Fabiana Cozza e Gilson Peranzzetta dão outras cores e tons ao cancioneiro de Dorival Caymmi em show requintado

O pianista Gilson Peranzzetta e a cantora Fabiana Cozza se afinam no show 'Cores de Caymmi', apresentado no Espaço Cultural BNDES Rodrigo Goffredo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Cores de Caymmi Artistas: Fabiana Cozza e Gilson Peranzzetta Data e local: 5 de março de 2026 no Espaço Cultural BNDES (Rio de Janeiro, RJ) Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2 ♬ O cancioneiro de Dorival Caymmi (30 de abril de 1914 – 16 de agosto de 2008) já foi alvo de atentados em abordagens que, em nome de suposta modernidade, descaracterizaram a obra tão sofisticada quanto aparentemente simples do compositor baiano. Contudo, o fato de esse cancioneiro ser formalmente irretocável jamais deve anular tentativas de friccionar a obra do compositor para imprimir outros tons em músicas já consagradas nas interpretações do próprio Dorival, da filha Nana Caymmi (1941 – 2025) e de intérpretes sagazes como Gal Costa (1945 – 2022). A própria neta do compositor, Alice Caymmi, tem conseguido dessacralizar a obra do avô sem profaná-la. Primeira atração da temporada de 2026 do Espaço Cultural BNDES, local que oferece programação gratuita para o público do Rio de Janeiro (RJ), o inédito show “Cores de Caymmi” estreou na noite de ontem, 5 de março, reunindo a cantora Fabiana Cozza e o pianista e arranjador Gilson Peranzzetta em enfoque requintado das músicas de Dorival. O cancioneiro de Caymmi ganhou tom jazzy em algumas passagens instrumentais feitas por Peranzzetta com os músicos Alexandre Cavallo (baixo) e Ricardo Costa (bateria), a exemplo do que foi visto e ouvido no samba “Saudade da Bahia” (1957), sendo que o brilho maior do show veio do colorido do canto de Fabiana Cozza, excepcional intérprete de 50 anos festejados em janeiro. Em total sintonia com os refinados arranjos criados para o show por Peranzzetta, que completará 80 anos em abril, Fabiana amaciou o canto em músicas como “Dora” (1945), número em que exprimiu o encantamento do eu-lírico da composição com os requebros da personagem-título em linha sabiamente distante da intensidade de Nana Caymmi, cantora que tomou “Dora” para si. Fabiana Cozza nem reproduziu o clímax “Ô Doraaaa...” das interpretações de Nana, reverenciada em cena pela artista paulistana com o canto do samba-canção “Só louco” (1955) em número denso. Nessa linha suave, Fabiana Cozza arrebatou o público ao se aninhar ao lado do piano de Peranazzetta para, com toda ternura, entoar “Acalanto”, canção de ninar composta em 1942, lançada em disco em 1957 e, três anos depois, gravada por Dorival com Nana no nascimento da filha como cantora em 1960. Outro momento luminoso do sofisticado show foi a reinterpretação do samba “Morena do mar” (1967), reapresentado em tom mais solene, quase como uma peça de câmara. Fabiana Cozza deu show! Fabiana Cozza amacia o canto ao dar voz a músicas como 'Acalanto' e 'Morena do mar' Rodrigo Goffredo O show foi aberto com suíte instrumental em que Gilson Peranzzetta, a sós no palco do Espaço Cultural BNDES, encadeou ao piano o samba “Dois de fevereiro” (1957) com “A lenda do Abaeté” (1948) – no tom escuro da mítica lagoa situada na orla de Salvador (BA), precisamente no bairro de Itapuã – e com “Canção da partida” (1957), tema da suíte “Histórias de pescadores”. Os arranjos de Gilson Peranzzetta buscaram outros caminhos harmônicos para o cancioneiro de Dorival Caymmi sem mutilar as melodias. O único momento menos sedutor do show foi a forma como Peranzzetta pintou “Marina” (1947), tornando o samba-canção por vezes irreconhecível na execução em número instrumental feito pelo trio formado pelo pianista com o baixista Alexandre Cavallo e o baterista Ricardo Costa. Curiosa e ironicamente, como contou Peranzzetta ao público, o arranjo foi feito para evidenciar a “maravilha de melodia” criada por Caymmi na fase em que o compositor refinou o samba-canção, se desviando do dramalhão sentimental quase sempre imposto ao gênero. Após esse número instrumental, feito de músico para músico sem tanta conexão com o público, Peranzzetta chamou Fabiana Cozza para se juntar ao trio no palco do Espaço BNDES. E o que se viu e ouviu dali em diante foi cantora em estado de graça desde que deu voz ao samba “Você já foi à Bahia?” (1941) e, na sequência, pôs o próprio tempero em “Vatapá” (1944), outro samba em que Caymmi contribuiu decisivamente para que a Bahia fosse cristalizada como um paraíso tropical afro-brasileiro no imaginário nacional. Fabiana Cozza caiu no samba de Caymmi com requebros suaves, como visto no canto de “A vizinha do lado” (1946) e de “Doralice” (Dorival Caymmi e Antônio Almeida, 1945), cujo balanço seduziu ninguém menos do que João Gilberto (1921 – 2019). Quando puxou a rede de “Canoeiro” (1944), a cantora fez emergir nos floreio vocais a alta carga de ancestralidade afro-brasileira embutida no cancioneiro de Caymmi em número encantador. No fim, o canto de “Samba da minha terra” (1940) e de “Maracangalha” (1956) – este com o coro espontâneo do público e com Fabiana Cozza experimentando algumas divisões próprias – arremataram show impregnado de beleza gerada pela total afinação e interação da cantora com o pianista e maestro. Fabiana Cozza e Gilson Peranzzetta imprimiram as próprias cores à obra de Dorival Caymmi com reverência ao magistral compositor. Você foi ao show da dupla? Não?! Então vá quando o show “Cores de Caymmi” estiver em cartaz na cidade em que você mora. Fabiana Cozza canta Dorival Caymmi com arranjos inéditos do pianista Gilson Peranazzetta Rodrigo Goffredo ♫ Eis o roteiro seguido por Fabiana Cozza e Gilson Peranzzetta em 5 de março de 2026 na estreia do show “Cores de Caymmi” no Espaço Cultural BNDES no Rio de Janeiro (RJ): 1. “Dois de fevereiro” (Dorival Caymmi, 1957) / 2. “A lenda do Abaeté” (Dorival Caymmi, 1948) / 3. “Canção da partida” – tema da “Suíte dos pescadores” (Dorival Caymmi, 1957) 4. “Marina” (Dorival Caymmi, 1947) 5. “Você já foi à Bahia?” (Dorival Caymmi, 1941) 6. “Vatapá” (Dorival Caymmi, 1944) 7. “Dora” (Dorival Caymmi, 1957) 8. “A vizinha do lado” (Dorival Caymmi, 1946) 7. “Morena do mar” (Dorival Caymmi, 1967) 8. “Doralice” (Dorival Caymmi e Antonio Almeida, 1945) 9. “Serenata de São Lázaro” (Gilson Peranzzetta e Paulo César Pinheiro, 2011) 10. “Saudade da Bahia” (Dorival Caymmi, 1957) 11. “Só louco” (Dorival Caymmi, 1955) 12. “Canoeiro (Pescaria)” (Dorival Caymmi, 1944) 13. “Acalanto” (Dorival Caymmi, 1957) 14. “Samba da minha terra” (Dorival Caymmi, 1940) 15. “Maracangalha” (Dorival Caymmi, 1956) Bis: 16. “Canto de Ossanha” (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966)