Quando o bolso sente, o governo sofre

Oi, nesta edição trago uma pesquisa exclusiva Genial/Quaest sobre a percepção dos brasileiros sobre os preços, e a notícia é ruim para o presidente Lula. A despeito de o governo Lula comemorar a menor inflação acumulada em quatro anos neste século, 53% dos brasileiros afirmam que a sua renda não está acompanhando a alta dos preços. A percepção de perda de poder de compra no último ano é majoritária em todas as classes sociais, sem distinção de gênero, idade, escolaridade e região. A newsletter mostra ainda que o mercado financeiro embarcou de vez na campanha de Flávio Bolsonaro, mas por uma premissa errada. Existe uma crença irreal de que o filho mais velho de Jair Bolsonaro tem compromisso com a responsabilidade fiscal. Parece óbvio, mas é preciso deixar claro: Flávio Bolsonaro não é Javier Milei e sua motosserra nos gastos públicos. E ainda um mini-perfil do discreto advogado Dario Durigan, que vai assumir o Ministério da Fazenda na semana que vem. Clique aqui para se inscrever nas newsletters do GLOBO. Boa leitura. Nesta edição: O bolso sente e o governo sofre A volta da velha guarda Flávio Bolsonaro não é Javier Milei A bandeira do nacionalismo O discreto novo ministro O cerco sobre Alcolumbre Fique atento 1. O bolso sente e o governo sofre Recorte inédito da pesquisa Genial/Quaest mostra que 53% dos brasileiros afirmam que a sua renda não está acompanhando a alta dos preços. A percepção de perda de poder de compra no último ano é majoritária em todas as classes sociais, sem distinção de gênero, idade, escolaridade e região. Apenas 14% acham que o aumento do seu salário supera a inflação, enquanto 30% acham que o poder de compra está estável. A descoberta sugere como será difícil a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os números gerais do governo Lula são bons: a menor inflação acumulada em quatro anos no século, o maior crescimento do PIB desde o mandato Lula 2, o desemprego em mínimas históricas, redução recorde da pobreza e aumento real do salário mínimo. Mas as pessoas não comem estatística. A percepção do eleitor, de acordo com a pesquisa, é que elas compram hoje menos do que meses atrás. Entre os eleitores que ganham até dois salários mínimos, 52% acham que a inflação supera a renda, índice que oscila para 53% entre quem ganha até cinco salários mínimos e vai a 57% entre os que recebem acima. Para 64% dos brasileiros, o poder de compra hoje está menor do que há um ano e 48% acham que a economia do país piorou, maior índice desde setembro. A sensação de que o custo de vida está subindo é global. Donald Trump venceu as eleições de 2024 por, entre outros motivos, culpar Joe Biden pelo preço do ovo chegar a US$ 1. No ano passado, o novato Zohran Mamdani foi eleito prefeito de Nova York por prometer reduzir o custo de vida na cidade, conceito batizado de affordability. Embora a queixa sobre preços seja geral entre os eleitores, a política influencia a percepção. Entre os que se consideram bolsonaristas, 74% enxergam uma inflação correndo mais que a renda, enquanto só 31% dos lulistas admitem o mesmo. Entre os eleitores que aprovam o governo, 61% dizem que a renda subiu acima da inflação, enquanto 55% dos que reprovam Lula dizem sentir o contrário. O problema para Lula é que os eleitores independentes, que na prática vão definir a eleição, também estão pensando com o bolso: 53% percebem os preços aumentando mais do que a renda, 28% acham que a renda acompanhou a alta de preços e só 12% consideram que a renda subiu mais. Há uma sazonalidade neste mau humor. O primeiro trimestre é o período de pagamento de taxas como o IPTU e IPVA, compras de material escolar e inflação de alimentos. Mesmo assim, os dados da Genial/Quaest mostram que o discurso de otimismo do governo está descolado de como as pessoas enxergam o dia a dia 2. A volta da velha guarda O presidente Lula recebeu para jantar no Palácio do Alvorada os militantes históricos dos seus primeiros governos, como Gilberto Carvalho, Paulo Okamoto e Luiz Marinho, para discutir a campanha. