A pesquisadora brasileira Gabrielle Oliveira, da Universidade de Harvard, acompanhou por três anos 16 famílias latino-americanas que imigraram para os Estados Unidos em 2018. Todas passaram pelo trauma da detenção, pela pandemia, e pela adaptação das crianças nas escolas. Veja: O descaso do Rio de Janeiro com a educação Entenda: Matrículas em queda Esse extenso trabalho etnográfico resultou no livro Now We Are Here: Family Migration, Children`s Education, and Dreams for a Better Life (Agora Estamos Aqui: Migração Familiar, Educação das Crianças e Sonhos de uma Vida Melhor, em livre tradução). A obra acaba de ganhar o prêmio da Associação Americana de Pesquisa Educacional (Aera, na sigla em inglês) como o melhor livro de pesquisa e desenvolvimento educacional publicado nos EUA. Uma das famílias retratadas é a do mecânico Julio, que saiu da Guatemala com sua filha Luz, de cinco anos de idade. Em sua terra natal, ele foi ameaçado e agredido por agiotas que cobravam o pagamento de um empréstimo que contraiu ao tentar abrir seu próprio negócio, que não deu certo. Sem perspectivas e correndo risco de vida, decidiu fugir. Na travessia entre México e EUA, porém, foram detidos. A partir deste momento, vivenciaram um dos aspectos mais cruéis da política migratória americana: a separação entre pais e filhos. Ele ficou preso num centro de detenção no Texas, enquanto sua filha foi para um abrigo em Nova York. Passou seis semanas sem saber o paradeiro da filha e sem poder se comunicar com ela. Setenta e dois dias depois, finalmente se reencontraram e puderam iniciar sua vida nos Estados Unidos. Um dos méritos do livro é dar voz às crianças. A pequena Luz, já com seis anos de idade, retrata como, desde pequenos, essas crianças já conseguem, a seu modo, desenvolver pensamento crítico sobre a situação que enfrentaram. Num diálogo com a pesquisadora, a menina explicou: “É que nenhum governo nos quer. A Guatemala não nos quer, o México não nos quer, os Estados Unidos não nos querem”. Oliveira então pergunta porque ela acha que os governos agem assim. “Se a gente não tem muita coisa (como casa e dinheiro), eles não te querem”, responde a menina. As experiências relatadas pelas famílias são diversas, mas um dos argumentos do livro é que todas essas crianças, em algum grau, carregam o trauma pela experiência vivenciada. E, uma vez que começam a frequentar uma escola pública nos Estados Unidos, o local passa a representar a esperança de um futuro melhor, além de espaço de segurança e cuidado. A autora observa, porém, uma tendência de negligenciar essas histórias, no que ela classificou como Pedagogia do Silêncio. O caso que ilustra bem essa abordagem é o de uma professora brasileira, numa escola que atende muitas crianças também brasileiras. Quando alunos espontaneamente começavam a falar de situações que vivenciaram — como ter dormido no chão, passado frio, e da péssima comida nos centros de detenção —, a professora rapidamente os silenciava, mudando de assunto. Não fazia por insensibilidade, mas por temor de não saber conduzir a aula a partir dali, e por estarem pressionadas a cumprir um currículo extenso. A conclusão é que as políticas para esses estudantes se concentram em questões acadêmicas, mas não se preocupam tanto em orientar os professores no acolhimento e valorização das experiências dos estudantes. Uma das conclusões do livro, apesar de direcionada ao sistema educacional dos EUA, vale para qualquer sala de aula com alunos em vulnerabilidade: “Educadores anseiam por informações e dados que tornem seu trabalho melhor, mais eficiente e mais significativo. Não é deixando essas histórias à margem que melhoraremos as experiências educacionais de crianças imigrantes nos EUA; é trabalhando lado a lado com elas”.