Como a Europa reage ao avanço da pirataria nas transmissões de futebol

Em meio ao boom tecnológico, assistir ilegalmente a um jogo de futebol nunca foi tão fácil no meio audiovisual. Em alguns casos, o consumidor tem uma qualidade e experiência semelhantes às de serviços legítimos, com transmissões ao vivo sem interrupções e até em diversos dispositivos. Ciente da gravidade desse cenário, a La Liga — responsável pela primeira e segunda divisões na Espanha — identificou que o combate à pirataria ainda caminha a passos lentos, principalmente pela baixa conscientização pública sobre os riscos dessa prática, que é crime, e traçou estratégias para combatê-la. Um dos principais objetivos da organização é explicar ao consumidor que a pirataria, mais que uma “alternativa barata”, é uma ameaça à segurança pessoal. No início da temporada 2025/26, a entidade lançou a campanha “You Get Pirated Football, They Get You” (“Você assiste futebol pirata, eles pegam você”, na tradução) para mostrar que os usuários de conteúdos ilícitos estão suscetíveis a roubo de dados, fraudes e comprometimento de dispositivos. Mas essa missão não é da noite para o dia. Afinal, a fraude audiovisual pode representar mais de 50% do consumo em alguns territórios. Segundo a consultoria especializada em tecnologia YouGov, em pesquisa realizada em maio, 33% da população espanhola assiste a conteúdo pirata, sendo que esse percentual aumenta para 42% entre os jovens de 15 a 24 anos, de acordo com o EUIPO (Escritório de Propriedade Intelectual da União Europeia). Os números também impressionam na América Latina. No México, onde a La Liga tem grande audiência, 77% dos entrevistados admitem recorrer à pirataria ao menos uma vez por mês, enquanto o percentual é de 67% no Brasil, segundo uma pesquisa da Ampere Analysis. Real Madrid's English midfielder #5 Jude Bellingham (3rdR) challenges Barcelona's German goalkeeper #01 Marc-Andre ter Stegen during the Spanish league football match between Real Madrid CF and FC Barcelona at the Santiago Bernabeu stadium in Madrid on April 21, 2024. (Photo by Thomas COEX / AFP) Thomas COEX / AFP Em meio ao crescimento da pirataria ao redor do mundo, a entidade considera que ainda falta um senso de urgência em setores tecnológicos que acabam contribuindo indiretamente para esse tipo de prática. Entre as ações de combate, o bloqueio dinâmico de IP (espécie de CPF digital para identificação) em tempo real permite a remoção rápida de transmissões ilegais ao vivo. Com ajuda dessa e outras medidas, a entidade espanhola reduziu a fraude audiovisual em 60% em um ano no país. — Os principais responsáveis são redes de crime organizado e grupos bem financiados que operam infraestruturas em escala industrial. Atualmente, a pirataria é predominantemente digital (especialmente via IPTV, streaming na web e redes peer-to-peer) e, portanto, exige ações de fiscalização ao vivo e em tempo real, incluindo bloqueio dinâmico de IP durante fins de semana e janelas de jogos, uma capacidade que ainda não está disponível no Brasil — ressalta Rebeca Díaz, diretora de audiovisual da La Liga. Impacto nas receitas Em 2023, o custo do cibercrime em nível global foi estimado em 8 trilhões de dólares (cerca de R$ 43 trilhões), segundo um relatório da Cybersecurity Ventures. Espera-se que esse número continue crescendo, com projeções que apontam para 10,5 trilhões de dólares (aproximadamente R$ 56 trilhões) por ano até 2025. A La Liga tem uma previsão alarmista. Projeta danos irreversíveis no ecossistema do futebol se o combate à pirataria não receber a devida importância. Levando em consideração que os direitos de transmissão são a principal fonte de receita para cerca de 80% dos clubes profissionais na Espanha, a fraude audiovisual pode impactar desde a perda de talentos nas categorias de base até a falência de alguns times. *O repórter viajou a convite de La Liga