Câmeras corporais, vigilância redobrada, profusão de advogados: como passagem a jato de Vorcaro chacoalhou prisão em SP

A passagem de menos de 24 horas do banqueiro Daniel Vorcaro pela Penitenciária II de Potim, no interior de São Paulo, foi suficiente para alterar completamente a rotina da unidade e provocar um clima de tensão entre policiais penais, presos e advogados que circulam diariamente pela unidade. Apesar do curto período de permanência, o dono do Banco Master mobilizou um esquema de segurança incomum no sistema prisional paulista e gerou movimentação atípica no setor de atendimento jurídico local. Segundo relatos de profissionais que estavam na penitenciária, a direção do presídio temia que Vorcaro pudesse sofrer algum atentado dentro da cadeia. O receio levou a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) a adotar medidas extraordinárias de segurança durante o período em que ele permaneceu custodiado no local. De acordo com fontes da administração penitenciária, os policiais penais que tinham acesso ao pavilhão onde o banqueiro estava custodiado passaram a circular usando câmeras corporais acopladas ao uniforme, além de coletes à prova de bala. A utilização desse tipo de equipamento não é comum nas unidades prisionais paulistas e chamou a atenção de servidores que trabalham no espaço. Ao mesmo tempo, 20 novas câmeras de monitoramento foram instaladas às pressas no pavilhão onde Vorcaro estava custodiado junto com o cunhado, Fabiano Zettel. Ele também foi preso na operação que investiga o escândalo do Banco Master e, segundo a Polícia Federal, teria sido responsável por organizar o fluxo financeiro do esquema usado para intimidar e vigiar adversários de Vorcaro. Diferentemente do banqueiro, ele permaneceu na Penitenciária II de Potim, onde foi colocado em uma ala de seguro, separado da população carcerária. O próprio diretor da penitenciária, Luciano José Pimenta, teria demonstrado forte apreensão com a permanência do banqueiro na unidade. Funcionários relatam que havia preocupação de que a presença de Vorcaro pudesse desencadear um episódio de violência dentro da prisão. Um servidor afirmou que a direção da unidade comemorou quando chegou a autorização para a transferência. A presença do banqueiro também provocou confusão no setor de atendimento de advogados. Profissionais que aguardavam na fila para falar com seus clientes relataram que vários integrantes da defesa de Vorcaro foram atendidos com prioridade, o que gerou reclamações entre os demais advogados que estavam no presídio para visitar presos comuns. Procurada, a Polícia Penal informou que a unidade opera dentro dos padrões de segurança e disciplina, cumprindo os procedimentos previstos na Lei de Execução Penal e nas normas da própria instituição. "A permanência de um dia do preso citado não alterou a rotina do presídio e de servidores", diz a nota enviada. "Detalhes do uso de tecnologias e equipamentos não são divulgados por questão de segurança", completa o texto. Já o Sindicato dos Policiais Penais do Estado de São Paulo afirmou que o uso de câmeras corporais não faz parte da rotina da categoria. Vorcaro chegou à Penitenciária II de Potim na quinta-feira, após ser preso novamente no âmbito da Operação Compliance Zero. Inicialmente, ele passaria pelo período padrão de isolamento de dez dias, etapa aplicada a novos detentos antes de eventual contato com outros presos. Na prática, porém, o banqueiro permaneceu na unidade por menos de um dia. Na madrugada de sexta-feira, por volta das 10h30, ele deixou o presídio sob escolta. A transferência foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), após pedido da Polícia Federal. Vorcaro foi levado para a Penitenciária Federal de Brasília, unidade de segurança máxima do sistema penitenciário da União. Segundo a PF, a medida foi necessária porque o banqueiro teria capacidade de mobilizar redes de influência e articulação com pessoas de prestígio no poder público e no setor privado, o que exigiria um ambiente prisional com maior nível de controle e monitoramento.