O governo do Reino Unido estuda enviar drones de varredura de minas ao Estreito de Ormuz para ajudar a reabrir a rota marítima estratégica, enquanto avalia com cautela um pedido do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que aliados enviem navios à região. Segundo autoridades britânicas ouvidas pelo jornal The Guardian, há receio de que o envio de embarcações possa intensificar a crise com o Irã. Estreito de Ormuz: Trump pede que China, França, Reino Unido e 'outros países' enviem navios de guerra para 'garantir segurança' 'Ferramenta clássica de guerra assimétrica': Saiba quais minas navais Irã tem em seu arsenal para lançar no Estreito de Ormuz A proposta em discussão prevê o uso de drones aéreos capazes de localizar e detonar minas marítimas de forma segura, o que permitiria a retomada do fluxo de exportações de petróleo pela via. Funcionários do governo afirmaram, no entanto, que despachar navios, como sugeriu Trump no fim de semana, poderia agravar a situação diante do caráter volátil do conflito. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, deve anunciar na segunda-feira um pacote de dezenas de milhões de libras para apoiar consumidores afetados pela alta dos preços da energia. Em entrevista coletiva em Downing Street, ele também deve destacar a necessidade de reduzir a escalada da crise no Oriente Médio. — Continuaremos trabalhando por uma solução rápida para a situação no Oriente Médio. Não há dúvida de que o fim da guerra é a maneira mais rápida de reduzir o custo de vida — dirá Starmer, segundo trechos antecipados de seu discurso. Análise: Governo Trump subestimou reação do Irã à guerra e agora corre para conter disparada do petróleo Em entrevista à BBC no domingo, o secretário de Energia, Ed Miliband, afirmou que reabrir o Estreito de Ormuz é uma prioridade e indicou que o envio de drones pode ser uma das formas de contribuição britânica. — É muito importante que consigamos reabrir o Estreito de Ormuz. Há diferentes maneiras pelas quais poderíamos contribuir, inclusive com drones de caça a minas — disse. — Todas essas opções estão sendo analisadas em conjunto com nossos aliados. Qualquer medida que possa ajudar a reabrir o estreito está sendo considerada — acrescentou. O anúncio do Irã de que passaria a atacar navios que utilizem o estreito — por onde normalmente circula cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo — fez os preços do barril saltarem de cerca de US$ 65 para mais de US$ 100. Economistas projetam que a alta pode provocar inflação maior e crescimento econômico menor neste ano, embora o impacto dependa da duração do conflito. Mapa mostra onder fica o Estreito de Ormuz Arte O Globo A crise também aumentou as tensões entre Trump e Starmer. A relação entre os dois líderes já havia sido abalada após o primeiro-ministro britânico recusar autorização para que os Estados Unidos utilizassem bases no Reino Unido no lançamento do ataque inicial contra Teerã. Na semana passada, Trump afirmou que ofertas recentes de ajuda britânica haviam chegado “um pouco tarde demais”. No fim de semana, porém, mudou o tom e pediu publicamente que diversos países enviassem navios à região. “Esperamos que China, França, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e outros países afetados por essa restrição artificial enviem navios para a área, para que o Estreito de Ormuz deixe de ser uma ameaça por parte de uma nação que foi totalmente decapitada”, escreveu Trump na rede Truth Social. Estreito de Ormuz: Entenda bloqueio de canal que 'certamente' seguirá, segundo novo líder supremo do Irã Starmer conversou por telefone com Trump na noite deste domingo. Após o contato, Downing Street informou que os dois líderes discutiram a situação no Oriente Médio e os impactos do fechamento do Estreito de Ormuz sobre o transporte marítimo internacional. Reações cautelosas Autoridades de países citados por Trump, como Japão, China e Coreia do Sul, avaliam o pedido americano. Takayuki Kobayashi, um político sênior do governista Partido Liberal Democrata do Japão, afirmou neste domingo que a solicitação deve ser analisada “com cautela”. Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul afirmou que o governo está “explorando várias medidas sob diferentes perspectivas para proteger seus cidadãos e garantir a segurança das rotas de transporte de energia”. No Reino Unido, autoridades dizem estar abertas a contribuir, mas demonstram ceticismo quanto ao envio de navios ao Estreito, tanto pela condição atual da Marinha britânica quanto pelas possíveis consequências estratégicas da medida. Entenda: Enquanto bloqueia o tráfego no Estreito de Ormuz, Irã mantém fluxo de petróleo e exporta mais do que antes da guerra O destróier HMS Dragon, da classe Type 45, deixou Portsmouth na semana passada com destino a Chipre e poderia ser redirecionado ao Oriente Médio. Fontes do governo disseram ao Guardian, porém, que o navio deve levar ao menos mais uma semana para chegar a Chipre, o que atrasaria ainda mais uma eventual operação no Estreito de Ormuz. Ao mesmo tempo, o último navio britânico especializado em varredura de minas na região, o HMS Middleton, deixou o Bahrein para manutenção poucos dias antes do início da guerra. A decisão agora é alvo de debate interno sobre se o país se preparou adequadamente para o conflito. Autoridades britânicas demonstram maior otimismo quanto ao uso de drones de varredura de minas, capazes de provocar a detonação controlada de explosivos ao imitar o movimento de embarcações. O governo também considera enviar drones antiaéreos Octopus, atualmente produzidos para a Ucrânia, mas que poderiam ser empregados no Golfo. CNN: Irã começa a instalar minas navais no Estreito de Ormuz; Trump ameaça impor resposta 'sem precedentes' Enquanto avalia suas opções, o governo Starmer enfrenta críticas do Partido Conservador por, segundo a oposição, não aumentar os gastos militares com rapidez suficiente. Em discurso na semana passada, a líder conservadora Kemi Badenoch afirmou que ministros estão demorando para cumprir a promessa de elevar os investimentos em defesa para 2,5% do Produto Interno Bruto até 2027. Dados internos do Ministério da Defesa obtidos pelo Guardian indicam, no entanto, que investimentos em defesa antimísseis e sistemas antidrones caíram nos últimos anos do governo conservador. Segundo os números, os gastos com defesa antimísseis baseada em terra caíram de £158 milhões em 2021-2022 para £49,4 milhões em 2023-2024. Já os investimentos em sistemas antidrones recuaram de £22,4 milhões em 2021 para £18,1 milhões em 2023, enquanto o número de navios de caça a minas foi reduzido de 16 para sete desde que os conservadores chegaram ao poder. Um porta-voz do Ministério da Defesa afirmou que os gastos militares aumentaram sob o atual governo e destacou investimentos em novas tecnologias. — Esse investimento vai fortalecer nossas defesas, inclusive em tecnologias emergentes como o laser Dragonfire, que será instalado em destróieres Type 45 a partir de 2027 — afirmou.