Quem realmente ganha com as ideias da esquerda e do desenvolvimentismo?

Em sua teoria de economia política, o economista Bruce Yandle desenvolveu uma teoria chamada bootleggers and Baptists . No exemplo clássico, líderes religiosos norte-americanos (os “ Baptists ”) defendiam proibir a venda de álcool aos domingos em nome da moral e do bem-estar social. Porém, contrabandistas norte-americanos (os “ bootleggers ”) também adoraram a proposta, mas por razões bem diferentes. Isso porque, com o comércio fechado aos domingos, eles tinham um mercado livre e, então, poderiam vender seus produtos a preços bastante altos. O poder do modelo de Yandle está em explicar alianças estranhas que se formam e impulsionam regulações, mesmo quando quem se beneficia monetariamente atua dentro da lei. Na história original, os grupos (religiosos e contrabandistas) se unem em torno de um objetivo político único, mesmo com intenções opostas. É aí que entram a esquerda, os desenvolvimentistas e os empresários. Os dois primeiros grupos são muito críticos ao sistema de trocas voluntárias (capitalismo) e também são grandes críticos dos empresários. A crítica ao capitalismo e aos empresários nasce de uma visão de que o sistema econômico e a atividade empresarial é baseada em exploração e ganância. O que é o desenvolvimentismo O desenvolvimentismo é um paradigma de política econômica apoiado em certas tradições teóricas que afirmam que o Brasil precisa de um Estado ativo para estruturar a economia em atividades mais sofisticadas. Esses grupos têm expoentes, como Ciro Gomes (político), Elias Jabbour (professor de geografia e militante comunista), trabalhistas (grupo ideológico) e Nelson Barbosa (economista e ex-ministro no governo Dilma Rousseff). A partir daí, fica mais fácil enxergar o mesmo mecanismo em debates brasileiros. A esquerda e os desenvolvimentistas ( Baptists ) costumam usar argumentos morais para justificar essa participação ativa do Estado na economia. A linguagem usada vem quase sempre com exortações, como “precisamos proteger a indústria nacional”, “precisamos salvar os empregos”, “é pela soberania”, “é pelo desenvolvimento” e “é por um país mais próspero”. O papel desse grupo é dar um fundamento moral para a ação política desejada. Nesse caso, desenvolver a economia brasileira e fazer com que a sociedade fique mais rica e feliz é o fundamento moral. A pergunta incômoda é: quem se beneficia, de fato, quando o Estado ergue barreiras econômicas, protege e reduz a competição? Em muitos casos, os maiores beneficiários são justamente os empresários. Com menos concorrência, as empresas ganham poder de mercado. Com maior poder de mercado, as empresas têm mais liberdade para controlar a produção e subir preços e, consequentemente, aumentar os lucros. Os caçadores de renda Em linguagem econômica, passa a haver uma diminuição do excedente do consumidor e um aumento do excedente do produtor. Além disso, esses grupos são responsáveis por facilitar a vida dos rent-seekers (caçadores de renda). Os caçadores de renda são empresários que fazem conexões com políticos em troca de privilégios. Esses empresários pagam propina ou ajudam em campanhas políticas, enquanto políticos criam leis ou políticas para privilegiá-los. Ao fundamentar moralmente essa defesa e atrair a população a apoiar esse tipo de agenda, na verdade, esquerdistas e desenvolvimentistas estão diminuindo o custo de transação desses empresários que buscam cooptar o Estado atrás de privilégios. Isso ocorre porque, com o apoio desses grupos, o empresário precisa despender menos tempo e dinheiro para cooptar políticos, já que é benéfico para o político atender a uma demanda de parte da sociedade. A literatura da Escolha Pública mostra que, em experiências frequentemente citadas por esses grupos como “cases de sucesso” das políticas desenvolvimentistas, como Japão e Coreia do Sul, tiveram estagnação nos setores alvos dessas políticas ao longo do tempo, porque isso resultou em favoritismo, clientelismo e compadrio. A relação governo-empresas tornou-se uma troca recorrente de favores porque elas ficaram tão grandes e tão conectadas ao resto da economia (“ too big to fail ”) que, se falissem, poderiam causar um efeito dominó sério. Se a intenção é, de fato, enriquecer o país, devemos seguir o caminho em que inovação, produtividade, trabalho e investimento guiem o progresso ou devemos ficar presos em uma economia em que o Estado escolhe os vencedores, faz conluio com banqueiros e empresários e, ao mesmo tempo, pune o consumidor? A ironia é que quem mais se diz inimigo dos empresários pode acabar sendo o seu aliado mais útil. + Leia notícias de Economia em Oeste Adriano Dorta é estudante de economia, com foco de pesquisa em escolha pública e economia política. O post Quem realmente ganha com as ideias da esquerda e do desenvolvimentismo? apareceu primeiro em Revista Oeste .