O cinema brasileiro vive um momento especial no que diz respeito ao reconhecimento internacional nos últimos dois anos. Neste período, o audiovisual nacional recebeu duas indicações ao Oscar de melhor filme, com "Ainda estou aqui" e "O agente secreto". Os filmes de Walter Salles e Kleber Mendonça Filho também acumularam inúmeros outros troféus, como o Globo de Ouro, o Critics Choice e prêmios nos Festivais de Veneza e Cannes. Oscar 2026: premiação consagra 'Uma batalha após a outra'; 'Valor sentimental' supera 'O agente secreto' Análise: Derrota de 'O agente secreto' no Oscar deixa gosto amargo, mas não apaga trajetória de sucesso Outros filmes não chegaram até o Oscar, mas também se destacaram. "O último azul", de Gabriel Mascaro, levou o Urso de Prata do Festival de Berlim, enquanto que "Manas", de Marianna Brennand, chamou a atenção de artistas internacionais como Sean Penn e Julia Roberts, e conquistou uma indicação ao Goya de melhor filme íbero americano. A fase positiva levanta um questionamento: o Brasil terá um representante no Oscar 2027? A resposta não é fácil, num primeiro momento a impressão é de que vai ser difícil uma obra voltar a fazer o que fizeram "Ainda estou aqui" e "O agente secreto". As obras já se colocavam como fortes concorrentes a prêmios antes mesmo de suas primeiras exibições, em razão do prestígio internacional de Salles e Mendonça Filho. Neste sentido, também dificulta o caminho do Brasil no retorno ao Oscar o fato de outros cineastas brasileiros renomados, como Fernando Meirelles e Karim Aïnouz terem obras estrangeiras chegando às salas em 2026. O diretor de "Cidade de Deus", no momento, trabalha na pós-produção de "Here comes the flood", drama com Denzel Washington e Robert Pattinson. Já o cineasta de "Madame Satã" apresentou "Rosebush Pruning", com Elle Fanning e Callum Turner, na mostra competitiva do Festival de Berlim. Mesmo não sendo nada fácil repetir os cenários de "Ainda estou aqui" e "O agente secreto", nada é impossível. O cinema nacional vem demonstrando sua força de cicatrização ao longo dos anos. Além disso, não é como se não tivéssemos obras aguardadas chegando em 2026. O ano, inclusive, reserva novos projetos de cineastas que já tiveram seus filmes selecionados pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país no Oscar, como são os casos de Cao Hamburger, Anna Muylaert, Gabriel Martins e Carlos Saldanha. Confira filmes brasileiro que podem representar o Brasil no Oscar 2027: '100 dias' Filipe Bragança interpreta Amyr Klink em "100 dias", de Carlos Saldanha Divulgação Duas vezes indicado ao Oscar, pelo curta "A aventura perdida de Scrat" (2003) e pela animação "O touro Ferdinando" (2017), o diretor Carlos Saldanha lança em breve o drama "100 dias", sobre a jornada de Amyr Klink ao atravessar o Oceano Atlântico em um barco a remo, em 1984. Produzida pela Ventre Studio, em parceria com Buena Vista Internacional, a obra é inspirada no diário de viagem "Cem dias entre céu e mar", do próprio navegador. Filipe Bragança, de "Meu sangue ferve por você" (2023), é o responsável por dar vida a Klink. 'Escola sem muros' Julio Andrade em cena de "Escola sem muros", de Cao Hamburger Divulgação / Marina de Almeida Prado Antes de "Ainda estou aqui", no ano passado, o último longa brasileiro a figurar na shorlist de filmes internacionais no Oscar havia sido "O ano em que meus pais saíram de férias" (2006), de Cao Hamburger. O diretor, por sinal, retorna às telas em 2026 com "Escola sem muros", projeto inspirado na trajetória da Escola Campos Salles, referência nacional em inovação pedagógica e integração comunitária. Julio Andrade interpreta um diretor que chega à escola e transforma sua realidade ao lado de lideranças locais (vividas por Flávio Bauraqui e Larissa Bocchino). Produção da Gullane Entretenimento, o longa chega aos cinemas no segundo semestre de 2026. 