Propinas, sumiço de provas e lavagem de dinheiro: o que se sabe sobre o esquema de corrupção na Polícia Civil de SP

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e a Polícia Federal realizam na última quinta-feira uma operação contra um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro que teria se instalado em departamentos estratégicos da Polícia Civil de São Paulo. As investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) apontam que o grupo usava sua influência para travar investigações e transformava dinheiro de propina em créditos de vale-refeição para ocultar a origem dos valores. Os casos narrados na decisão judicial que levou a prisão de nove pessoas incluem negociatas realizadas no hangar da Polícia Civil de São Paulo, invasões a delegacias e destruição de provas. Áudios obtidos pela GloboNews revelam as tratativas, que envolviam advogados e doleiros. Dois envolvidos no caso estão foragidos. Em um dos áudios, o advogado Guilherme Nasser conversa com o doleiro Cléber Azevedo dos Santos. Ambos negociam o pagamento de ao menos R$ 100 mil em propina para interromper um inquérito policial aberto em outubro de 2022. — Eu acho que uns “cinquentinha” de um lado, “cinquentinha” de outro, a gente consegue matar isso daí, entendeu? Eu acredito. Comigo eles não “acharcam”, porque esse delegado aí eu conheço muito bem, tá? Ele deve muito para mim. Então eu consigo tirar isso aí numa boa. Agora você está falando que não teve? Porque eu vi o RIF [Relatório de Inteligência Financeira] lá. Já tem o RIF na mão — afirmou Nasser. Advogado e doleiro negociam propina para interromper investigação em SP, aponta MPSP O delegado citado na conversa é João Eduardo da Silva, à época responsável pelo 16º Distrito Policial (Vila Clementino), em São Paulo. Posteriormente, ele passou a atuar no 35º Distrito Policial (Jabaquara) e foi preso na operação realizada na quinta-feira (5). Em nota, a defesa de João Eduardo afirma que ainda não teve acesso “à íntegra dos documentos e elementos que compõem a investigação. Dessa forma, à luz do princípio constitucional da presunção de inocência, qualquer ilação ou afirmação de culpa [...] revela-se não apenas precipitada, mas também desprovida de fundamento”. Nasser foi alvo de busca e apreensão e de medidas cautelares impostas pela Justiça. Como funcionava o esquema Segundo as investigações, o diálogo ilustra o funcionamento do esquema investigado pelo Ministério Público. Integrantes do grupo utilizavam relatórios de inteligência financeira (RIFs) para escolher seus alvos. O documento, produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), pode ser solicitado por qualquer delegado no curso de uma investigação. De acordo com o MP, ao obterem os dados, os policiais propositalmente não juntavam o RIF aos autos do inquérito oficial, criando uma investigação “paralela”, sem controle do Ministério Público ou do Poder Judiciário. Na sequência, os policiais ameaçavam formalizar as informações do RIF no processo — ameaça que era usada para exigir pagamentos. Doleiros que tomavam conhecimento das investigações ofereciam propina para que os procedimentos fossem interrompidos. Para lavar o dinheiro, o grupo contava com uma rede de comércios de fechada. A ideia era dificultar o rastreio da propina passando os valores por padarias e restaurantes. Os valores eram recebidos através de cartões do benefício de vale-refeição. A operação prendeu nove pessoas, entre elas doleiros conhecidos, como Meire Bonfim da Silva Poza, que ficou nacionalmente conhecida por contribuir com as investigações da Operação Lava-Jato, em 2014. Além dos doleiros e advogados, a operação também mirou quatro policiais civis — dois investigadores, um delegado e um escrivão. Entre os presos estão João Eduardo da Silva (delegado do 35º DP); Roldnei Eduardo dos Reis Baptista (investigador do DPPC que atua na 1ª Delegacia de Combate à Corrupção); Rogério Coichev Teixeira (investigador do Serviço Aerotático); e Ciro Borges Magalhães Ferraz (escrivão no 35º DP). Os advogados de João Eduardo, que se manifestaram no início do texto, também defendem o escrivão Ciro Borges. Eles afirmam, em nota, que os dois estão “amparados pela presunção de inocência, garantia fundamental do Estado de Direito, razão pela qual qualquer juízo antecipado sobre os fatos deve ser evitado”. Também foram presos Cléber Azevedo dos Santos, Robson Martins de Souza, Antônio Carlos Ubaldo Júnior e Marlon Antonio Fontana (advogado). Um dos integrantes do grupo criminoso, Paulo Roberto Dias, conhecido como Barão e o doleiro Leonardo Meirelles estão foragidos. O GLOBO não conseguiu localizar a defesa dos demais citados. A operação volta a mirar o Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC), que, segundo a denúncia, teria se transformado em “balcões de negócios” para garantir a impunidade de uma organização criminosa. A divisão era chefiada por Fábio Caipira à época dos fatos. Ele foi afastado, em dezembro de 2024, por ter sido citado na delação de Vinícius Gritzbach, assassinado no aeroporto de Guarulhos, que narrava extorsões supostamente praticadas por policiais civis para interferir em inquéritos que investigavam o empresário. Em janeiro, Caipira foi nomeado diretor do Dope (Departamento de Operações Policiais Estratégicas) da Polícia Civil. Hangar da polícia Um dos “balcões de negócios” dos criminosos, segundo a Justiça, era o hangar da Polícia Civil localizado no Campo de Marte, na Zona Norte de São Paulo. O local era utilizado como ponto de encontro para o pagamento de propinas em espécie, segundo denúncia do Ministério Público de São Paulo (MPSP). Mensagens interceptadas ao