Mostra na Wellcome Collection e romance de Sophie Fontanel refletem sobre a pressão estética contra o envelhecimento

Uma nova exposição, “The Coming of Age” (A chegada da maioridade), na Wellcome Collection de Londres, explora nossas atitudes em constante transformação em relação ao envelhecimento. Reúne obras de artistas como Paula Rego, Sam Taylor-Johnson e William Utermohlen, além de projetos como anúncios antigos que opõem a moça rosada à senhora grisalha para vender cereal, autorretratos marcados por Alzheimer, um solitário fio de cabelo branco transformado em símbolo, tudo nos lembrando que, fora do museu, o tempo no rosto continua sendo tratado como inconveniência estética. Foi com essa inquietação que li, tardiamente, “Admirable” (Admirável), romance da jornalista francesa Sophie Fontanel ainda sem tradução no Brasil. O enredo: a história de Admira, a última mulher com rugas na Terra. Num futuro próximo, um medicamento milagroso varreu as rugas do mundo. Como seria a vida da única pessoa a envelhecer? O golpe de gênio é tratar o enredo não como sermão antibotox, mas como espelho incômodo de uma cultura em que a juventude virou idioma oficial e qualquer desvio de textura parece falta de educação visual. A inspiração da autora veio de mulheres reais da sua infância: duas amigas da mãe, que na Riviera francesa seduziam homens não apesar das rugas, mas talvez até por conta de uma confiança que só a maturidade fornece. Havia nelas algo que nenhuma injeção, nenhum filtro de Instagram poderia replicar. A liberdade de estar plenamente viva. O que torna “Admirável” delicadamente subversivo é que não parte de um lugar de superioridade moral. Fontanel relatou uma frase de uma amiga, tão brutal quanto sincera: “Sophie, se existisse essa pílula que tira as rugas, nós a tomaríamos na hora!”. É uma mulher que sabe que também seria seduzida pelo milagre, que não demoniza procedimentos nem posa de mártir naturalista. Seu alvo é a hegemonia, o momento em que escolhas privadas viram obrigações silenciosas. Entre a liberdade de mexer no corpo e a pressão para jamais deixá-lo envelhecer, o romance finca pé num terreno mais interessante: o direito de não se corrigir o tempo todo. A tradição literária francesa sempre cultivou uma relação particular com a feminilidade e o envelhecimento — basta lembrar Simone de Beauvoir ou as reflexões de Colette sobre o tempo. Mas aqui há uma diferença crucial: Fontanel não o trata com melancolia, não pede compaixão, não se vitimiza. Com um tom divertidíssimo, ela transmite sua mensagem: eu existo, eu ocupo espaço, e escolhi a inteligência sobre a perfeição, a aspereza sobre a lisura. A protagonista Admira é grega, como se a autora devolvesse ao berço do ideal clássico um rosto que o mármore sempre congelou. A cultura que nos ensinou a amar proporções perfeitas e superfícies lisas ganha, de repente, uma septuagenária luminosa, um pouco irônica. As rugas, ali, são como as fissuras de pedra que os turistas fotografam. Sinais de erosão, sim, mas também de permanência. Ela não é admirável porque o envelhecimento é bonito — nem sempre é. Mas porque permanece curiosa, porque deseja, porque se atreve a ocupar espaço num mundo que insiste em apagá-la. Há também a questão inegável de que o acesso a procedimentos estéticos é um marcador de classe social. Ao recusar a alteração, Fontanel está também dizendo: não preciso desse dinheiro, não preciso dessa validação de ter “cara de rica”. É um privilégio, claro, mas que ela coloca a serviço de uma política de representação que beneficia a todas. Porque, por mais que a lisura transpire dinheiro, existe algo irremediavelmente democrático na passagem do tempo: a visita da morte. E ela não será enganada por cremes, lasers ou comprimidos, posto que essa grande igualadora não lê prontuários dermatológicos. Enquanto passamos a vida chantageando o espelho, o único contrato inevitável segue intocado.