Filha de chefe do PCC sequestrada pelo próprio pai vira assistente de acusação no caso

CNJ pede explicações para desembargador que soltou Palermo A Justiça permitiu que Gabrielly Sanches Palermo, filha do chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC), Gerson Palermo, se torne assistente de acusação no processo criminal contra o próprio pai, onde foi vítima de sequestro e extorsão. Segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), Palermo teria planejado o sequestro da filha, para exigir o pagamento de uma suposta dívida de $ 100 mil dólares, guardada por seu ex-sogro. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp O marido de Gabrielly, Weslley Henrique Sorti de Almeida, também requereu a habilitação como assistente de acusação. Segundo o MPMS, Gerson teria organizado o sequestro para exigir dinheiro de Salvador Sanches, avô da vítima, e de Weslley. O valor citado na investigação varia entre $ 100 mil (dólares) e € 200 mil (euros), quantia que o acusado afirmou ter deixado guardada com o ex-sogro em 2015. De acordo com a denúncia, Reinaldo Silva de Farias é apontado como cúmplice na execução do crime. Ele teria mantido a vítima em cativeiro em casa própria e feito as ligações para pressionar a família a pagar o resgate. Em uma das ameaças, teria enviado uma foto da vítima amarrada no chão. Resgate da vítima O crime aconteceu em outubro de 2025 e o caso foi investigado pela Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Bancos, Assaltos e Sequestros (Garras). A vítima foi localizada e liberada pelos policiais no dia 25 de outubro, no bairro Moreninhas, em Campo Grande. Após o resgate, Gabrielly relatou que sofreu agressões e ameaças durante o período em que ficou em cativeiro. “A vítima relatou ter sido agredida com chutes, socos, puxões de cabelo e coronhadas de arma de fogo na cabeça, além de ter permanecido amarrada", diz a denúncia. Segundo a investigação, o marido da vítima também recebeu ameaças. Os suspeitos exigiam o pagamento do resgate, que não chegou a ser pago. Suspeito preso e investigação Durante as buscas, policiais prenderam Reinaldo Silva de Farias, de 34 anos. Com ele, os investigadores apreenderam armas de fogo, celulares e um veículo usado no crime. A polícia também identificou a casa usada como cativeiro, que passou por perícia. Inicialmente, Reinaldo foi preso em flagrante pelos crimes de extorsão mediante sequestro, posse de arma de fogo de uso restrito e ameaça. Posteriormente, decisões judiciais concederam liberdade provisória, com uso de tornozeleira eletrônica e restrições de distância. Quem é Gerson Palermo Preso após investigações da Polícia Federal por tráfico internacional de drogas e também condenado pelo sequestro de um avião em 2000, ele cumpria pena em presídio federal de segurança máxima até deixar a cadeia, em 2020, por decisão judicial. Pouco depois, rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu. Atualmente, está na lista dos mais procurados do Sistema Único de Segurança Pública. A decisão que autorizou a soltura foi anulada por instâncias superiores. Nesta terça-feira (10), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) puniu o então desembargador Divoncir Schreiner Maran com aposentadoria compulsória, após concluir processo administrativo disciplinar sobre o caso. Gerson Palermo foi condenado a 126 anos de cadeia. Redes sociais/Reprodução O nome de Palermo aparece em investigações de grande impacto contra o crime organizado. Ele foi apontado como liderança do PCC, facção criminosa com atuação dentro e fora dos presídios. Sua trajetória criminal reúne dois episódios de grande repercussão: o sequestro de um avião comercial e o comando de um esquema internacional de tráfico de drogas. O sequestro do Boeing e a primeira grande condenação Em agosto de 2000, Palermo participou do sequestro de um Boeing 727 da empresa Vasp. O avião decolou do Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu com destino a Curitiba. Cerca de 20 minutos depois, foi tomado pelo grupo criminoso. A aeronave foi obrigada a pousar em Porecatu, no Paraná. No local, a quadrilha roubou nove malotes do Banco do Brasil com cerca de R$ 5,5 milhões. Pelo crime, Palermo foi condenado a 66 anos e 9 meses de prisão. Prisão e investigação por tráfico internacional Anos depois, ele voltou ao centro de outra grande investigação. Em março de 2017, a Polícia Federal deflagrou a Operação All In para desmontar um esquema de tráfico internacional de drogas. Palermo foi apontado como um dos líderes da organização. Segundo as investigações, a cocaína saía da Bolívia em aviões até Corumbá (MS). Depois, era transportada em caminhões para outros estados do país. A operação ocorreu em seis estados e apreendeu 810 quilos de cocaína. Pelos crimes de tráfico de drogas e associação para o tráfico, ele foi condenado a mais 59 anos de prisão. Somadas, as penas chegam a quase 126 anos. Após as condenações, Palermo foi preso e encaminhado ao presídio federal de segurança máxima de Campo Grande, onde cumpria pena em regime fechado. LEIA TAMBÉM CNJ aponta indícios de pagamento em gado a desembargador suspeito de vender sentença e soltar chefe do PCC ENTENDA - A ligação entre o chefe do PCC condenado a 126 anos e o desembargador punido pelo CNJ VIU ISSO? Os prints que revelam ‘gambiarra’ de desembargador para soltar chefe do PCC A saída do presídio e a fuga Mesmo com o histórico criminal e a longa pena, Palermo deixou o presídio federal em 2020. A soltura foi autorizada pelo então desembargador Divoncir Schreiner Maran, que concedeu prisão domiciliar sob a justificativa de problemas de saúde. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, não havia laudo médico que comprovasse a condição alegada. Pouco após sair da unidade de segurança máxima, Palermo rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu. Desde então, é considerado foragido. Punição ao magistrado A decisão que concedeu a prisão domiciliar foi posteriormente anulada. Nessa terça-feira (10), o Conselho Nacional de Justiça aplicou ao desembargador a pena de aposentadoria compulsória. O órgão concluiu que houve violação aos deveres da magistratura. Segundo o relator do processo, conselheiro João Paulo Schoucair, a medida foi tomada sem comprovação médica e extrapolou os limites da atuação judicial. O Conselho também apontou que investigações da Polícia Federal identificaram movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda declarada do magistrado. Enquanto a decisão judicial é alvo de punição, Gerson Palermo segue foragido um nome que atravessa mais de duas décadas de crimes de alto impacto e que, mesmo condenado a quase 126 anos, conseguiu deixar um dos presídios mais seguros do país antes de desaparecer novamente. Gerson Palermo Reprodução Veja vídeos de Mato Grosso do Sul