Dia da Mulher: relembre passeatas que marcaram o movimento feminista no Brasil na década de 80

Quatro décadas depois das passeatas que marcaram o início da redemocratização, muitas das reivindicações levantadas pelas feministas nos anos 1980 avançaram no Brasil, com conquistas como maior presença das mulheres no mercado de trabalho, leis de proteção contra a violência doméstica e ampliação de direitos civis. Ainda assim, desigualdades salariais, violência de gênero e debates sobre autonomia reprodutiva mostram que parte das demandas daquele período permanece atual. Veja origem e significado: Dia Internacional da Mulher entrou no calendário, oficialmente, na década de 70 Elas por elas: Dia da Mulher inspira eventos especiais na Zona Sul, inclusive em alto-mar As manifestações da época, ao ocupar as ruas e dar visibilidade às pautas femininas, ajudaram a consolidar o movimento no país e abriram caminho para avanços que continuam sendo disputados até hoje. Relembre, abaixo, algumas delas, que marcaram a luta pelos direitos das mulheres que ajudaram o Brasil a chegar em 2026 com mais justiça. 1983: estereótipos ironizados Cerca de três mil manifestantes foram às ruas do Centro do Rio para participar de uma passeata do Dia Internacional da Mulher de 1983. Naquela tarde de terça-feira, há 40 anos, levantando cartazes e gritando palavras de ordem por igualdade de gênero, as manifestantes faziam demandas como a instalação de creches em locais de trabalho e a legalização do aborto. Mas havia em seu protesto uma dose de ironia e bom-humor, observada nos trajes que algumas participantes usavam. Na linha de frente da passeata, que saiu do Largo da Carioca pouco depois das 17h, a advogada e professora Comba Marques Porto vestia peças de roupa "ousadas" e muitas joias para interpretar a personagem "a outra", levando na mão um cartaz que dizia: "Nunca aos domingos, feriados, Natal e Ano Novo". Perto dela , a jornalista e escritora Carmem da Silva personificava a "rainha do lar", com o avental manchado, uma lata de sabão desinfetante na mão e uma "coroa" na cabeça. Jornalista Carmen da Silva vestida de "rainha do lar", ironizando estereótipos machistas Adalberto Diniz/Agência O GLOBO Também havia no evento mulheres vestidas como "mãe enlouquecida", "noiva virgem", "solteirona", "prostituta" e "outras vítimas dos preconceitos morais è sociais dessa sociedade "machista'", segundo explicou uma das participantes da passeata. A caracterização das personagens era uma forma de ironizar os estereótipos criados pela sociedade patriarcal que, diga-se de passagem, existem até hoje e limitam a condição da mulher no mundo a partir de uma perspectiva sexista. O ato de 1983 circulou pelo Centro recebendo adesões. Cerca de vinte funcionárias de um banco, que faziam um protesto trabalhista, se uniram à manifestação feminista, assim como trabalhadoras que deixavam o expediente. Na Rua Sete de Setembro, mulheres aplaudiam das janelas de um prédio e ouviram, em resposta, o coro de "desce, desce, desce!". Quando o ato chegou na Cinelândia, lideranças como a escritora Lélia Gonzalez e a deputada estadual Lúcia Arruda discursaram de um caminhão. O protesto deu visibilidade ao movimento no Brasil. Os anos seguintes: movimento negro e adesão masculina A partir daquele ano, o Dia Internacional da Mulher passou a ser marcado por manifestações em diferentes capitais, como Belo Horizonte, São Paulo, Salvador e Recife, onde, em 1985, centenas de mulheres se reuniram na rua com frevo e versões femininas dos bonecos de Olinda. Feministas do movimento negro em ato do Dia da Mulher de 1988 José Doval/Agência O GLOBO Em 1988, ativistas do movimento negro aproveitaram o centenário da Lei Áurea para criticar o racismo, afirmando que, no Brasil, "a abolição ainda está em curso". Na passeata de 8 de março de 1984 no Rio, centenas de mulheres pararam o trânsito da Avenida Rio Branco, no Centro, muitas delas empurrando carrinhos com crianças e carregando sacolas de compras. A ironia do ano anterior não ficou de fora. A psicanalista, jornalista e escritora Carmen da Silva foi vestida de Estátua da Liberdade, segurando um apetrecho de cozinha e falando em alto e bom som: "A lei da mulher é a lei doméstica, e é isso o que precisa mudar". Uma espécie de Judas com inscrições contra a guerra nuclear, a violência doméstica e o machismo era sacudido, estapeado e pisoteado pelas participantes do ato, que também atraiu alguns homens. Fernando Gabeira, por exemplo, estava lá com mulher e filha de 9 meses no colo. "Esta é a primeira manifestação feminista da Tamie", disse ele. Já o advogado Modesto da Silveira foi chamado a experimentar o "sapato da Cinderella", sob risos e aplausos das ativistas. Homem calça "sapato da Cinderella" durante ato no Dia da Mulher em 1984 Paulo Moreira/Agência O GLOBO