A advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal (STF), informou não ter recebido as mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro no dia em que ele foi preso, em 17 de novembro de 2025. Os textos, escritos no bloco de notas do aparelho, tratavam do avanço das negociações para a venda do Banco Master e tinham questionamentos como "alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?". Como revelou a colunista Malu Gaspar, do GLOBO, após escrever as mensagens no bloco de notas, Vorcaro tirou prints da tela e as enviou ao ministro do STF como imagens de visualização única. No material obtido pela reportagem, constam no envio das mensagens o número e o nome de Alexandre de Moraes, que foi confirmado pelo jornal. As informações foram checadas ao longo da última quinta-feira (5) com fontes que acompanham de perto os desdobramentos do caso. Em nota divulgada na sexta-feira, Moraes negou ter recebido as mensagens de Vorcaro e afirmou que os prints das mensagens estavam "vinculados a pastas de outras pessoas" e que a "mensagem e o respectivo contato estão na mesma pasta do computador de quem fez os prints". Ele se referia aos arquivos extraídos do celular do dono do Master e enviados à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS. Pela lógica apresentada pelo ministro, a divisão dos arquivos nas pastas disponibilizadas à CPI demonstraria que as capturas de tela feitas por Vorcaro seriam direcionadas aos contatos que estavam na respectiva pasta, e não a ele. Uma dessas capturas de tela, por exemplo, estava na mesma pasta que o arquivo com o contato de Viviane. Assim, segundo a versão do ministro, seria ela a destinatária da mensagem. "A dra. Viviane Barci de Moraes informa que não recebeu as referidas mensagens", escreveu a assessoria da advogada ao ser questionada se havia recebido o conteúdo. O escritório de advocacia Barci de Moraes, onde Viviane atua, foi contratado pelo Banco Master em janeiro de 2024, com a previsão de uma remuneração mensal de R$ 3,6 milhões ao longo de três anos, conforme revelou a colunista Malu Gaspar, do GLOBO. Outra captura de tela, por exemplo, está na mesma pasta que o arquivo de contato de Antônio Rueda, presidente do União Brasil. Nessa captura, há apenas a pergunta "Alguma novidade?". Procurado, Rueda também negou ter recebido as mensagens de Vorcaro. O mesmo ocorreu com o senador Irajá Abreu (PSD-RJ). O arquivo com o seu contato no celular de Vorcaro foi salvo na mesma pasta que uma das mensagens enviadas no dia. O parlamentar, contudo, negou ter trocado mensagens com o banqueiro. "Nunca houve contato entre o senador Irajá e Daniel Vorcaro. Nenhuma mensagem foi enviada, nenhuma mensagem foi recebida e não existe qualquer relação entre eles", disse, por meio de sua assessoria. A resposta de Viviane e dos dois políticos corroboram a análise de peritos da PF, que contradizem a explicação dada por Moraes ao negar ter sido o destinatário das mensagens. Eles afirmam que, diferentemente do que o ministro diz, o fato de os arquivos estarem na mesma pasta não tem relação com o envio pelo WhatsApp. Segundo eles, essa distribuição dos prints e dos contatos salvos no celular de Vorcaro, após serem extraídos do celular, é uma organização própria do programa usado pela PF para a análise. No caso do conteúdo enviado para a CPI, o material foi extraído por meio de um programa chamado IPED (sigla de Indexador e Processador de Evidências Digitais), desenvolvido em 2012 pela PF e disponível desde 2019 em código aberto. No processo de extração, o software indica onde eles estavam guardados no aparelho original, mas os reorganiza de acordo com um algoritmo matemático utilizado para garantir a integridade dos arquivos. A sequência de números e letras se torna uma espécie de "assinatura digital" daquele arquivo. Os arquivos aos quais à CPI teve acesso são fruto do espelhamento do celular e dos arquivos salvos por Vorcaro remotamente, como no iCloud. O histórico de conversas por WhatsApp não consta nesta extração entregue à CPI , mas também pode ser recuperado, o que, conforme publicado pelo GLOBO na sexta-feira, foi feito pela Polícia Federal no decorrer das investigações. O único histórico de conversa presente nos arquivos da CPI é entre Vorcaro e sua então namorada, mas porque o próprio banqueiro, antes da prisão, realizou o backup desta conversa e deixou ele salvo na nuvem de sua conta.