Seguradoras passam a oferecer cobertura para erros de inteligência artificial

Adotar várias ferramentas ao mesmo tempo ou não ter um objetivo claro são questões que mais ajudam do que atrapalham quando o assunto é IA. Divulgação: Pexels Apesar da crescente autonomia e capacidade da inteligência artificial, a tecnologia ainda está sujeita a erros. Por isso, segundo reportagem da agência France Press divulgada nesta segunda-feira (16), empresas do setor de seguros começam a incorporar a IA em suas coberturas. Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça As seguradoras oferecem apólices específicas que cobrem erros como decisões equivocadas e as chamadas “alucinações” — quando a tecnologia apresenta informações falsas com alto grau de confiança. Tradicionalmente, seguros são desenhados para cobrir falhas humanas — não decisões tomadas por máquinas. Por isso, empresas que desenvolvem ou utilizam sistemas mais autônomos têm buscado coberturas adicionais. Segundo Phil Dawson, responsável por IA na empresa seguradora Armilla, a evolução dessas ferramentas desafia a lógica tradicional dos seguros. “A finalidade destas ferramentas avançadas de IA é prescindir da assistência e da supervisão humanas na tomada de decisões, o que questiona parte da lógica fundamental da cobertura de seguros existente”, afirmou. ChatGPT pode falhar em mais da metade das emergências médicas Seguradoras mudam postura Até recentemente, os riscos da IA eram muitas vezes cobertos de forma implícita em apólices tradicionais, em um modelo chamado de “cobertura silenciosa”. Startup busca pessoa disposta a provocar erros e testar os limites de sistemas de inteligência artificial. Freepik Segundo análise de Sonal Madhok e Anat Lior, publicada em 2025 pela corretora Willis Towers Watson, essa situação lembra os primeiros anos da criminalidade cibernética, quando os riscos ainda não eram claramente definidos. Nos últimos meses, o setor passou de uma postura cautelosa para uma abordagem mais ativa. De acordo com Jonathan Mitchell, da corretora Founder Shield, muitas apólices padrão passaram a incluir cláusulas de “exclusão absoluta da IA”, retirando esse tipo de risco da cobertura tradicional. Segundo o jornal Financial Times, seguradoras como a Chubb têm solicitado a reguladores dos Estados Unidos autorização para excluir formalmente responsabilidades ligadas à IA de seus contratos. Com isso, cresce a oferta de seguros específicos para IA. Um dos principais produtos é o seguro de erros e omissões (E&O), comum em serviços profissionais, mas agora adaptado para incluir falhas de inteligência artificial. Esse tipo de apólice pode cobrir situações como: decisões erradas tomadas por sistemas automatizados prejuízos financeiros causados por “alucinações” danos no mundo real, como compras excessivas feitas por um agente virtual Em um exemplo citado por Dawson, uma imobiliária buscou proteger seu agente de IA como se fosse um funcionário e acabou contratando uma apólice específica para a tecnologia. Avaliação de risco e exclusões Antes de conceder cobertura, seguradoras avaliam detalhadamente os sistemas de IA. A Armilla, por exemplo, realiza testes para identificar vulnerabilidades dos modelos e analisa a gestão de riscos da empresa, além da adesão a normas nacionais e internacionais. Mesmo assim, algumas áreas ficam de fora. A seguradora não cobre aplicações relacionadas a diagnósticos médicos ou saúde mental. Já a Munich Re exclui falhas decorrentes de condições excepcionais de mercado, como variações atípicas na avaliação de ativos financeiros ou obras de arte. Mercado em expansão Atualmente, os principais clientes desse tipo de seguro são empresas de tecnologia e companhias de setores como agricultura, indústria e energia — tanto desenvolvedoras quanto usuárias de IA. Para Michael von Gablenz, da Munich Re, o potencial do mercado é comparável ao da cibersegurança — ou até maior. Apesar dos avanços tecnológicos, ele ressalta que os riscos não devem desaparecer. “Seguem sendo modelos estatísticos”, afirmou. “Sempre apresentam uma parte de incerteza.” De acordo com a consultoria Deloitte, o mercado global de seguros para IA pode movimentar até US$ 4,8 bilhões (cerca de R$ 25 bilhões) até 2032. *Com informações da France Presse