Às vésperas do 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o governo Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta dificuldades para apresentar resultados concretos no combate ao feminicídio, apesar de ter transformado o tema em uma das principais bandeiras sociais da atual gestão. Em meio ao avanço de casos e à pressão política crescente, além de críticas ao governo federal, o cenário abre espaço para que adversários políticos, entre eles o senador Flávio Bolsonaro (PL), usem o tema para desgastar o petista e avancem na tentativa de conquistar o eleitorado feminino. Como o GLOBO mostrou, Lula incorporou o combate ao feminicídio em seus discursos e deverá usar o tema como bandeira eleitoral, mas o recorde de casos registrado em 2025 é um desafio para a gestão petista. Foram 1.470 registros no ano passado, uma média de quatro por dia, número superior às 1.464 ocorrências registradas em 2024 — que, até então, representavam o recorde da série histórica. Neste ano, o Planalto não preparou cerimônia por ocasião da data, mas o presidente fez um pronunciamento em cadeia nacional para tratar do tema, no qual defendeu ampliar o combate ao feminicídio. O PT, por sua vez, convocou manifestações pelo país para este domingo. Nesta sexta-feira, o Ministério da Justiça e Segurança Pública apresentou dados de operações voltadas à prevenção e ao enfrentamento da violência contra as mulheres, que integram pacto feito pelos Três Poderes. Nas últimas semanas, uma força-tarefa resultou na prisão de 5.238 pessoas suspeitas de crimes relacionados a esse tipo de violência entre 9 de fevereiro a 5 de março, segundo a pasta. O tema da segurança pública será um dos principais nas eleições de outubro, e, tradicionalmente, a esquerda patina no assunto. De um lado, governistas apostam no combate à violência contra mulheres para navegar no assunto, enquanto adversários usarão os índices de criminalidade para atacar o governo federal. Flávio já iniciou movimentos nesse sentido. Em manifestação realizada no domingo na Avenida Paulista, em São Paulo, ele fez acenos diretos ao eleitorado feminino, afirmando que mulheres seriam “de verdade, abraçadas e protegidas, sem hipocrisia” em um eventual governo seu, além de falar da atenção que dará às mães solos, lembrando da gestão de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O entorno de Flávio considera que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro será um ativo político relevante para ampliar o diálogo com as mulheres e diminuir a rejeição ao nome do senador. Ela estava à frente do PL Mulher, mas acabou deixando esse trabalho em segundo plano após a prisão do marido. Também nesse contexto, aliados dele defendem a escolha de uma vice mulher para a chapa presidencial, citando a ex-ministra e atual senadora Tereza Cristina (PP-MS). Um auxiliar de Lula minimiza esses gestos de Flávio e diz que o senador usa o tema buscando ganhos eleitorais somente, enquanto a esquerda tem o enfrentamento à violência contra as mulheres como uma bandeira histórica, além da atenção dada ao tema pelo presidente e compromisso com a causa. Ele reforça discurso do próprio Lula de que, nas eleições, é preciso comparar o que a gestão dele realizou com a de seu antecessor e que, no momento da campanha, a equipe petista poderá explorar declarações machistas de Jair Bolsonaro para atacar Flávio. A reportagem procurou a Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) e o Ministério das Mulheres, questionando quais as metas traçadas pelo governo para reduzir esse tipo de violência e o cumprimento delas, mas não houve resposta. O governo tem dado destaque ao pacto lançado em fevereiro que reúne os três Poderes no enfrentamento da violência contra mulheres. Uma das idealizadoras da ideia foi a primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja. A ideia do pacto é que ele possa subsidiar iniciativas e políticas a serem elaboradas num segundo momento. Em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, nesta semana, Janja afirmou que a ideia de unir os três Poderes é algo “inédito e importante” para o país e que se trata de fortalecer os instrumentos do Estado na proteção às mulheres. — Estamos falando de