Livro questiona a obsessão pelo conceito de transparência e propõe recuperar uma virtude esquecida: a confiança

Em algum momento da última década, a transparência deixou de ser um princípio administrativo e passou a se apresentar como uma espécie de virtude moral universal. No mundo corporativo, nos governos, nas plataformas digitais e até nas relações pessoais, a palavra ganhou uma aura redentora. Mais transparência significaria mais democracia, mais ética e mais verdade. O ponto de inflexão desse debate pode ser localizado por volta de 2012, quando o filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han publicou “Sociedade da Transparência”. O livro se tornou uma referência global ao diagnosticar uma cultura marcada pela exposição permanente e pela vigilância recíproca. O conceito atravessou fronteiras acadêmicas e ganhou popularidade no vocabulário público, do ativismo digital às políticas de compliance. Foi nesse ambiente que a transparência passou a ser tratada, muitas vezes, como um imperativo absoluto. Governos passaram a prometer portais cada vez mais abertos. Empresas multiplicaram relatórios, métricas e mecanismos de prestação de contas. Indivíduos passaram a compartilhar aspectos cada vez mais íntimos de suas vidas. A suposição implícita era de que quanto mais luz, melhor. Mas e se essa promessa contivesse um paradoxo? Essa é a pergunta que move “Contra a transparência” (Iluminuras), livro do jornalista e doutor em filosofia Hamilton dos Santos. Em vez de rejeitar o valor da transparência, o autor propõe investigar seus limites. O argumento central é que a obsessão pela exposição total pode acabar corroendo a confiança, virtude que torna possível a vida social. No livro, Hamilton revisita um dilema antigo da filosofia — a tensão entre ser e parecer — para pensar um dos temas mais urgentes da cultura contemporânea. Em vez de tratar a transparência como solução para os problemas sociais, ele sugere que toda transparência implica escolhas, filtros e novas formas de opacidade. O autor fala sobre os riscos de transformar a transparência em valor absoluto e argumenta que uma sociedade saudável precisa preservar algumas zonas de sombra. O título do livro, “Contra a transparência”, parece ir na contramão de um dos valores mais celebrados da sociedade contemporânea. É uma provocação? Sim, é deliberadamente uma provocação. Vivemos um momento em que certas ideias se sedimentam no debate público como se fossem verdades evidentes, quase como mantras morais. A transparência virou uma dessas palavras mágicas. O título do livro procura justamente interromper essa evidência automática e convidar o leitor a refletir criticamente sobre ela. Reconheço que há nesse gesto um certo recurso provocativo que outros autores já utilizaram ao escrever “contra” alguma ideia dominante. Mas a intenção não é negar a importância da transparência e, sim, questionar o modo como passou a ser tratada como um valor absoluto. Não está defendendo menos transparência justamente num momento em que corrupção, desinformação e abuso de poder parecem exigir mais transparência? Não. O livro não é contra a transparência no sentido institucional. Transparência é um princípio fundamental na política democrática, na administração pública e no mundo dos negócios. Sem ela, não há vigilância do poder, não há responsabilização e não há confiança nas instituições. O ponto do livro é outro: transformamos a transparência em uma espécie de panaceia moral. Passamos a imaginar que mais exposição, mais visibilidade e mais vigilância são sempre melhores. O problema é que, quando esse ideal se expande para todos os aspectos da vida social, ele começa a produzir efeitos perversos. Que efeitos seriam esses? Um deles é o enfraquecimento da confiança. Pode parecer paradoxal, mas a confiança pressupõe sempre um grau de não saber. Se tudo precisa ser permanentemente exposto, verificado e monitorado, é sinal de que já não confiamos mais. A transparência absoluta tende a transformar todas as relações em relações de vigilância. E uma sociedade organizada principalmente pela vigilância não é necessariamente mais livre ou mais saudável. Você acha que a sociedade contemporânea está ultrapassando certos limites? Exatamente. A ideia central do livro é que estamos ultrapassando um limite razoável da transparência. Em vez de um instrumento institucional importante, ela começa a se tornar um princípio cultural totalizante. Opiniões, emoções, decisões, preferências, intimidade, tudo deve ser exposto. Há quase uma obrigação permanente de se revelar. Esse excesso cria uma espécie de distopia social, porque dissolve espaços fundamentais da vida humana, como a privacidade, o mistério e até mesmo a formação do caráter. Acredita que a transparência pode entrar em conflito com a confiança. Como isso acontece? A filosofia de David Hume ajuda a entender isso. Para ele, a vida social não funciona com base em certezas, mas em expectativas e hábitos que se formam ao longo do tempo. Nós confiamos nas pessoas e nas instituições porque acreditamos em seu caráter, não porque sabemos tudo sobre elas. Se eu soubesse tudo de antemão, não precisaria confiar. A confiança nasce justamente da combinação entre conhecimento e desconhecimento. A transparência absoluta elimina esse espaço. A cultura digital teria amplificado esse problema? Sem dúvida. A revolução digital criou condições técnicas para uma vigilância recíproca inédita. Todos observam todos, governos, empresas, cidadãos. Ao mesmo tempo, somos incentivados a expor cada vez mais aspectos da vida pessoal. O resultado é uma cultura da exposição permanente. A ideia de que “sair do armário” em todos os sentidos resolveria as mazelas do mundo moderno é uma ilusão. A vida social sempre precisou de zonas de opacidade. Você usa frequentemente a palavra “opacidade”. Por que ela seria necessária? Porque a própria constituição do indivíduo depende dela. Nós não temos acesso total à nossa própria interioridade, nem à dos outros. A identidade humana é construída por meio de máscaras sociais, expectativas e papéis. É isso que permite a vida em comum. Uma sociedade que tenta eliminar completamente essas opacidades corre o risco de transformar todas as relações em julgamento permanente. Se tudo fosse transparente, isso não tornaria a sociedade mais informada? Curiosamente, talvez tornasse algumas instituições desnecessárias. Pensemos, por exemplo, no papel da imprensa. O jornalismo existe justamente porque o poder e as instituições não são totalmente transparentes. Há informações a investigar, fatos a apurar, contextos a interpretar. Em uma hipotética sociedade de transparência total, a própria existência do jornalismo se tornaria supérflua. A sociedade confunde transparência com virtude? Muitas vezes, sim. A transparência passou a funcionar como uma espécie de símbolo moral. Algo é considerado bom simplesmente porque é transparente. Mas essa é uma simplificação perigosa. A questão importante não é se devemos ter transparência, mas sobre o quê, em que medida e com que finalidade. Toda transparência implica também escolher o que permanecerá opaco. Se a transparência não pode ser um valor absoluto, qual seria então o princípio mais importante para organizar a vida social? A confiança. Democracias, mercados e relações humanas complexas dependem de confiança. A transparência pode ajudar a sustentá-la em certos contextos institucionais, mas não pode substituí-la. Uma sociedade que acredita poder funcionar apenas pela exposição total e pela vigilância permanente está, na verdade, revelando que perdeu a confiança em si mesma.