Flávio Gordon: ‘Bolsonaro, o Idiota’

“Eu sei que sou ridículo. Agora sei melhor do que todos que sou ridículo.” ( O Idiota , Fiódor Dostoievski) Em mensagem enviada à sua manteúda, o mafioso Daniel Vorcaro refere-se a Jair Bolsonaro como “idiota”. A intenção era obviamente hostil. No vocabulário corrente da elite política e financeira nacional, “idiota” significa alguém incapaz de compreender as sutilezas do poder, a aritmética das conveniências ou o teatro das virtudes públicas. Vorcaro poderia ter optado por “imbecil”, termo escolhido por Alexandre de Moraes para se referir aos internautas brasileiros de direita . Ou por “mané”, a famigerada ofensa lançada por Luís Roberto Barroso contra um eleitor de Bolsonaro. “Idiota”, “imbecil” e “mané” têm, nesse sentido, a mesmíssima função, a saber: firmar a distinção entre “nós” — a elite dos malandros, dos espertos, dos reis da cocada preta, dos poderosos, intocáveis e acima da lei — e “eles” — os simplórios, os estúpidos, os que não têm poder, os “contribuintes”, os que não têm modos nem pedigree. Estes, enfim, os que não fazem parte da “Turma” — a cleptocracia que comanda a República. Portanto, o ex-controlador do Banco Master (e de boa parte de Brasília) tem razão. Bolsonaro é um idiota. Não, obviamente, no sentido pretendido por Vorcaro, Alexandre, Barroso et caterva . Há insultos que, quando examinados com alguma atenção literária, acabam se convertendo em elogios involuntários. Pois há uma concepção alternativa de “idiota”, aquela consagrada por Dostoievski no romance homônimo: O Idiota , publicado em 1869. O protagonista, o príncipe Lev Nikoláievitch Myshkin, não é estúpido. Pelo contrário: é perspicaz, sincero, profundamente humano. O que o torna um “idiota” aos olhos dos outros é algo muito mais grave. Ele é incapaz de cinismo. Não sabe fingir virtudes que não possui. Não domina a arte da intriga elegante nem o cálculo frio das vantagens. Num ambiente construído sobre ambição, vaidade e dissimulação, só poderia mesmo parecer uma anomalia. Myshkin é considerado um idiota precisamente por não saber participar do jogo social que estrutura a vida das elites locais. Algo semelhante ocorre com Bolsonaro no ambiente político brasileiro. Brasília é uma corte tropical cuja etiqueta fundamental consiste em nunca dizer exatamente o que se pensa. Ali prospera o político que domina a retórica da moderação enquanto negocia nos bastidores; o banqueiro que financia todas as facções ao mesmo tempo; o tecnocrata que ostenta virtudes republicanas enquanto administra discretamente seus próprios interesses. Por que Bolsonaro é detestado pelas elites Nesse ambiente, desde quando era um parlamentar do “baixo clero” (epíteto que sempre lhe foi atribuído), Bolsonaro sempre pareceu deslocado — quase que antropologicamente deslocado. Falta-lhe o verniz polido do profissional da política. Falta-lhe, sobretudo, a hipocrisia disciplinada que permite ao establishment proclamar valores elevados enquanto pratica vícios muito terrenos. Daí a irritação quase visceral que ele provoca em certos círculos. O problema de Bolsonaro não é exatamente o que ele faz, mas como ele faz: de maneira direta demais, transparente demais, desajeitada demais para o gosto de uma elite que vive da coreografia das aparências. Bolsonaro é o relógio Cassio no pulso, num universo de Pateks Philippes. Assim como Myshkin, Bolsonaro frequentemente parece incapaz de perceber as regras implícitas do jogo social. Diz o que pensa quando seria politicamente mais prudente recitar um clichê. Expõe conflitos que, segundo o protocolo da elite, deveriam permanecer cuidadosamente velados. Em vez de se adaptar à atmosfera rarefeita dos salões do poder, insiste em falar a linguagem mais áspera das ruas. + Leia notícias de Política em Oeste Eis a dimensão dostoievskiana da presença de Jair Bolsonaro na cena política nacional. Para o establishment político-financeiro, um homem que não domina perfeitamente a arte da dissimulação só pode ser um idiota, um “beócio” — como também se lhe referiu Vorcaro. E talvez seja justamente por isso que tantos brasileiros comuns — também chamados de “idiotas” e “manés” a cada desafortunado encontro com uma cleptocracia nacional que os despreza — o compreendam intuitivamente. Eles também sabem, por experiência própria, que a sociedade brasileira é governada por uma elite que ostenta belas virtudes públicas com a mesma desenvoltura com que pratica os piores vícios privados. Nesse mundo de máscaras, o “idiota” — aquele que não sabe mentir com elegância — acaba adquirindo uma estranha dignidade. Como o príncipe de Dostoievski, Bolsonaro sente-se deslocado entre os grandes profissionais do poder. E é esse deslocamento que explica tanto o desprezo que desperta nas elites quanto a lealdade obstinada que inspira fora delas. Se isso é ser idiota, então é uma forma singularmente respeitável de idiotia. Leia também: "Vá em frente, ministro" , artigo de Augusto Nunes e Carlo Cauti publicado na Edição 312 da Revista Oeste https://www.youtube.com/watch?v=rm35wZ7p2Qk O post Flávio Gordon: ‘Bolsonaro, o Idiota’ apareceu primeiro em Revista Oeste .