Por que o espanto?

A operação de busca e apreensão comandada por Alexandre de Moraes — hoje mais popularmente conhecido como “Careca do Master” — contra um jornalista no Maranhão parece ter espantado uma certa imprensa. Mas por que o espanto? Como se sabe, Moraes mobilizou o aparato estatal contra Luiz Pablo Conceição Almeida a fim de blindar o camarada togado Flávio Dino (vulgarmente apelidado de “Rocambole do Inferno”), cuja família, segundo o jornalista, teria usado um carro oficial custeado com dinheiro público para fins particulares. Moraes, que assim como seu amigão Daniel Vorcaro ( “vou mandar quebrar os dentes dele” ) não gosta que jornalistas façam jornalismo, e não admite nenhum ataque ao “Estado Democrático de Direito” (leia-se, aos esquemas dos togados que bebem Macallan), agiu como vem agindo ao longo dos últimos sete anos: mandou os jagunços atrás do desavisado repórter. O Moraes que persegue o jornalista do Maranhão é o Moraes de sempre. O fundamento de suas ações nunca foi a lei, mas os interesses pessoais, políticos e corporativos. Daí que este colunista, por exemplo, há muito não o reconheça como juiz legítimo, apesar da toga negra que carrega sob os ombros. Quanto às suas decisões, elas sempre me pareceram mais ordens “jagunciais” do que judiciais. E me indigna que, até hoje, continuem sendo cumpridas normalmente. + Leia mais notícias de Política em Oeste Mas pergunto-me sobre o espanto da imprensa. E eu mesmo respondo: durante todo o tempo em que se portou não como juiz, mas como tirano vingativo; e enquanto emitia as suas ordens jagunciais e praticava as suas ilegalidades, Moraes continuava sendo reconhecido como juiz, e as suas ordens, descritas como ordens judiciais absolutamente normais. Minha memória é boa. Quando, por exemplo, Moraes abusou de seu poder para tentar perseguir Elon Musk, incluindo-o no Inquérito das Fake News e assediando judicialmente funcionários brasileiros do X, o Estadão publicou um daqueles seus editoriais indignados , tomando partido do perseguidor contra o perseguido, e ainda o fazendo em tom de patriotada: “É assim que funciona em países onde vigora o império da lei . O Brasil pode ter muitos problemas, mas aqui as ordens judiciais também devem ser cumpridas ”. https://www.youtube.com/shorts/IKb1DL2l8qY A ausência de espanto com decisões anteriores de Moraes Àquela altura, portanto, o Estadão fingia que abuso de autoridade era lei e que censura e perseguição eram ordens judiciais legítimas, posto que ilegais e talhadas à autoproteção dos togados. Talvez hoje o jornal já tenha descoberto que: Não, no Brasil não vigora o império da lei, mas o império da vontade de Moraes e demais integrantes da “Turma” do Vorcaro; e Ordens judiciais se baseiam na lei, caso contrário não passam de ordens jagunciais — as quais, por óbvio, não devem ser cumpridas . Que a velha imprensa pare de se espantar. Afinal, a presente situação resulta de sua cegueira e pusilanimidade ao longo dos últimos anos. Alexandre de Moraes continua o mesmo de sempre. Resta saber os jornalistas que o aplaudiam terão agora a coragem de, não apenas denunciá-lo (como outros já o faziam), como reconhecer o seu próprio papel no colapso da liberdade de imprensa e de expressão no Brasil. Leia também: "O pior STF da história" , artigo de Eugênio Esber publicado na Edição 313 da Revista Oeste O post Por que o espanto? apareceu primeiro em Revista Oeste .