Com a candidatura de Fernando Haddad (PT) ao governo de São Paulo próxima de se consolidar, aliados do petista e do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que vai tentar a reeleição, já projetam uma “disputa de paternidade” de grandes obras e projetos no estado. Iniciativas como o túnel Santos-Guarujá, o Trem Intercidades (TIC), que ligará a capital até Campinas, e o futuro hospital inteligente da USP devem ser usadas como vitrines pelos dois candidatos na campanha, já que são custeadas tanto com recursos estaduais quanto federais. Muitos desses investimentos são focados na capital, onde pessoas próximas a Tarcísio projetam disputa mais acirrada. Isso porque, em 2022, tanto Haddad quanto o presidente Lula venceram na cidade. A situação seria diferente, por exemplo, contra o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que governou o estado quatro vezes e, em tese, teria rejeição menor no interior, onde Tarcísio venceu Haddad há quatro anos. Diferentes estratégias No interior, petistas sugerem uma estratégia diferente: o destaque deve ser menos em grandes projetos e mais em entregas locais, como unidades básicas de saúde, obras viárias e creches feitas com repasses federais. Esse tipo de obra foi realizada sobretudo por meio do Novo PAC Seleções, em que os prefeitos enviam os projetos para o governo federal, e os selecionados recebem os recursos necessários. — O governo federal entregou unidades de saúde, ônibus de especialistas de saúde, tem construído institutos federais no interior. O governo do estado fechou os olhos para os prefeitos — diz o deputado estadual Paulo Fiorilo (PT). Ex-secretário de comunicação do governo Bolsonaro, o advogado Fábio Wajngarten aposta na ajuda do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), a Tarcísio. O governador tem destacado projetos com maior peso na opinião pública paulistana, como o Novo Centro Administrativo e a dispersão da cracolândia. — O estado de São Paulo é historicamente de direita, nem é de centro, mas a capital tem um perfil menos de direita, aí o Nunes pode ajudar. E isso naturalmente ajudará o candidato nacional a ampliar a vantagem frente ao Nordeste — opina Wajngarten. O candidato do bolsonarismo a presidente deverá ser o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que recebeu o aval do pai, Jair Bolsonaro, para a disputa. A escolha frustrou setores antipetistas moderados e líderes do Centrão, que preferiam Tarcísio, mas o senador tem conseguido se manter pelos avanços nas pesquisas. E frisa contar com apoio do governador, inclusive na organização da campanha em São Paulo. Com relação aos projetos de maior envergadura, um dos que devem ser explorados por Lula e pelo candidato petista a governador é o Túnel Santos-Guarujá, o primeiro do tipo imerso que será construído no Brasil. A obra de R$ 6,8 bilhões terá o investimento público dividido igualmente entre as gestões Lula e Tarcísio, mas, nas publicações e propagandas na TV do governo estadual, não há menção ao governo federal, que por sua vez também deixou de citar a participação da gestão paulista em suas comunicações. A disputa de paternidade deve se repetir durante a campanha. Outras obras que devem ser exploradas pelos dois lados são as metroferroviárias. Tarcísio tem dito que o estado vive “a maior expansão do metrô em sua história”, entre a construção de novas linhas e extensão de ramais já existentes. Aliados de Lula e Haddad, porém, esperam surfar nessa onda ao ponderar que, em muitos casos, foram necessários recursos federais para viabilizar os projetos, que fazem parte do PAC ou receberam financiamento do BNDES. Devem ser explorados, nessa seara, os novos trens que serão adquiridos devido à extensão da Linha 2 (Verde) do Metrô e o TIC Campinas. O Rodoanel também deve dividir holofotes. Com o mote de “coragem para fazer o impossível”, Tarcísio tem exaltado a entrega de obras prometidas há décadas, como o trecho Norte do Rodoanel e a Linha 17 (Ouro). Em dezembro, na inauguração da primeira fase, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, reclamou em seu discurso da ausência de citação ao banco federal na placa de inauguração. O deputado estadual Emídio de Souza (PT) crê que “Tarcísio não joga limpo ao anunciar as obras”: — Na Favela do Moinho, por exemplo, ele faz propaganda como se fosse dele, quando cada unidade (habitacional) custou R$ 250 mil, sendo R$ 180 mil do governo federal e R$ 70 mil do estadual. O novo hospital da USP, que será o primeiro inteligente do país, também é alvo de embates. O projeto é tocado tanto pelo Ministério da Saúde quanto pelo Executivo estadual, dona do terreno onde ele será construído. Nos bastidores, integrantes das duas gestões já divergem sobre como será administrado o espaço. Até os investimentos em vacinas estão na linha de fogo. Lula esteve no Instituto Butantan em fevereiro, onde anunciou R$ 1,4 bilhão para ampliar a produção de vacinas e soros e construir uma nova fábrica de imunizantes contra o HPV. Na semana seguinte, Tarcísio foi ao local e anunciou R$ 1,38 bilhão em investimentos em novas fábricas para produção de vacinas e imunobiológicos.