Sob pressão após suspeitas de ligações de ministros com o caso envolvendo o Banco Master, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgará nesta semana se mantém a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira investigada por crimes financeiros. Será a primeira vez que uma questão envolvendo o caso será analisado de forma colegiada pela Corte. O julgamento está marcado para começar na sexta-feira, na Segunda Turma, formada por cinco ministro. A análise se dará em cima da decisão do ministro André Mendonça, que determinou a prisão preventiva de Vorcaro na semana passada. Além do relator, compõem o colegiado os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Kássio Nunes Marques. A ordem de prisão foi proferida de forma individual pelo relator após a Polícia Federal apontar indícios de tentativa de interferência nas apurações. Segundo os autos do processo, Vorcaro integraria uma estrutura organizada para monitorar adversários e obter informações sobre o andamento do caso, o que, na avaliação dos investigadores, poderia comprometer o trabalho das autoridades. Na representação enviada ao Supremo, a PF afirmou que a “neutralização” do que chamou de “braço armado” do grupo seria necessária para evitar riscos à integridade de servidores envolvidos nas apurações, incluindo integrantes da própria polícia, do Ministério Público Federal, do Banco Central e do STF. Os investigadores também apontaram que o grupo mantinha uma rede informal conhecida como “A Turma”, que teria sido usada para monitorar e intimidar pessoas consideradas adversárias, entre elas jornalistas. Como a decisão foi tomada de forma monocrática, cabe agora aos demais ministros da Segunda Turma decidir se referendam ou não a medida. O julgamento ocorrerá em sessão virtual, formato em que os ministros registram seus votos no sistema eletrônico do tribunal ao longo de alguns dias, sem debate presencial. Apesar de ter se afastado da relatoria do caso — que foi entregue a Mendonça —, Dias Toffoli tem afirmado a interlocutores que não está impedido de participar da análise, mas que ainda irá bater o martelo sobre eventual declaração de suspeição ou impedimento. Segundo relatos feitos ao GLOBO, Toffoli tem ressaltado a esses interlocutores que o próprio STF deixou claro o seu desimpedimento para atuar no caso Master na nota divulgada após a reunião que culminou com a saída dele da relatoria. Por isso, tecnicamente, considera estar apto a participar do julgamento. A decisão de Toffoli de deixar a relatoria do caso Master no STF foi tomada após uma reunião convocada pelo presidente Edson Fachin, com os colegas da Corte para o apresentar relatório da Polícia Federal que cita menções a Toffoli em mensagens no celular apreendido de Vorcaro. Toffoli confirmou que era um dos sócios da empresa que vendeu a participação no resort, mas disse que não recebeu qualquer valor do banqueiro e nem tem qualquer relação de amizade com o banqueiro. Também integrante da Segunda Turma, Nunes Marques era um dos contatos na agenda de Vorcaro. O ministro, contudo, disse não ter relação com o banqueiro e que seu contato está "aberto" a muita gente desconhecida desde a sabatina no Senado, em 2020. Já o ministro Alexandre de Moraes, que, segundo revelou a colunista Malu Gaspar, do GLOBO, foi destinatários de mensagens de Vorcaro no dia da primeira prisão do banqueiro, em 17 de novembro, não faz parte da Segunda Turma e não participará do julgamento. A decisão da Segunda Turma poderá manter ou revogar a prisão preventiva. Caso o colegiado referende a medida, Vorcaro continuará preso durante o andamento do processo. Caso contrário, os ministros poderão determinar sua soltura ou a substituição da prisão por outras medidas cautelares. A investigação envolve suspeitas de irregularidades financeiras relacionadas ao Banco Master, incluindo crimes como gestão fraudulenta de instituição financeira, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Nos últimos dias, o caso ganhou novos desdobramentos após a divulgação de mensagens e documentos apreendidos pela PF que indicariam articulações do banqueiro com interlocutores para acompanhar o avanço das apurações. Vorcaro foi transferido na última sexta-feira para o presídio federal de Brasília, unidade de segurança máxima destinada a presos considerados de maior risco. Ele permanece detido preventivamente. A defesa do empresário afirma que ele “jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça” e sustenta que Vorcaro tem colaborado com as investigações desde o início do caso.