O horror não para. Meu feed do Instagram parece um antigo jornal de imprensa marrom: um feminicídio após o outro, agressões, estupros, a cada dia, a cada hora, casos cada vez mais hediondos. O estupro coletivo em Copacabana e a história (de ontem) do ex-namorado que estupra a mulher e, enquanto ela vai à delegacia, volta à casa, assassina o filho e quase mata a mãe, me levaram às lágrimas. Tudo isso acontecendo no mês das mulheres. Que sociedade estamos nos tornando? 9 a 10 estupros por hora, sendo 70% das vítimas com menos de 14 anos. Quatro feminicídios por dia em 2025, 1.568 casos no ano. Somadas às tentativas, são 6.900 vítimas! 70% das agressões e feminicídios são cometidos por parceiros ou ex-parceiros. E isso é apenas o que chega às estatísticas. O DataSenado (2025) estima que 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica no último ano, e milhares de homicídios ocultos (não registrados corretamente como feminicídio) ocorrem a cada ano. O Judiciário registrou quase um milhão de novos casos de violência doméstica. É repugnante. Minha colega de jornal, Ruth Aquino, me deu a honra de reproduzir na sua coluna trechos de um vídeo que gravei sobre esse tema, e escolheu essa frase: nossa sociedade está se transformando numa máquina de triturar mulheres. Mulheres são nossa metade, nossa alma, nossas mães, irmãs, companheiras, nossas iguais. Não podemos assistir a isso passivamente. São mulheres ameaçadas, agredidas, estupradas, assassinadas, queimadas, desfiguradas, atropeladas, amputadas. O medo do estupro e da violência a cada minuto. O que está acontecendo conosco? Sempre fomos uma sociedade machista, misógina, que cultua a supremacia do homem, seu direito sobre o corpo da mulher, que prega a obediência e a submissão feminina. Mas esse ambiente violento está se agravando rápida e intensamente, e isso exige providências imediatas. E são as mulheres, que conhecem tão melhor essa opressão permanente, que devem ser as proponentes. Mas gostaria de sugerir alguns caminhos. O primeiro deles para mim é óbvio e urgente: a criminalização da misoginia. Não podemos mais tolerar a disseminação do ódio à mulher, em especial quando amplificado em redes sociais e outros aplicativos da internet, atingindo milhões de pessoas. Um assassinato não começa no tiro ou na facada, mas exatamente nessa ideologia repulsiva. Os “influenciadores” red pill e incels estão convencendo meninos de 8, 10 anos a odiar mulheres. Estão disseminando a cultura da violência e do estupro. Hoje fiquei escutando alguns para conhecer esse universo, e fiquei intoxicado. Um certo canalha, com um milhão de seguidores, se proclama um protetor das mulheres, enquanto as culpabiliza pelos crimes contra elas, propõe a submissão e naturaliza a supremacia masculina. É monstruoso, e muitas mulheres compram sua “master class” para atrair homens. Essa gente precisa prestar contas à justiça. Já existe um projeto de lei (PL 896/2023) para incluir a misoginia na lei do racismo e dessa forma criminalizá-la, da senadora Ana Paula Lobato, que foi aprovado na CCJ do Senado, mas parou ali. A deputada Duda Salabert acaba de propor um outro para criminalizar a “incitação organizada à misoginia”, mirando nas redes de ódio. Espero que nas manifestações desse domingo essa seja uma pauta prioritária, e que pressione o Congresso a acelerar a tramitação das leis. O segundo caminho é a educação dos meninos, em especial dos pais, dando o exemplo e orientando constantemente para a igualdade de gêneros, o respeito absoluto e o consentimento, como já escrevi várias vezes aqui. E ensinando meninos a cuidar da casa e do outro, a chorar quando se emocionam, a resolver conflitos sem violência. O terceiro é a escola, que precisa assumir o mesmo papel. Aliás, pesquisas recentes mostram que a violência de gênero começa cedo na escola. É urgente que ela se ocupe da questão do gênero, que discuta a masculinidade de forma participativa. Na educação sexual, consentimento e respeito devem ser temas centrais. Finalmente, a influência das redes sociais precisa ser controlada com urgência. Não podemos mais aceitar nem os influenciadores que ganham dinheiro disseminando o ódio à mulher, quando deveriam estar presos, nem a sua propagação pelas plataformas. O que acontece hoje? Um menino que abre uma conta no TikTok ou Instagram imediatamente começa a receber conteúdo misógino, que começa com memes, piadinhas, mas logo evolui para o discurso da conspiração feminina contra os homens, para o ódio, a submissão, a humilhação. A mesma ideologia é corrente nos sites de pornografia, que “educam”milhões de meninos. É preciso restringir a entrada em redes, Discord e afins até 16 anos. Depois, ajudá-los a desenvolver pensamento crítico. Nossos filhos estão sendo educados por gente perversa, nojenta, violenta, que está ganhando fama e dinheiro enquanto destrói suas almas. Não podemos mais admitir isso. O ECA digital vem aí, mas não será suficiente. A família tem que assumir o comando, por mais difícil que seja. Outras políticas públicas estão surgindo, como a de dispositivos que avisam a mulher da proximidade de seu agressor que usa tornozeleira, proposta pelo governo federal. Os homens adultos precisam se engajar, e muitos estão se comprometendo: não permitir que seus manos façam piadinhas, criticar atitudes e opiniões misóginas. É preciso exterminar essa cultura pela raiz, e os homens têm um papel chave. É sua tarefa. Iniciativas da sociedade civil também são bem vindas. “Mulheres foram ensinadas a ter vergonha do próprio corpo. Mas hoje, vergonha é o que estão fazendo com o corpo da mulher.” Essa é a nova campanha do Grupo Boticário. Em parceria com a Bloom Care, plataforma de saúde feminina, o Grupo lança hoje um canal de WhatsApp gratuito para quem quer trocar, aprender e apoiar mulheres. De fato: no caso do estupro coletivo em Copacabana, a menina ficou com vergonha. Por medo de apontarem o dedo contra ela – que é exatamente o que a sociedade costuma fazer, culpabilizar a vítima. Enquanto isso, os estupradores saíram do prédio como se saíssem de uma festinha: olhando o celular, calmamente, como se fossem comemorar no barzinho, sem culpa na consciência. E com a certeza da impunidade. Gisele Pelicot é uma mulher francesa que foi drogada e estuprada dezenas de vezes, sob o comando de seu marido. Ela decidiu renunciar ao anonimato e ao silêncio, e escreveu no seu livro “Um Hino à Vida” uma frase definitiva: está na hora da vergonha mudar de lado.