que eu ainda não tinha terminado de viver”, diz ela. Na época, a artista não conseguia dirigir nem trabalhar. Quando descobriu que os episódios estavam ligados a um trauma antigo relacionado à música, Ford voltou a compor como forma de enfrentamento. “Era tudo o que eu conseguia fazer”, conta. Hoje, com acompanhamento terapêutico, medicação para ansiedade e remédios de emergência, as crises ocorrem apenas cerca de uma vez por mês. A cantora, que tem dois filhos com o ex-jogador de futebol americano Ryan Nece, prefere não detalhar o trauma vivido durante sua passagem pela indústria musical, mas confirma que ele teve papel central em sua decisão de se afastar. “O que posso dizer é que não teve nada a ver com a minha gravadora [Atlantic Records], meus colegas de gravadora, um produtor ou qualquer coisa do tipo. Não foi ninguém com quem eu trabalhei. É uma história inacreditável, que nem parece real”, relembra Ford. Embora admire outras mulheres que decidiram tornar públicas experiências semelhantes, ela afirma que prefere preservar certos aspectos da história - principalmente por causa dos filhos. "Recuperar essa pessoa não me ajuda em nada", explica ela. "Só me ajuda a me curar e seguir em frente." Willa Ford Elias Tahan Ford continua: “Tudo termina comigo. Aconteceu. Eu lidei com isso, perdoei, segui em frente. Está no disco [ Amanda ]. Mas acho que estamos começando a jogar luz sobre pessoas que todos pensávamos serem heróis e talvez não sejam.” A experiência de lidar com lembranças intensas aparece na faixa “Disassociate”, uma música pop de ritmo moderado que aborda diretamente seus episódios de CNEP. Na canção, ela descreve a sensação física e emocional das crises. "Para mim, simplesmente desistir e entregar tudo não é do meu feitio. Nunca foi", diz ela. O álbum amanda, com 12 faixas, representa para Ford um verdadeiro recomeço. Ela participou da composição de todas as músicas e trabalhou ao lado de diversos compositores e produtores. O projeto mistura faixas feitas para as pistas de dança, influências de R&B com toque operístico e até referências pop mais hedonistas - como as associadas a Kesha. Segundo a cantora, o processo de criação foi marcado por uma postura sem ego. “O mundo não precisa que Willa Ford cante. Ninguém precisa de mim. Existem cantores pop, existem estrelas pop, ninguém precisa de mim”, ela se lembra de ter dito no início do processo. Foi o amigo e colaborador Jonathan Bluth quem a convenceu a continuar. “Comecei a acreditar que o mundo não precisava necessariamente de mais um cantor pop, mas que havia uma comunidade que era oprimida diariamente e que talvez precisasse de mim”, diz Ford, mencionando a comunidade LGBTQ+. “Então, posso mudar a vida de cinco pessoas? Ok, eu topo.” Mesmo disposta a voltar, ela sabia que precisava encontrar uma abordagem que refletisse sua fase atual. “Não precisamos necessariamente de outra música sobre 'ser mau', mas existem maneiras de escrever músicas que podem ser sobre 'ser mau', mas que também tenham algum conteúdo, e podemos dançar também”, ela ri. “Então, esse era realmente o meu objetivo com o disco.” Willa Ford Elias Tahan No fim de 2025, Ford lançou o primeiro single do projeto, “Burn Burn”, seguido por “Love4Life” e “Carousel”, faixa que ela considera uma de suas melhores composições. Ao lembrar da criação da música, diz que buscava algo que misturasse sensualidade e referências dos The Beach Boys. Quem ainda canta “I Wanna Be Bad” no karaokê ou se lembra da cena em que a personagem Daphne, interpretada por Amanda Bynes, desfila ao som da música no filme What a Girl Wants, encontrará ecos daquele pop em amanda. No entanto, o novo trabalho também traz reflexões mais profundas sobre perdão, cura emocional e relacionamentos. Hoje, Ford financia sua carreira musical de forma independente. "No momento, sou totalmente autofinanciada", diz Ford. "Meu negócio de design de interiores é minha startup pop. Sou uma estrela pop à noite." Apesar de viver uma fase diferente da juventude, ela olha para o início dos anos 2000 - período marcado pelo auge do pop - como uma etapa formadora. "A melhor época para se estar vivo", diz Ford. "A mais difícil, mas a melhor." Mesmo com a pressão da mídia e o forte escrutínio enfrentado por mulheres famosas naquele período, a cantora prefere lembrar com gratidão. "Você não pode olhar para o passado e pensar: 'Bem, o que deveria [ou] poderia [ter acontecido]'. Isso não ajuda em nada. E, no meu caso, sou grata pelas coisas que aconteceram ", diz ela. Ford também guarda grande respeito pelas artistas que dividiram o cenário pop com ela naquele período. "Nem conseguíamos ter um encontro casual porque nunca nos víamos, pois estávamos trabalhando demais", diz ela. "Essas são algumas das mulheres mais trabalhadoras da indústria que você jamais conhecerá." Hoje, ela brinca que adoraria fazer uma grande turnê ao lado de Spears, Aguilera, Moore e também de Jessica Simpson. "Todas as noites [a gente dizia] tipo, 'Você é demais, você é demais, você é demais'", ela diz. Por enquanto, porém, a cantora prefere concentrar suas energias no presente e celebrar o lançamento de seu segundo álbum, aguardado por décadas. "Tudo o que posso dizer é que estou muito orgulhosa de estar aqui." Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!