O que um livro de uma celebrada escritora, que volta a sua adolescência quase 50 anos depois, ilumina numa semana aterradora com notícias e estatísticas que nos empurram para um lugar de horror e perplexidade diante da violência endêmica contra as mulheres? Não programei. Mas lá estava eu, começando a folhear a última obra publicada do Brasil de Annie Ernaux, dias antes de noticiar um estupro coletivo de uma garota de dezessete anos, no Rio de Janeiro. Na primeira página, já vejo tantas de nós. Uma adolescente vivendo seu primeiro verão de altas expectativas amorosas que suportava para pertencer, era quase natural ser tratada com agressividade. “Só existe o Outro, mestre da situação, dos gestos, do momento que vem depois, e ele é o único que sabe o que vem depois. Depois o outro vai embora, você deixou de satisfazê-lo, ele não se interessa mais por você.” (Trecho de “Memória de Menina”) Selecionar uma imagem Em “Memórias de Menina”, vemos como as marcas da experiência sexual, em especial as iniciais, podem impactar nossa forma de viver e se relacionar. A maneira como cedemos e limitamos. A própria autora descreveu que havia retornado para uma juventude marcada pelo desejo e violência naturalizada, o que ajudou a definir e muito sua premiada literatura. Annie Ernaux não tem rede social. Não deve imaginar que 1.568 mulheres foram assassinadas no Brasil em 2025 por serem mulheres que se desejavam livres. Mas com certeza foi assombrada pela conterrânea Gisèle Pelicot, que nos lembra: a vergonha precisa mudar de lado. De sobrevivente de estupros em série a ícone feminista, essa outra francesa também visita seus últimos cinquenta anos de vida para compreender, de fato, e dividir com o leitor, as vivências que a trouxeram até esse momento em que também lança “Hino à Vida”. Ouvi de uma telespectadora que estava difícil se perceber numa sociedade tão cruel. De fato. Mas o complicado aí é que essa sociedade nos reflete. É espelho do que decidimos não ver, relevar, esquecer, guardar, permitir... Conosco e com outros. Perto e longe. As fissuras do passado nos visitam sempre. O que foi vivido lá, impacta aqui. O que escolhemos deixar passar, cria vida própria e leva nossa anuência. Annie Ernaux tenta não se fundir àquela menina de 1958, mas é ela desde sempre. [...] Não estou construindo uma personagem de ficção. Estou desconstruindo a menina que fui." .” (Trecho de “Memória de Menina”) Vejo amigas e desconhecidas, todas mães de meninos e conscientes de que o machismo mata, em um estado emocional de quase não pertencimento. Como estar e ser parte do mundo, onde garotos e jovens adultos, violam a dignidade inteira de uma colega de escola e seguem suas vidas? Hoje elas são mulheres maduras que também já foram as meninas que queriam caber e serem desejadas. E que, para isso, toleraram atravessamentos que seguem nos atropelando em novas tentativas de sermos realmente inteiras e livres. Educar com o coração, coragem e consciência não é suficiente porque somos, também, e ainda, aquela menina que não compõe. Aqueles adolescentes que, se não violentaram, silenciaram. Também para pertencer. Assim como Annie Ernaux, mais de cinquenta anos atrás, quantas de nós ainda naturalizam violências para pertencer? Quantos de nós, seguimos rindo amarelo de piadas que não são piadas pois ajudam a legitimar barbáries, ao fim? A comoção alenta. A falta de mais homens falando assusta. Ao mesmo tempo, os poucos que falam o fazem com gigantesca consciência, sensibilidade e disposição. A dificuldade de conseguir imaginar uma outra cultura possível tem lastro na constatação de que, de alguma forma, ajudamos a manter o que está aí. E não sabemos como fazer, efetivamente. O que Annie Ernaux viveu naquele verão, quando teve sua primeira e traumática experiência sexual não a definiu. Mas construiu uma parte importante do que se tornou. Foi necessário quase meio século para que ela reencontrasse essa menina de 17 anos e fosse capaz de olhá-la com tamanha clareza. A ponto de cabermos todas ali. Naquele passado. Num futuro diferente que, sim, é possível. Porque ainda estamos cuidando dos machucados de quem permitiu demais. Porque a cultura do estupro está em cada pedaço do nosso cotidiano. Porque precisamos ter isso como um novo projeto de país, de mundo, falar sobre isso todos os dias, sem medo de sermos taxados, sob o risco de sermos os próximos a viver o inominável. Quantas meninas e mulheres você cruzou hoje? Como as olhou? As enxergou? Como as tratou? O que permitiu que falassem delas? Fizessem com elas? Pense nisso todos os dias, a partir de agora. Todo dia é 8 de março. E assim como Annie Ernaux, volte aos verões passados. Sob sóis escaldantes estão partes do que ajudaram a construir valores e comportamentos que explicam quem somos nós. Gisèle Pelicot também virou símbolo de reconstrução. Encontrou o amor após a condenação do ex-marido e de 50 homens que a estupraram. Garante que a vida sempre reserva belas surpresas. No capítulo mais recente de sua história divide com o leitor nas últimas páginas que o presente nunca anula o passado, mas é possível renascer das próprias cinzas. Acreditamos que todos morremos um pouco com as notícias dos últimos dias. Renasçamos. Da desconstrução. Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil. Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!