Não é só o Copom: BCs do mundo inteiro terão semana decisiva sobre juros em meio à guerra no Irã

Não é só no Brasil que haverá decisão de juros esta semana — o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne na próxima quarta-feira para decidir a nova taxa Selic, e a previsão é de um corte de 0,25 ou 0,5 ponto percentual. Também nos EUA, na Europa e em vários países ricos estão marcadas para os próximos dias reuniões sobre política monetária, em meio a uma renovada ameaça de inflação provocada pela guerra no Irã que pode forçar os bancos centrais a adiar cortes nas taxas de juros e, em alguns casos, até considerar aumentos. Míriam Leitão: Super Quarta chega sob incerteza da guerra e divide mercado sobre corte de juros no Brasil IRPF 2026: Preciso fazer a declaração? Faça o quiz e descubra Mudanças não são iminentes por enquanto: o Federal Reserve, o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra devem manter os custos de empréstimos estáveis enquanto avaliam até que ponto o aumento dos preços da energia será repassado aos preços ao consumidor e ao crescimento econômico. Nesta segunda-feira, o petróleo chegou a bater US$ 106, com estreito de Ormuz ainda fechado. Mas, para eles e para os outros 18 bancos centrais que estão prestes a definir sua política monetária — responsáveis por cerca de dois terços da economia global ao todo — o tom deverá se tornar mais cauteloso, à medida que reconhecem o risco de um novo choque inflacionário. Muito dependerá de quanto tempo o conflito vai durar — algo que os mercados têm dificuldade em avaliar. Investidores preocupados com a estagflação têm sido afetados pelas oscilações no preço do petróleo e pela incerteza sobre o próximo movimento de Donald Trump, levantando dúvidas sobre a rapidez com que os banqueiros centrais reagiriam a novas pressões de preços. Initial plugin text O que está claro é que os formuladores de política econômica ao redor do mundo — ainda contabilizando os custos das tarifas dos Estados Unidos e lidando com um cenário geopolítico cada vez mais fragmentado — estão, relutantemente, se preparando para intervir novamente caso os acontecimentos no Oriente Médio reacendam a inflação ao consumidor, prejudiquem o crescimento econômico ou desestabilizem suas moedas. — Os bancos centrais podem definir taxas de juros — mas não podem reabrir o Estreito de Ormuz —, disse Tom Orlik, economista-chefe da Bloomberg Economics. — Espere que Powell, Lagarde, Bailey & companhia mantenham as taxas estáveis, sinalizem vigilância e torçam para que a guerra no Irã termine antes de criar outro problema inflacionário que eles não estão bem equipados para resolver. Lembranças do último choque inflacionário Não é apenas a situação no Irã que está elevando o nível de alerta. As lembranças do último choque inflacionário — quando o aumento de preços chegou a dois dígitos em algumas grandes economias após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 — ainda estão dolorosamente recentes. Assim como naquela ocasião, é difícil estimar quanto tempo os combates vão durar. Boletim Focus: Mercado eleva projeção do IPCA para 2026 em meio à alta do petróleo Donald Trump tem oscilado entre dizer que a guerra pode terminar “muito em breve” e afirmar que os Estados Unidos têm “muito tempo” enquanto atacam alvos a partir do ar. Enquanto isso, o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, prometeu manter o Estreito de Ormuz — um ponto crucial para o transporte de energia — efetivamente fechado. Por enquanto, reduções nos custos de empréstimos ainda permanecem no horizonte do Federal Reserve — embora não neste mês —, já que os riscos de inflação vindos do Oriente Médio são ofuscados por sinais de fragilidade que começam a aparecer no mercado de trabalho dos EUA. Embora os mercados já não precifiquem totalmente um corte em 2026, ainda apostam em algum afrouxamento monetário — o que faz dos Estados Unidos uma exceção entre seus pares do Grupo dos Sete. Veja preços: Gasolina e diesel já sobem nos postos do Rio e pesam mais no bolso De fato, à medida que cresce o descontentamento com a alta dos preços da gasolina antes das eleições de meio de mandato, Trump renovou seu apelo por cortes nas taxas de juros — chegando até a exigir uma medida intermediária. Economistas do Morgan Stanley reafirmaram sua previsão de reduções de um quarto de ponto percentual em junho e setembro, dizendo que um atraso é possível, mas que isso poderia significar que o Federal Reserve terá de agir com mais força mais adiante. Mesmo que os preços do petróleo permaneçam elevados por um período prolongado, “dada a pressão política por uma política monetária mais frouxa, especialmente antes das eleições de novembro, cortes nas taxas de