Nos últimos anos, o Oriente Médio se candidatou a ser o terceiro maior polo de inteligência artificial (IA) do mundo, atrás apenas de EUA e China — o movimento prevê a movimentação de trilhões de dólares por países como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Catar e Bahrein. Porém, o novo conflito na região lançou uma nuvem de incertezas sobre o plano da região de reduzir a dependência do petróleo, abrindo possibilidades para o Brasil e o Rio, em particular, ganharem espaço nesse cenário tecnológico. Chatbots vão à guerra: como IA generativa e drones kamikazes transformaram a guerra no Oriente Médio Conflito no Oriente Médio e chuvas em MG impulsionam vídeos falsos com IA e mostram nova face da desinformação — Alguns países do Oriente Médio tentaram passar uma certa noção de normalidade ao longo dos últimos anos, quase que para fazer esquecer que ali é uma região que tem instabilidades crônicas. Portanto, seria possível fomentar IA e inovação. Uma guerra como essa quebra a lógica de normalidade. Quando você quer inovar, é preciso estabilidade e tranquilidade — explica ao GLOBO Tanguy Baghdadi, professor de Relações Internacionais do Ibmec. O sinal amarelo veio na segunda-feira (2), quando a Amazon comunicou que dois de seus data centers nos Emirados Árabes foram diretamente atingidos por drones suicidas, em uma ação deliberada do Irã, segundo a Agência Fars, que é alinhada com o governo dos aiatolás. No mesmo dia, a gigante americana informou que um de seus centros de dados no Bahrein também foi atingido. Investimentos em IA no Oriente Médio Editoria de Arte “Os ataques causaram danos estruturais, interrompendo o fornecimento de energia para nossas infraestruturas, e, em alguns casos, resultaram em atividades de combate a incêndios que resultaram em danos adicionais causados pela água”, disse comunicado da Amazon. Não é uma situação que o governo americano, as grandes empresas de tecnologia e os investidores globais e locais podem alegar surpresa. Em julho do ano passado, Christopher S. Chivvis e Sam Winter-Levy, da think tank Fundação Carnegie para a Paz Internacional, assinaram um artigo no Washington Post intitulado: “O Golfo não é o lugar ideal para construir a infraestrutura mundial de IA”. No texto, os data centers planejados para a região são descritos como "alvos fáceis" para ataques de drones baratos e mísseis, especialmente vindos do Irã. E essa não é a única fragilidade da região. Um dos outros atrativos para a instalação de infraestrutura de IA no Golfo é a sua condição de ponto de conexão de importantes cabos submarinos, que conectam 4 bilhões de pessoas na África, na Ásia e na Europa: 17 cabos passam pelo Mar Vermelho e outros cabos adicionais, conectando Irã, Iraque, Kuwait e Catar, estão no estreito de Ormuz, que foi fechado pelos iranianos com o início do ataque dos EUA. Como os EUA usaram IA no ataque ao Irã e até onde vai a aliança do setor com Trump Embora muito difíceis de se tornarem alvos ativos de drones iranianos, um dano acidental pode ter consequências importantes para o tráfego global na internet. Em 2024, três cabos no Mar Vermelho foram rompidos após um navio ser atingido por um míssil dos houthis. Resultado: 25% do tráfego entre Ásia, Europa e Oriente Médio foi interrompido e o reparo de um dos cabos levou cinco meses por dificuldades de acesso à região. Plano para não ser dependente de petróleo Além da localização estratégica, o Oriente Médio reúne diferentes atrativos para se tornar exportador de poder computacional, um dos recursos mais desejados da atualidade. Os países têm capacidade de investimento, muito espaço físico para a construção de data centers e oferecem energia barata. No ano passado, Tareq Amin, CEO da Humain, empresa estatal da Arábia Saudita, projetava oferecer reduções de custo entre 20% e 40% em relação aos EUA. É a situação ideal para tentar diversificar economias amarradas ao petróleo. — Há dois anos, eu participei do Fórum Internacional de Governança da Internet em Riade, Arábia Saudita. Por lá, há movimento para que Oriente Médio não seja mais visto só como exportador de petróleo. Eles apostam muito primeiro na infraestrutura de computação, na geração de energia e em uma infraestrutura computacional, não só para empresas locais, mas também para exportação — conta ao GLOBO Diogo Cortiz, professor da PUC-SP. Brad Smith, presidente da Microsoft, e Peng Xiao, do G42, em anúncio de data centers nos Emirados Árabes G42/Divulgação Parte da inspiração para alguns desses países é Israel, que na última década passou a vender o slogan “startup nation”, como consequência dos investimentos em tecnologia. Arábia Saudita e os Emirados Árabes passaram a liderar esse movimento na região, apontando para IA e tecnologia como caminho de diversificação em documentos que planejam seus futuros — Catar e Bahrein passaram a seguir os vizinhos. “Não permitiremos que o nosso país fique à mercê da volatilidade dos preços de commodities”, diz o documento Visão 2030, que a Arábia Saudita publicou em 2016 para projetar sua década seguinte. A ideia é que a IA e a economia de dados possam contribuir com até US$ 135 bilhões para a economia até 2030. Já o Plano Nacional de IA 2031 dos Emirados