Única técnica entre times masculinos da Série A, Nívia de Lima reflete: 'Temos espaço para tudo'

Se o futebol masculino profissional no Brasil (e no mundo) é para poucos homens, imagine, então, o que cabe às mulheres nesse mundo. Quando o assunto é a função de treinador, a falta delas é denominador comum entre os times da elite. Ampliando o horizonte para a base, dos 20 clubes que compõem a atual Série A, apenas a Chapecoense tem uma “professora” à frente de sua equipe sub-20: Nívia de Lima, uma ex-jogadora de 44 anos tão pioneira quanto determinada. Leia mais: Sarah Menezes é demitida da seleção feminina de judô logo após voltar da licença maternidade Estilo de jogo, relação com elenco, Filipe Luís: veja 5 recados dados por Leonardo Jardim em apresentação no Flamengo Há 12 anos no clube catarinense, a treinadora galgou espaços do sub-7 até a atual categoria, na qual fez história na última Copa São Paulo de Futebol Júnior, ao se tornar a primeira na história a vencer uma partida. O episódio é o ápice de um caminho repleto de obstáculos. — Quando me colocaram como treinadora dessa categoria (sub-7), os pais vieram falar que eles não queriam os filhos deles sendo treinados por uma mulher. Na época, os diretores não me contaram isso, guardaram e pediram para os pais não me julgarem pelo gênero, e sim pela minha competência. Os mesmos pais me acompanharam por um mês e pouco e depois foram ao presidente pedir desculpas — relembra Nívia. Hostilidades no caminho A chance inicial foi dada por Eder Popiolski, dirigente que abriu mais escolinhas na base da Chape e já identificava em Nívia o perfil de treinadora. Natural de Pernambuco, ela jogou no campo e no salão, e viveu o melhor período da carreira quando atuou no futsal em Londrina, entre 2004 e 2010. Foi longe de casa que ela realizou o sonho de se formar em Educação Física, ao receber uma bolsa que cobriu todos os estudos. — Eu sonhava ser uma atleta, mas sabia que a dificuldade era muito grande. Migrei para o futsal, pois era muito difícil ter competição de campo no nível do alto rendimento para a gente. Muitas equipes não tinham condições financeiras de bancar. Muitas vezes, eu tinha que trabalhar em outra função porque não conseguiria viver do futebol. Eu estava tentando me formar para que, futuramente, trabalhasse com futebol — explica. Nívia de Lima (à esquerda) trabalha com a base da Chapecoense há 12 anos Arquivo pessoal Longe da família, Nívia diz ter passado por situações complicadas, mas preferiu poupar os pais, José e Maria Helena, para que ela própria pudesse trilhar o caminho com “mais tranquilidade”. Ela lembra de ter sido confundida com uma roupeira no vestiário e hostilizada por torcedores à beira do campo. “O que você está fazendo aí?”, diz ter ouvido. Foi o pai, aliás, quem a incentivou a entrar no mundo do futebol ainda criança, mesmo tendo de jogar apenas no meio de meninos. Hoje, a situação se reproduz no vestiário da Chapecoense. 'História não só da dupla, mas do basquete': Série conta como rivalidade entre Paula e Hortência virou ouro e prata icônicas — Nunca senti diferença nenhuma dos atletas por eu ser mulher. Meu dia a dia mostra que sou capacitada. Não vejo esse preconceito e prejulgamento, e acho que por isso ainda estou firme na carreira — afirma. — Não deixam de ser eles porque é uma mulher que está comandando. A mesma coisa sou eu em relação a eles. Falam muito que ao mesmo tempo que sou brava, sou mãezona. É essa sensibilidade que talvez eu traga para o âmbito masculino. Nívia não deixa de reforçar o agradecimento pela Chapecoense sustentar seu trabalho há mais de uma década. Treinadora do sub-20 desde 2024, ela também já recebeu do clube a oportunidade de trabalhar em um torneio de jogos oficiais: a Copa Santa Catarina, na qual a Chape costuma levar uma equipe de jovens. Em 2024, ela foi auxiliar e, no último ano, a técnica principal. Nívia de Lima está há 12 anos na Chapecoense Naiana Marssona/ACF Uma das pioneiras a comandar uma categoria sub-20 masculina no Brasil, Nívia cultiva o sonho de um dia assumir um time profissional. Mas sem rótulos. — Fui treinadora aqui da categoria sub-18 (feminino), o clube foi meio que obrigado e me convidaram para treinar. Não tenho problema nenhum em trabalhar no futebol feminino. O que me machuca é quando me falam que “seria mais fácil” — diz. — Estamos aqui para quebrar paradigmas. No dia que eu for para o futebol feminino, que seja pelo projeto e não porque é mais fácil. Quero chegar ao profissional, independentemente de ser no masculino ou no feminino. Inspiração Declarações misóginas como a do zagueiro Gustavo Marques, do Bragantino, contra a árbitra Daiane Muniz, no último dia 21 de fevereiro, ainda machucam profundamente as mulheres que tentam entrar na "bolha" do futebol. Nívia, que vive os altos e baixos da carreira de técnica e já foi até para Portugal tirar uma licença C da Uefa, se emociona ao lembrar que, após tanto tempo longe da família, conseguiu uma estabilidade que permitiu levar pais e irmãos para ter uma vida melhor em Chapecó. — Para a mulher, é mil vezes mais que tem que trabalhar, é mil vezes mais que tem que abrir mão da sua vida para provar que é capaz. A gente é julgada por ser mulher e pelo profissional. E eu falo por mim, o quanto eu tenho que trabalhar dobrado para poder ser treinadora de futebol. Porque eu sei que, quando eu entro no campo, eu não sou julgada só pelo meu trabalho, é por muitas coisas ali, com muito preconceito. Uma grosseria que machuca muito. Abri mão de muita coisa para estar hoje aqui. Nívia de Lima é treinadora da base da Chapecoense Arquivo pessoal Antes de Nívia, Nilmara Alves foi a primeira mulher a comandar um time na Copinha, em 2017, com o Manthiqueira (SP). Após repetir e até melhorar o feito, a treinadora da Chapecoense passou a receber muitos contatos de mulheres que tentam chegar ao mesmo lugar. — Me surpreendeu muito tudo o que aconteceu comigo na Copinha. Por estar um pouco distante do eixo Rio-São Paulo, não sabia que tinha tanta mulher trabalhando ou tentando trabalhar com futebol masculino. Elas me chamaram e falaram assim: “você é minha inspiração, não desiste, a gente está tentando” — conta. — Temos espaço para tudo, é só estar capacitada para conseguir fazer. Não é a sociedade que vai falar onde temos que ir ou com o que temos que trabalhar. Nívia de Lima, treinadora do sub-20 da Chapecoense desde 2024 Naiana Marssona/ACF