Senado deve iniciar análise da PEC da Segurança nos próximos dias, mas cronograma ainda depende de acordos

Após ser aprovada pela Câmara dos Deputados no início do mês com amplo apoio partidário, a chamada PEC da Segurança Pública deve começar a tramitar no Senado nos próximos dias. Apesar da expectativa de avanço da proposta, o calendário de votação ainda não foi definido e depende de acordos entre lideranças da Casa. Nos bastidores, a tendência é que o texto seja encaminhado inicialmente à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), colegiado responsável por analisar a constitucionalidade das propostas de emenda à Constituição antes de eventual votação em plenário. A definição do rito, porém, ainda está em discussão entre senadores e a presidência da Casa. Interlocutores do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), afirmam que a intenção é construir um entendimento prévio entre as bancadas antes de iniciar formalmente a tramitação. A avaliação é que, apesar do amplo apoio obtido na Câmara, o tema envolve diferentes sensibilidades entre os partidos e exige coordenação política para avançar. A PEC foi aprovada pelos deputados no dia 4 de março com placar expressivo — 461 votos favoráveis e 14 contrários — após um acordo que reuniu governo, oposição e partidos de centro. A proposta, encaminhada originalmente pelo Executivo, sofreu mudanças durante a tramitação na Câmara e acabou consolidando um texto negociado entre diferentes bancadas. Entre os principais pontos da proposta está a criação de base constitucional para um regime jurídico mais rigoroso contra organizações criminosas. O texto prevê que a legislação poderá estabelecer sanções mais duras para integrantes dessas estruturas, incluindo restrições maiores a benefícios penais e limites à progressão de regime. Outro eixo da proposta é a incorporação à Constituição do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), atualmente previsto em lei ordinária. A medida busca estabelecer uma estrutura permanente de cooperação entre União, estados e municípios no combate à criminalidade, com compartilhamento de informações e atuação integrada das forças policiais. A proposta também reforça a competência da Polícia Federal para investigar crimes que ultrapassem fronteiras estaduais ou tenham repercussão internacional, especialmente casos relacionados a organizações criminosas e milícias. Além disso, o texto autoriza a criação de polícias municipais comunitárias voltadas ao policiamento ostensivo e estabelece regras constitucionais para o financiamento da segurança pública. Entre essas regras está a constitucionalização do Fundo Nacional de Segurança Pública e do Fundo Penitenciário Nacional, com critérios para a distribuição de recursos entre União e estados. Durante a tramitação na Câmara, um dos pontos mais sensíveis — a previsão de realização de referendo sobre a redução da maioridade penal — acabou sendo retirado do relatório do deputado Mendonça Filho (União-PE), após pressão de partidos da base do governo e do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). A exclusão do dispositivo foi considerada decisiva para viabilizar o acordo político que permitiu a aprovação da proposta. No Senado, por se tratar de uma proposta de emenda à Constituição, a matéria precisará do apoio mínimo de três quintos dos senadores — 49 votos — em dois turnos de votação. Caso o texto seja aprovado sem mudanças, a proposta poderá ser promulgada diretamente pelo Congresso Nacional. Se houver alterações, será necessário que a Câmara dos Deputados analise novamente a matéria.