Qual foi a sensação ao ver um faraó que permanecera intocado por mais de três mil anos? Foi esse o clima de expectativa que marcou o dia 6 de março de 1924, quando autoridades egípcias e pesquisadores acompanharam a abertura do sarcófago que guardava a múmia de Tutancâmon. Hoje, o episódio completa 102 anos e permanece como um dos momentos mais emblemáticos da arqueologia moderna. Na câmara funerária iluminada por lamparinas de óleo, a tampa do sarcófago foi retirada sob supervisão do governo egípcio. Quando a cobertura cedeu, surgiu um corpo escurecido e rígido, envolto em bandagens endurecidas por camadas espessas de resina. Não havia ouro ou adornos visíveis naquele instante, apenas a presença silenciosa do jovem faraó, preservado desde o século XIV a.C. O arqueólogo britânico Howard Carter, responsável pela descoberta do túmulo, acompanhou a cena à distância. O momento também tinha significado político: o Egito buscava afirmar controle sobre seu patrimônio arqueológico após décadas de influência britânica, e a inspeção do corpo foi conduzida oficialmente pelas autoridades locais. A descoberta que fascinou o mundo O túmulo de Tutancâmon havia sido encontrado em 4 de novembro de 1922, no Vale dos Reis, após anos de buscas conduzidas por Carter e financiadas por Lord Carnarvon. A descoberta surpreendeu a comunidade científica porque a tumba estava praticamente intacta — algo raro em uma região frequentemente saqueada ao longo dos séculos. Quando Carter espiou pela primeira vez a entrada selada, em 26 de novembro daquele ano, descreveu o que via com uma frase que se tornaria histórica: “Vejo coisas maravilhosas”. Dentro da tumba estavam mais de cinco mil objetos funerários, entre tronos, carruagens cerimoniais, joias, armas e artefatos religiosos. Nos meses seguintes, especialistas trabalharam cuidadosamente para catalogar e remover os itens. Apenas em fevereiro de 1923 a câmara funerária foi aberta oficialmente. Já a confirmação do estado da múmia só se tornou possível com a abertura do sarcófago e o exame direto do corpo, concluído no ano seguinte. O estudo revelou que o faraó morreu jovem, com cerca de 18 ou 19 anos, e que seu corpo havia sido preservado em condições notavelmente próximas ao estado original do embalsamamento. Décadas depois, exames com raios-X, tomografias e análises genéticas aprofundariam as investigações sobre sua saúde e possível causa da morte — ainda hoje cercada de mistério. Mais de um século após a abertura do sarcófago, a múmia de Tutancâmon permanece no Egito sob condições ambientais controladas. O jovem rei, que governou por poucos anos, acabou se tornando o faraó mais famoso da história — e símbolo de uma descoberta que transformou para sempre o estudo do Egito Antigo.