'A fabulosa máquina do tempo' "A fabulosa máquina do tempo", de Eliza Capai Divulgação / Carol Quintanilha Selecionado para o Festival de Berlim de 2026, onde compete pelo Urso de Cristal, "A fabulosa máquina do tempo" é uma aposta do Brasil na categoria de melhor documentário no Oscar 2027. Dirigido por Eliza Capai, o doc leva para as telonas a inventividade e imaginação de um grupo de jovens meninas, que são incentivadas, através de brincadeiras, a criar cenas que dialoguem com a dura realidade vivida por suas mães e avós. 'Geni e o zepelim' Ayla Gabriela como a Geni em 'Geni e o Zepelim' Dan Behr Adaptação para as telas de canção de Chico Buarque, "Geni e o zepelim" conta com direção de Anna Muylaert, cineasta que também já teve um trabalho escolhido para representar o Brasil no Oscar: "Que horas ela volta?", em 2015. Produção da Migdal Filmes, o filme acompanha Geni (Ayla Gabriela), prostituta de uma cidade ribeirinha no coração da floresta amazônica. Odiada pela sociedade local, ela vê a chance de redenção com a chegada na cidade de um tirano comandante de um zepelim (Seu Jorge). 'No jardim do ogro' Atriz Alice Braga e diretora Carolina Jabor Divulgação / Mariana Maltoni Novo filme Original Globoplay, "No jardim do ogro" é uma adaptação de best-seller da autora franco-marroquina Leila Slimani. O longa conta com direção de Carolina Jabor, que também assina o roteiro ao lado de Rita Piffer e Victoria Visco. A trama acompanha Júlia (Alice Braga), uma jornalista bem-sucedida que vive de forma confortável em um apartamento em São Paulo com seu marido cirurgião e seu filho pequeno. Apesar das aparências de vida perfeita, ela esconde um segredo a sete chaves: sua compulsão por sexo de risco. A princípio, o longa tem estreia prevista para 2027, mas há a possibilidade de figurar em festivais internacionais ainda em 2026. Julio Andrade, Wilson Rabelo e Yara de Novaes também integram o elenco. Produzido em parceria com a Buena Vista International. 'Leila e noite' Roschdy Zem e Marina Fois em cena de "Leila e noite" Divulgação / Caroline Champetier Após elogiados trabalhos em "Casa grande" (2014) e "Gabriel e a montanha" (2017), o diretor Fellipe Barbosa lança "Leila e noite" em 2026. Coprodução entre Brasil, França e Marrocos, o filme conta a história da fotógrafa franco-marroquina Leila Alaoui e o impacto de sua morte, aos 33 anos, vítima de atentado terrorista, para sua família. O filme é uma adaptação de livro escrito por Aziz Alaoui, pai da fotógrafa que procurou Barbosa diretamente. O cineasta brasileiro conheceu Leila na faculdade, em Nova York. Os dois se tornaram melhores amigos. Falado em vários idiomas e passado em Marrocos, o filme conta com Roschdy Zem, Marina Fois, Francoise Lebrun, Sayyid El Alami, Oulaya Amamra, João Pedro Zappa e Felipe Frazão no elenco. O filme é uma produção da Migdal Filmes, de Iafa Britz, com coprodução da CinemaScópio, de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux. 'Vicentina pede desculpas' O diretor Gabriel Martins no set do filme "Vicentina pede desculpas" Divulgação / Netflix Escolhido o representante do Brasil no Oscar em 2023, com o drama "Marte um", o diretor Gabriel Martins chega com um novo projeto em 2026: "Vicentina pede desculpas". Com Rejane Faria no papel principal, o filme acompanha a história de uma mulher que, aos 75 anos, tem de encarar a morte (e especulações sobre o potencial suicídio) de seu filho, motorista de um ônibus que ao cair de um viaduto gera uma imensa tragédia. Vicentina decide embarcar em uma jornada para procurar as famílias das vítimas para pedir desculpas. Com uma abordagem sensível e introspectiva, a obra explora temas de perdão, redenção e luto de uma forma delicada e realista. O filme é uma produção da Filmes de Plástico em parceria com a Netflix. Maira Azevedo, Giovanna Heliodora, Thalma de Freitas e Grace Passô completam o elenco. 'As vitrines' Cena de "As vitrines", de Flavia Castro Divulgação Destaque no Festival de Biarritz, no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, no ano passado, "As vitrines", de Flavia Castro, acompanha famílias brasileiras que buscam resguardo na embaixada brasileira no Chile após o golpe militar de Pinochet, em 1973. Estrelado por nomes como Leticia Colin, Julia Konrad, Helena O’Donnell e Gael Nordio, o longa debate sobre liberdade e ruptura através do olhar de crianças que moram no local.