A plataforma da estação de trem do Engenho Novo vira cenário de encontros, conversas e inquietações juvenis. Nos arredores da Escola Municipal Luís de Camões, no bairro do Colégio, estudantes transformam vivências em cena. No trajeto que liga o Centro ao Complexo da Penha/Alemão, a câmera registra a cidade em movimento. É nesse percurso urbano e social que se constrói “Hora do recreio”, documentário dirigido por Lucia Murat que estreia nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira, 12 de março. Samba de primeira: Jorge Aragão faz show no Renascença Golpe em idosos: Mulher que aplicava 'Boa noite, Cinderela' e havia fugido da cadeia é presa novamente Antes de chegar ao circuito comercial, o longa promove ao longo da semana uma série de sessões especiais e gratuitas voltadas a estudantes, professores e grupos artísticos de comunidades do Rio — especialmente da Zona Norte, onde parte significativa das filmagens foi realizada. A produção recebeu a Menção Especial do Júri Jovem na mostra Generation 14Plus do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Para a diretora, o reconhecimento tem um peso particular por vir justamente do público que o filme retrata. — Para mim foi muito importante. A estreia em Berlim foi numa sala de mil lugares, com a plateia atenta o tempo inteiro. Depois fizemos várias sessões voltadas especialmente para jovens, sempre com debates muito intensos. Acho que essa experiência e o prêmio mostram que o filme consegue transmitir a realidade brasileira e criar empatia, mesmo em um país tão diferente como a Alemanha — afirma. Filme seguido de debate e palestra sobre cinema e filosofia: Zona Norte tem eventos especiais sobre a sétima arte Estudantes na estação de trem no Engenho Novo, um dos cenários do filme Divulgação/Taiga Filmes Com produção da RioFilme e da Imovision, que também faz a distribuição, e patrocínio da Ancine FSA e do BRDE, o documentário mergulha no cotidiano da educação pública brasileira e tem como destaque a encenação de “Clara dos Anjos”, romance de Lima Barreto. A obra, publicada no início do século XX, atravessa o filme como ferramenta de reflexão sobre racismo estrutural, feminicídio e evasão escolar. Segundo Lucia Murat, a escolha do texto literário foi pensada desde o início do projeto. — Nas escolas que visitei durante a pesquisa, antes das filmagens, temas como racismo e feminicídio já apareciam com muita força nas falas dos alunos. Pensei que a encenação de “Clara dos Anjos” poderia criar uma ponte entre o passado e o presente. A comparação entre o que acontecia no início do século XX e o que ainda acontece hoje é inevitável — diz. Seguro de veículos é mais caro no Rio; na Zona Norte, valor pode ser quase 80% maior que na Zona Sul A diretora defende que levar o filme de volta às escolas é mais do que uma ação de divulgação, é uma obrigação ética e política. — Em tese, isso deveria acontecer com todos os filmes brasileiros. Deveria haver uma política pública consistente que levasse alunos da rede pública ao cinema. Hoje, para muitos deles, essa experiência se tornou cara e distante. No caso de “Hora do recreio”, isso é ainda mais importante, porque os protagonistas são estudantes da rede pública. Estamos organizando sessões para eles, para seus familiares e para diversas escolas de ensino médio. Raquel Martins em cena: moradora de Quintino Bocaiúva, ela leva para o filme debates sobre racismo e a realidade da periferia Divulgação/Taiga Filmes Ela conta que o impacto das gravações marcou a equipe desde o início. Menos esgoto na Baía de Guanaraba: Desobstrução de rede na Zona Norte evita que dois milhões de litros de dejetos sejam lançados por dia — Quando filmamos a primeira escola, que abre o documentário, a equipe inteira chorou. O que está no filme é a realidade que encontramos. Foi impactante não apenas pelas denúncias, mas pela coragem com que aqueles jovens relatavam histórias tão duras — relembra. Entre os espaços retratados está a Escola Municipal Luís de Camões, que completa 85 anos e ocupa papel central na narrativa. A unidade ganhou uma sessão comemorativa no Kinoplex Nova América, em Del Castilho. Para Lucia, a presença de uma escola pública do subúrbio carioca em um festival internacional carrega simbolismo. — A Luís de Camões foi um dos grandes exemplos da nossa pesquisa, com direção e professores muito comprometidos com a educação e com a realidade social dos alunos. Em Berlim, ouvi repetidas vezes que a força do filme estava na resiliência desses estudantes, que não aparecem apenas como vítimas. 30 anos do MAC: Com quatro exposições simultâneas, museu em Niterói inicia comemoração do aniversário A estudante Amélia Porfírio, que na época das filmagens cursava o 9º ano e hoje está no 3º ano do ensino médio na Escola Municipal Luís de Camões, ressalta a marca que a experiência deixou: — Fazer parte do filme foi muito especial. Eu me diverti, me soltei de verdade e, principalmente, pude falar sobre racismo, que ainda precisa ser debatido. É importante ver que existem pessoas dispostas a aprender e a mudar. Para o professor Michel Azevedo, do ensino fundamental II, o projeto ultrapassou os limites tradicionais da sala de aula: Mudança no trânsito: Obra no emissário terrestre de Icaraí, em Niterói, altera circulação na região — Participar do filme ao lado dos meus alunos, tratando de temas tão sensíveis, foi uma experiência transformadora. O debate sobre racismo, por exemplo, não pode ficar restrito ao conteúdo formal. Entre os jovens retratados está Raquel Martins, moradora de Quintino Bocaiúva. Estudante na época das filmagens, ela acompanhou a repercussão internacional à distância. — Foi emocionante. Como artista, é empolgante ver até onde a nossa arte pode chegar. Saber que a nossa história estava sendo exibida em Berlim, para pessoas com vivências tão diferentes, foi eletrizante — afirma. Raquel também ressalta o diálogo entre literatura e realidade. — Durante os ensaios, percebemos como a história escrita pelo Lima Barreto, lá no início do século XX, é ao mesmo tempo distante e muito parecida com a nossa realidade. Isso surpreende — diz. Carnaval: Mestre Ciça brilha em Niterói, mas é do Estácio: ‘Aqui se formam sambistas e batuqueiros’ Mulher preta e de periferia, ela afirma que os temas do documentário atravessam sua própria trajetória: — Infelizmente, essas situações fazem parte do nosso cotidiano. Quando contamos isso para a câmera, deixamos de falar só por nós. Passa a ser uma realidade compartilhada com quem vê o filme. Ao refletir sobre o alcance do cinema, Lucia Murat adota um tom realista, sem abrir mão da potência transformadora da arte. — O cinema não muda a realidade sozinho. Mas pode, e muito, lançar luz sobre ela, ampliar o acesso às questões que precisam ser debatidas e provocar reflexão. É assim que as pessoas começam a pensar em como enfrentar e transformar esses problemas — afirma. Initial plugin text