fortalecimento de instrumentos do Estado brasileiro com relação à proteção das mulheres. O combate ao feminicídio não tem lado, não é da direita ou da esquerda, é um tema que atinge todas nós, mulheres progressistas e conservadoras — disse Janja. Em outro momento no programa, Janja reconheceu que os resultados do pacto não terão efeito imediato. — O pacto não está criando nada novo, ele está organizando, integrando tudo. E, talvez, o que seja a novidade é a gente trazer a questão da mudança cultural, que não é imediata — afirmou. Na quarta-feira, o comitê que reúne representantes dos três Poderes envolvidos nas discussões do pacto divulgou o plano de trabalho do grupo e anunciou ações prioritárias. As medidas priorizam três frentes: acelerar medidas protetivas e responsabilização de agressores, ampliar a rede de atendimento às vítimas e promover mudanças culturais. Entre as principais ações anunciadas está esse mutirão nacional para cumprimento de cerca de mil mandados de prisão contra agressores. O Ministério da Justiça também prometeu implementar monitoramento eletrônico para agressores cujas vítimas estejam com medida protetiva e criar um centro integrado para reunir dados e acompanhar casos. O pacote anunciado inclui ainda a implantação de 52 unidades móveis de atendimento — chamadas Salas Lilás itinerantes — e reuniões com secretarias estaduais para fortalecer delegacias especializadas no atendimento à mulher. Na área social, o Ministério das Mulheres anunciou a abertura de quatro novas unidades da Casa da Mulher Brasileira ao longo de 2026 e a criação de centros de atendimento. O Ministério da Saúde prevê ofertar até 4,7 milhões de atendimentos psicológicos anuais voltados a vítimas de violência. No Congresso, o Senado destacou a ampliação da divulgação do canal “ZAP Delas”, que é de escuta, acolhimento e orientação para mulheres em cargos públicos, candidatas, servidoras e vítimas de violência política de gênero, enquanto a Câmara definirá pauta de votações para março com foco ao enfrentamento da violência contra as mulheres. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) listou a elaboração de um diagnóstico nacional sobre as medidas protetivas de urgência. 8 de março O Dia Internacional da Mulher amplia a cobrança sobre o governo por resultados concretos, especialmente após episódios recentes de grande repercussão, como o estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro, que reacendeu o debate público sobre falhas na prevenção e proteção às vítimas. Embora o governo destaque a integração entre Executivo, Legislativo e Judiciário como avanço institucional, governistas avaliam que a maior parte das medidas ainda está em fase de planejamento ou implementação inicial, sem capacidade imediata de alterar os indicadores de violência. Além disso, aliados de Lula reconhecem deslizes do Planalto no último mês com o tema. Em fevereiro, durante cerimônia no Planalto que marcou o lançamento do pacto nacional de enfrentamento à violência contra a mulher, a ausência de discurso da ministra das Mulheres, Márcia Lopes, gerou críticas dentro e fora do governo e expôs ruídos na condução política do tema. O desfile da escola Acadêmicos de Niterói, no carnaval, também gerou críticas no segmento evangélico e entre mulheres. Paralelamente, o PT convocou manifestações para o 8 de Março que devem incorporar pautas mais amplas, como o fim da escala de trabalho 6x1. Segundo a secretária nacional de Mulheres do PT, Mazé Morais, o partido deve realizar atos em todos os estados do país. Ela afirma que a sigla tem um “compromisso histórico” com o combate à violência contra mulheres e que esse tema deve estar na ordem do dia de todos os candidatos neste ano. Além disso, defende políticas e ações concretas para avançar nesse assunto, com sintonia entre os entes federativos e orçamento para as ações serem implementadas. — Precisamos ter ações concretas, orçamento e articulações entre os três Poderes, nos municípios, estados, uma rede de articulação. Porque o plano sozinho não resolve. Além disso, é necessária uma mudança cultural profunda na sociedade e isso não acontece do dia para a noite, é preciso urgentemente enfrentar a cultura do ódio — diz ela.