Árabes projeta que a IA se torne 20% do PIB que não tem origem em petróleo. As duas nações começaram a tentativa de transformação tecnológica olhando primeiro para fora, contribuindo com bilhões de dólares para o Vision Fund, o maior fundo de investimentos em tecnologia da história, criado pelo conglomerado japonês SoftBank. Os US$ 100 bilhões ajudaram a financiar startups como Uber, Rappi, ByteDance e WeWork. Os fundos soberanos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes administram US$ 2 trilhões. Para levar IA para o próprio território, os dois países decidiram criar “campeões nacionais” da tecnologia. Os Emirados Árabes criaram a G42 em 2018 com forte apoio do fundo Mubadala, que conta com cerca de US$ 300 bilhões. Seis anos mais tarde, o príncipe saudita Mohammed bin Salman criou a Humain, apoiada pelo fundo soberano do país que tem cerca de US$ 1 trilhão, para que seja a “Aramco da IA”. A missão das duas é fomentar diferentes projetos de IA na região. Vídeos: veja em ação os incríveis robôs humanoides da China, que aposta em 'momento ChatGPT' da automação O desejo tecnológico da região se transformou em uma relação mutualista entre EUA e os países da região. A disponibilidade de capital atraiu empresas americanas de tecnologia, que são usadas para acelerar a transformação digital do Oriente Médio à medida que o governo americano usa seu domínio sobre essas empresas para afastar a China da região — a G42, por exemplo, tinha laços estreitos com os asiáticos, incluindo a Huawei, mas foi obrigada a cortar relações ainda no governo de Joe Biden. O resultado dessa relação foi observado em maio do ano passado, quando a visita de Donald Trump à região gerou US$ 2,2 trilhões em promessas de investimento. OpenAI, G42, Oracle, Nvidia e SoftBank anunciaram o Stargate UAE, um super campus de IA de 5 gigawatts em Abu Dhabi, que seria o maior fora dos EUA. Já a Amazon prometeu US$ 5 bilhões para um centro de IA com a Humain em Riade, na Arábia Saudita. Já em janeiro, Emirados Árabes e o Catar anunciaram a entrada para o Pax Silica, iniciativa americana lançada em dezembro de 2025, para garantir cadeias de suprimentos seguras e confiáveis para semicondutores, IA e minerais críticos. O objetivo é criar um ecossistema tecnológico entre países aliados para reduzir dependências externas em tecnologia. É o alinhamento total entre esses países e Washington. Bunkers e cavernas As cifras ficam bem distantes dos US$ 65 bilhões que o Rio de Janeiro projetou atrair em investimentos de data centers até 2032, mas o alinhamento total entre vizinhos do Irã, Washington e big tech transforma os data centers do Golfo em grandes alvos — até aqui data centers comerciais não estavam entre as baixas em zonas de guerra. Centros de dados como os da Amazon são estruturas impossíveis de serem escondidas, e a agência Fars confirmou que os ataques desta semana foram propositais. Assim, especialistas afirmam que os países da região terão que oferecer planos de segurança reforçados para as companhias de tecnologia, que vão além de cercas elétricas e câmeras. Será preciso investir em equipamentos militares. Na Europa, por exemplo, bunkers da segunda guerra abrigam data centers, enquanto a China abriga servidores da Tencent em cavernas. Data center da Amazon nos EUA dá uma ideia do tamanho de estruturas que viraram alvo no Oriente Médio Nathan Howard/Bloomberg — A corrida da inteligência artificial começa a virar também uma corrida armamentista. As empresas vão correr para garantir a segurança de suas infraestruturas — diz Gustavo Macedo, professor do Insper. “Investimentos em nuvem, armazenamento e arquitetura de data center serão uma prioridade. No entanto, a construção de data centers exige muito capital e leva vários anos. O aumento dos custos de construção, os custos mais altos de financiamento e os atritos na cadeia de suprimentos podem atrasar os prazos de execução”, escreveu a consultoria IDC em relatório nesta semana. A firma projeta que o gasto da região com tecnologia da informação pode diminuir entre um e dois pontos percentuais caso o conflito dure entre seis e nove meses. Brasil atrai por segurança Além de atrasar construções e assustar investidores, o conflito também ameaça a mão de obra qualificada que mora — ou planejava se mudar — para a região. Amazon, Nvidia, Google e Snap fecharam seus escritórios em Dubai durante a semana. Ainda que a maioria dos especialistas tenha muitas incertezas sobre o impacto do conflito — a duração é o maior deles —, eles apontam que o Brasil pode tirar vantagem. Rússia ajuda Irã com informações de inteligência sobre alvos americanos no Oriente Médio para ataques, diz jornal — Tudo isso torna o Brasil mais atrativo para o mercado global de IA, porque somos um lugar de muita segurança. O Brasil está afastado e não é um alvo. Isso pode nos dar vantagem mesmo com a não votação do Redata — diz Macedo, em referência à medida provisória que cria um regime específico para o setor e que perdeu validade. No entanto, o sonho do Oriente Médio como potência tecnológica ainda não está destruído. Ele pode ter sido apenas adiado, pois algumas das vantagens permanecem: capital, recursos energéticos e localização estratégica.