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, deve coordenar o programa de um eventual governo Lula 4, repetindo a missão que teve na eleição passada. O senador Flávio Bolsonaro Edilson Dantas/Agência O Globo 3. Flávio Bolsonaro não é Javier Milei A rápida ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas gerou um clima de otimismo irreal no mercado financeiro. Torcedores de qualquer alternativa anti-Lula, alguns executivos da Faria Lima partem de uma premissa equivocada, a de que existe compromisso do filho mais velho de Jair Bolsonaro com a responsabilidade fiscal. Parece óbvio, mas é preciso deixar claro: Flávio Bolsonaro não é Javier Milei e sua motosserra nos gastos públicos. As prioridades de um eventual governo Flávio Bolsonaro são, pela ordem, (a) soltar o pai, seja via indulto ou anistia; (b) enfrentar o STF, com a aprovação de impeachment do ministro Alexandre de Moraes e reduzir os poderes da Corte; e (c) expurgar a administração de petistas e políticas públicas vinculadas ao PT. Todo o resto é wishful thinking. Se eleito, Flávio Bolsonaro assume com um calendário apertado. No fim de setembro de 2027, quando o novo governo ainda não terá nove meses completos, Alexandre de Moraes assumirá a presidência do STF, o que significa dizer que a janela para o seu impeachment vai até agosto. Se as condições políticas para o afastamento de um ministro do STF são complexas, as de um ministro presidente de poder são nulas. Este prazo exíguo vai obrigar Flávio Bolsonaro a gastar o capital político recebido pelas urnas na anulação do julgamento do pai e na vingança contra Moraes. É preciso muita ignorância sobre como funciona Brasília para supor que um presidente com essas prioridades tenha disposição ou capacidade para, ao mesmo tempo, acabar com o reajuste acima da inflação do salário mínimo, como pedem dez entre dez economistas da Faria Lima. Nos três primeiros meses de sua campanha, Flávio Bolsonaro deu uma única pista do que seria o seu programa econômico ao usar a expressão “tesouraço” para dizer que pretendia cortar impostos e gastos. Parou de repetir a parolagem quando percebeu que o PT a usaria para marcá-lo como um cortador de direitos sociais, com óbvios efeitos eleitorais. No principal evento em que falou para o mercado financeiro, no BTG, em fevereiro, Flávio Bolsonaro foi tão raso que até seus apoiadores na plateia ficaram desolados. Nas próximas semanas, Flávio Bolsonaro anunciará um porta-voz econômico que, nas conversas com os bancos vai prometer ajustes, enquanto o discurso oficial para a sociedade será bem mais genérico. Este porta-voz, no entanto, nunca terá sobre ele a influência que Paulo Guedes exerceu sobre Jair Bolsonaro. Reconhecidamente ignorante sobre economia, Jair Bolsonaro precisava de Paulo Guedes como fiador junto à elite econômica. Flávio Bolsonaro não precisa. Quando as pesquisas mostraram que ele se tornou o mais viável entre os candidatos da oposição, o apoio do mercado financeiro veio de graça. Basta a Flávio Bolsonaro falar mal do ministro Fernando Haddad que os aplausos estão garantidos. Esse apoio sem quid pro quo implica um candidato descompromissado com um ajuste fiscal profundo, justamente a maior queixa do mercado sobre a gestão Lula. 4. A bandeira do nacionalismo A decisão do presidente Lula de revogar o visto de entrada no país do assessor especial para o Brasil do governo Trump, Darren Beattie, é uma armadilha. Uma reação extravagante de Trump e da família Bolsonaro é tudo que Lula precisa num momento em que o governo patina nas pesquisas. Mais do que as filigranas jurídicas do Ministério das Relações Exteriores para a revogação do visto, a decisão do presidente é uma tentativa de mudar a pauta política de volta para a questão da soberania, ponto de virada do melhor momento de popularidade no ano passado, quando o lobby de Eduardo Bolsonaro junto à Casa Branca fez o Brasil sofrer o maior tarifaço do mundo. A recente pesquisa Genial/Quaest indicou que 32% dos brasileiros disseram que o apoio de Trump a Flávio Bolsonaro aumentaria suas chances de fazer o oposto e escolher Lula. Desde que Trump assumiu, a imagem dos EUA no Brasil piorou sensivelmente. Em fevereiro de 2024, 58% dos brasileiros tinham uma imagem favorável dos EUA e 24% desfavorável. Agora, 48% têm imagem negativa e só 38% positiva. Redator de discursos presidenciais no primeiro mandato Trump, Beattie foi demitido em 2018 depois que se descobriu sua participação em eventos supremacistas brancos. No ano passado, Beattie foi indicado como responsável pelo Brasil no Departamento de Estado com o evidente propósito de ajudar os Bolsonaros. Amigo de Eduardo Bolsonaro, defensor do tarifaço do ano passado, a agenda de Beattie no Brasil se resumia a encontros com o ex-presidente Jair Bolsonaro e com o candidato Flávio Bolsonaro. A ascensão de Beattie no Departamento de Estado coincidiu com a articulação americana de considerar as facções criminosas PCC e CV como organizações terroristas, revelada por esta newsletter. Embora ainda não assinada por Donald Trump, a eventual qualificação de que existe terrorismo no Brasil não aumenta em nada a segurança no país, mas ajudaria o discurso da oposição (além de multiplicar por dez o trabalho de compliance dos bancos locais). Para gerar conflito com o Brasil, na semana passada os EUA propuseram enviar para cá os imigrantes ilegais, sabendo desde o início que a ideia seria rechaçada. Dito isso, não há nada de raro no governo dos EUA ter um candidato preferido no Brasil. Em 2022, o governo Biden fez seguidos alertas às tentativas de um golpe de Bolsonaro e articulou o reconhecimento mundial da vitória de Lula na mesma noite da eleição. Na quinta-feira (12), o próprio Lula recebeu no Palácio do Planalto o senador Iván Cepeda, candidato da esquerda a presidente da Colômbia. Nas eleições argentinas de 2023, Lula e o PT apoiaram ativamente o candidato Carlos Massa, derrotado por Javier Milei. O secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan Brenno Carvalho/Agência O Globo 5. O discreto novo ministro O advogado Dario Durigan, de 41 anos, será o novo ministro da Fazenda em substituição a Fernando Haddad, que deixa o cargo nesta quinta-feira (19). Braço direito de Haddad desde junho de 2023, Durigan será um continuador da atual política econômica. Nada muda no “pior emprego do mundo”. Discreto, tom professoral e extremamente leal a Haddad, Durigan sabe da pressão que sofrerá para soltar gastos em ano eleitoral. Por isso mesmo, vai começar sua gestão fazendo o oposto, anunciando um contingenciamento de R$ 5 bilhões a R$ 8 bilhões de gastos. Parte dessa economia será usada para reduzir a fila de pedidos de aposentadoria do INSS, hoje na casa de 3 milhões de pessoas. Assim como Haddad, Durigan é um evangelista dos méritos da atual gestão, dando ênfase à falta de reconhecimento dos avanços dos últimos três anos. Sem experiência partidária, sua relação com o mercado financeiro deverá ser menos combativa do que a de Haddad. Uma das suas prioridades será taxar os títulos isentos do agro e da construção, ideia defendida por todas as corretoras que perderam mercado para os CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio). Formado pela USP, Durigan fez parte da geração de jovens gestores que ocupou os principais cargos da Casa Civil no primeiro governo Dilma Rousseff, quase todos ligados ao ex-ministro Márcio Thomaz Bastos. Em 2020, ele fez seu mestrado na Universidade de Brasília debatendo movimentos como a greve dos caminhoneiros e as ocupações das escolas públicas de 2018 com o conceito da “desobediência democrática”, do jurista americano Daniel Markovits, conhecido no Brasil por ser autor do livro “A Cilada da Meritocracia”. Na tese, Durigan mostra uma visão otimista dos conflitos e conclui que a “desobediência democrática” é um teste de maturidade da política pública pela pressão popular de revisão da legislação em vigor. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre Brenno Carvalho/Agência O Globo 6. O cerco sobre Alcolumbre O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não apenas perdeu o controle do plenário, como está sob ataque especulativo. Desceu do posto de político mais poderoso de Brasília para o de presidente do Congresso enfraquecido. Sua lista mais recente de problemas: Alcolumbre aparece nos diálogos do celular de Vorcaro como um político muito próximo Comandado por um afilhado político seu, o fundo de pensão dos servidores do Amapá atropelou alertas de técnicos e investiu R$ 400 milhões em 20 dias em papéis do Master. ⁠Durante a semana, O GLOBO mostrou que a Polícia Federal filmou o segundo suplente de Alcolumbre, Breno Chaves Pinto, fazendo um saque de R$ 350 mil em dinheiro vivo e saindo do banco no carro da empresa de um primo do senador. Suspeito de comandar fraudes no Dnit do Amapá, controlado por Alcolumbre, Chaves Pinto fazia os saques sempre logo depois de pagamentos feitos pelo governo. No total, ele sacou R$ 3 milhões O GLOBO mostrou ainda que, em abril do ano passado, para driblar restrições do Supremo a pagamentos de emendas parlamentares, Alcolumbre mandou um ofício a si mesmo pedindo a liberação de R$ 379 milhões do orçamento secreto para 90 obras no Amapá. Parte do dinheiro, R$ 30,5 milhões, foi destinado a uma obra tocada pela construtora de... seu segundo suplente, Breno Chaves Pinto. O deputado Carlos Jordy, do PL, disse em uma entrevista coletiva que Alcolumbre propôs à oposição trocar o pedido de uma CPI sobre o Master pela votação dos vetos de Lula ao PL da Dosimetria, que reduziria a pena de Jair Bolsonaro. Quando um deputado expõe publicamente uma proposta do presidente do Congresso, significa que o presidente do Congresso perdeu poder. Alcolumbre perdeu o controle do plenário do Senado e está enfraquecido porque precisa se defender em muitas frentes: quer evitar a continuidade da CPMI do INSS para proteger seu ex-assessor suspeito de irregularidades; quer evitar uma CPI do Master, por ser um dos parlamentares citados por Vorcaro; quer evitar investigações sobre emendas parlamentares porque foi um dos beneficiados pelo orçamento secreto. Sua situação explica por que o Senado tem feito sessões remotas. Sem senadores no plenário, Alcolumbre não sofre a pressão para convocar uma sessão do Congresso, que pode levar à prorrogação da CPMI, e fica menos exposto a derrotas. 7. Fique atento A guerra do Irã entrou na sua terceira semana com o ataque americano na ilha de Kharg, ponto estratégico das exportações de petróleo. No domingo à noite, o preço do barril voltou a passar dos US$ 100. Com o subsídio do governo para o diesel, o preço para o consumidor brasileiro deveria subir apenas R$0,06 nesta semana. Você acredita? Nem eu. Depois da confirmação da Segunda Turma do STF de que ficará preso em Brasília por muitos meses, o banqueiro Daniel Vorcaro trocou seus advogados e aumentou as chances de uma delação premiada. Ninguém mais dorme em Brasília. Depois de uma semana de sessões remotas, o Congresso volta a funcionar com medo do recrudescimento do caso Master. Na terça-feira (17), o Congresso promulga o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Na terça-feira, o BNDES divulga que a sua carteira de crédito ultrapassou R$ 660 bilhões, o maior nível desde 2016. Com a guerra mandando o petróleo para a lua e a economia interna ainda ativa, o BC deve iniciar na quarta-feira (18) o seu ciclo de corte de juros com um cauteloso 0,25 ponto percentual. Na quinta-feira (19), o ministro Fernando Haddad deixa o cargo para ser candidato do PT ao governo de São Paulo. Internado desde sexta-feira (13) no hospital DF Star com broncopneumonia bacteriana, o ex-presidente Jair Bolsonaro evoluiu com estabilidade clínica e melhora nas funções renais, segundo o último boletim médico. A internação aumenta a pressão por uma transferência do ex-presidente para casa.