juros ainda seriam mais prováveis do que aumentos”, disse Christoph Balz, economista do Commerzbank. Situação na Europa A situação é diferente na Europa, onde, apesar dos riscos para o crescimento, o foco está firmemente na inflação e as expectativas de maior afrouxamento monetário praticamente desapareceram. Prévia do PIB: Atividade econômica cresce 0,8% em janeiro, indica Banco Central No Reino Unido, que viu a inflação ultrapassar 11% em 2022, as chances de um corte em março estavam em quase 80% pouco antes de os Estados Unidos e Israel atacarem o Irã. Agora, espera-se que os formuladores de política monetária mantenham as taxas inalteradas e, embora economistas — incluindo os do Goldman Sachs — ainda prevejam reduções mais adiante neste ano, os traders começaram a precificar um aumento. O Banco da Inglaterra enfrenta “um exemplo clássico de problema de estagflação”, segundo Emma Moriarty, gestora de portfólio da CG Asset Management. — Por um lado, o Banco da Inglaterra precisa parecer responsivo e garantir que as expectativas de inflação permaneçam ancoradas — disse ela à Bloomberg Television na sexta-feira. Por outro lado, acrescentou, existe um risco real de que elevar as taxas “torne um problema de demanda fraca ainda pior”. Após caso Master: BC avalia fazer ajuste na supervisão de instituições financeiras O crescimento é um pouco mais sólido na zona do euro, composta por 21 países, que se encontra em uma posição muito melhor para lidar com uma nova aceleração da inflação do que na última vez. Espera-se que as autoridades mantenham os custos de empréstimos estáveis na quinta-feira, embora alguns tenham sinalizado possíveis mudanças adiante. A experiência de 2022 “pode tornar o BCE mais consciente do risco de as expectativas se desancorarem e mais rápido em elevar as taxas se as pressões energéticas persistirem”, disse Fabio Balboni, economista-chefe para a zona do euro do HSBC. Os mercados estão convencidos de que o BCE terá de agir, apostando em um ou dois aumentos neste ano. Apenas 7% dos entrevistados em uma pesquisa da Bloomberg com analistas, porém, preveem qualquer aperto monetário. Aumento das taxas no Japão não está descartado As chances são maiores no Japão, onde o crescimento dos preços superou a meta de 2% do banco central por quatro anos consecutivos. Depois de provavelmente manter as taxas inalteradas na quinta-feira, um aumento em abril não está descartado, disseram neste mês pessoas familiarizadas com o assunto. Agência Internacional de Energia: Petróleo de reservas de emergência será liberado imediatamente para a Ásia O Japão, assim como grande parte da Ásia, depende fortemente das importações de petróleo do Oriente Médio, com mais de 80% das remessas que passam pelo Estreito de Ormuz seguindo em direção ao leste. Isso significa que um período prolongado de preços elevados do petróleo pode se mostrar custoso tanto para a inflação quanto para a expansão econômica. Um bloqueio de um mês levaria o Brent a cerca de US$ 105 por barril, enquanto um fechamento de três meses poderia empurrar os preços máximos para perto de US$ 164, de acordo com uma avaliação de Bhargavi Sakthivel e Ziad Daoud, da Bloomberg Economics. — O Estreito de Ormuz vai determinar como as coisas vão evoluir —disse Carsten Klude, economista-chefe da M.M. Warburg & Co. — O gargalo é real. Quem o ignora está ignorando o canal de transmissão mais importante desta crise. Alternativa: Choque de petróleo faz países se voltarem para energia nuclear É provável que haja algumas ações imediatas sobre as taxas de juros esta semana. Economistas veem os efeitos da situação no Irã levando a Austrália a antecipar para terça-feira um aumento que era esperado para maio — dando continuidade a um ciclo de aperto monetário iniciado em fevereiro. — Os bancos centrais permanecerão com postura dura enquanto persistir a ameaça das implicações inflacionárias da guerra — afirmou Thierry Wizman, estrategista global de câmbio e juros do Macquarie Group. — Esperamos que essa postura mais ‘hawkish’ persista mesmo depois do fim das hostilidades. Em outros lugares, tudo indica que o Brasil fará um corte na quarta-feira, impulsionado pelo enfraquecimento do crescimento no fim do ano passado e por custos de empréstimos próximos ao nível mais alto em quase duas décadas. Mesmo assim, o afrouxamento pode agora ocorrer apenas gradualmente, e os mercados estão divididos quanto ao tamanho do corte desta semana depois que uma autoridade afirmou que o banco central “não pode ignorar” as consequências da guerra. Esses dois exemplos destacam como a guerra no Irã está atingindo economias em diferentes fases de seus ciclos, exigindo respostas variadas que podem ter implicações significativas para as moedas.