longo da investigação mostram que o endereço do hangar era compartilhado com membro do grupo para coordenar a entrega de quantias em dinheiro. Em um dos episódios citados, há a indicação do repasse de dinheiro em espécie. Os diálogos mostram os investigados se comunicando para entregar quantias de dinheiro para o investigador Rogério Coichev Teixeira, do Serviço Aerotático, que tinha acesso ao hangar. “Fala pra ele procurar lá o Rogério Coichev, dentro do hangar da Polícia Civil, só para não correr o risco dele entregar errado, tá”, teria dito em março de 2023 Antônio Carlos Ubaldo Júnior para Robson Martins de Souza, os dois apontados como membros do esquema criminoso. Em abril do mesmo ano, há uma troca de mensagens entre Robson e um homem de nome “Alexandre”, que teria entregue R$50 mil em espécie para Rogério Coichev. Robson manda o endereço do hangar da Polícia Civil e escreve “só 50, na mão do Rogério”. O homem responde, cerca de 30 minutos depois, “entregue”. O Ministério Público afirma que o caso revela “audácia e certeza de impunidade”, uma vez que os pagamentos teriam ocorrido tanto por meio de transferências via Pix quanto em mãos, dentro das próprias instalações policiais. Destruição de provas Outro episódio descrito nos documentos da investigação é a suposta substituição de um HD cheio de provas dentro de uma delegacia na região central de São Paulo. Segundo a decisão, Robson Martins de Souza, o advogado Marlon Antonio Fontana e Antônio Carlos Ubaldo Junior agiram para substituir um HD com provas armazenado dentro do DPPC, na região central da cidade de São Paulo. O HD teria sido apreendido em uma operação policial anterior, que investigava um grupo suspeito de lavagem de dinheiro. Robson e Marlon teriam agido em conjunto em outubro de 2022 para substituir o dispositivo, que continha provas contra a quadrilha, e teriam contado com o auxílio do investigador Roldnei Eduardo dos Reis Baptista. A operação teria sido bem sucedida. Em dezembro de 2022, mensagens de Marlon para Robson indicavam que a polícia teria analisado o HD e não encontrou nada comprometedor contra um cliente do advogado. Em janeiro de 2023, Marlon e Robson teriam voltado a discutir o uso da mesma estratégia em outra delegacia. Lava Jato Conhecida nacionalmente por ter atuado como peça-chave nas investigações da Operação Lava Jato, Meire Poza voltou aos holofotes ao ser presa durante a operação do Ministério Público. Ex-contadora do doleiro Alberto Youssef, Meire ganhou notoriedade ao prestar depoimento às autoridades no âmbito da Operação Lava-Jato. À época, ela detalhou a estrutura financeira montada para operacionalizar pagamentos ilícitos, descrevendo o funcionamento interno do esquema e a dinâmica de repasses a agentes públicos e operadores políticos. Suas declarações contribuíram para esclarecer a engrenagem contábil que sustentava as transações investigadas. Também investigada no curso da Lava-Jato, Meire firmou acordo de colaboração premiada e passou a atuar como testemunha em diferentes ações penais. Em 2016, chegou a anunciar a criação de uma ONG voltada ao apoio de testemunhas e colaboradores da Justiça. Agora, segundo o MPSP, a contadora teria atuado na estruturação contábil de empresas de fachada utilizadas por um grupo suspeito de pagar propinas a policiais civis. De acordo com a denúncia, agentes públicos transformavam dinheiro em espécie em créditos de vales-refeição para ocultar a origem ilícita dos recursos. A investigação aponta ainda o uso de empresas fictícias e a simulação de operações de importação para conferir aparência legal aos valores. No documento, o Ministério Público afirma que Meire “atuava com plena consciência da ilicitude das operações realizadas por essas pessoas jurídicas”. Mensagens interceptadas indicam que, em outra apuração — a Operação Fractal, que desmantelou um esquema de fraudes bancárias e ocultação de patrimônio — ela teria contado com o auxílio de um integrante da organização criminosa agora investigada. Em uma das conversas, o suspeito, descrito como “elo” entre os agentes corruptos, afirma: “Já está tudo acertado com os caras lá dentro”. Quando foi intimada a depor no DPPC, no âmbito da Fractal, a organização teria se mobilizado para protegê-la. Segundo a investigação, esse mesmo integrante ofereceu um advogado para acompanhar o depoimento, com o objetivo de orientar e controlar sua fala perante a autoridade policial. Além de Meire, também foi citado na operação deflagrada hoje o doleiro Leonardo Meirelles, que na Lava-Jato atuava na intermediação de pagamentos no exterior, utilizando contas bancárias fora do país e empresas offshore para viabilizar a circulação de recursos de origem ilícita. Ele foi preso nas primeiras fases da operação e posteriormente firmou acordo de colaboração premiada. Na nova investigação, Meirelles é descrito como alguém que atuava de forma sistemática “na promessa e no pagamento de vantagens indevidas a policiais civis de delegacias especializadas”, como o DEIC e o DPPC. “O objetivo era que esses agentes retardassem investigações, deixassem de praticar atos de ofício ou ‘blindassem’ os integrantes do grupo criminoso”, afirma o MPSP. O GLOBO apurou com a Polícia Civil que as delegacias citadas na investigação, como o DEIC, o DPPC e o 16º DP da Vila Clementino, vão passar por um processo correcional. Os envolvidos foram afastados das funções, mas seguem na corporação e só seriam demitidos com os avanços do processo judicial. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que a Corregedoria da Polícia Civil participa da operação e que "a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades".