O navio Professor Wladimir Besnard, que afundou na última sexta-feira, na zona portuária de Santos, no litoral paulista, foi o possibilitador de passos importantes da oceanografia brasileira. A embarcação que sofreu avarias no casco que resultaram na entrada de água e perda de estabilidade, foi construída na cidade norueguesa de Bergen em 1966, chegou ao Brasil no ano seguinte e abrigou 260 cruzeiros oceanográficos comandados pela Universidade de São Paulo (USP). O veículo aquático, que será resgatado pelas autoridades portuárias santistas, foi o único navio oceanográfico civil existente no país e realizou expedições por mais de 40 anos, assumindo o posto de principal laboratório do Programa Antártico Brasileiro nos anos 1980. Veja mais: Navio histórico afunda e terá de ser retirado do canal de navegação do Porto de Santos Banana Boat: Tripulante é encontrado morto após desaparecer no mar em praia de Itapoá (SC) Afundado no Parque do Valongo, o navio foi vistoriado pela Capitania de Portos de São Paulo após o acidente e não deixa riscos náuticos para a atividade portuária segundo a Marinha. A instituição averigua as causas e possíveis responsáveis pelo acidente, que não deixou vítimas. Inativa desde 2011 e tutelada pela ONG Instituto do Mar, a embarcação Professor Wladimir Besnard leva o nome do primeiro diretor do Instituto Oceanográfico da USP, que no fim dos anos 50 se debruçou em estudos e negociações para construir aquele que seria o primeiro navio de pesquisas marítimas da universidade. Falecido em 1960, o educador não conseguiu ver a chegada do veículo aquático que o homenageou. Para a sua construção, houve esforços multilaterais durante a década de 1960, que envolveram desde o estado de São Paulo ao Governo Federal e negociações internacionais com o estaleiro norueguês A/S Mjellen & Karlsen, que assumiu a sua construção. A parceria permitiu que na viagem de inauguração do navio acontecesse um intercâmbio entre pesquisadores da Noruega e oceanógrafos brasileiros. Projeto do Navio Professor Wladimir Besnard Reprodução/ Universidade de São Paulo Nomeada de Vikindio, a primeira expedição da embarcação, ocorreu entre maio e dezembro de 1967, e realizou estudos na costa africana e mediu correntes marítimas brasileiras. Esta foi a primeira de outras dez missões que ocorreriam ao longo das próximas quatro décadas e contariam com grandes parcerias e financiamentos, como a Pesquisa Oceanográfica e Pesqueira do Atlântico Sul, entre Torres e Maldonado, que aconteceu entre 1968 e 1974, contratada pelo Governo do Rio Grande do Sul. Outro exemplo de investimento nas viagens do Wladimir Besnard é a expedição seguinte, batizada de Reconhecimento Global da Margem Continental Brasileira, coordenada pela Petrobrás, com participação do Serviço Geológico do Brasil, que levava o nome Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais quando a missão aconteceu, entre 1972 e 1974. O estudo possibilitou o reconhecimento global da margem continental do oceano brasileiro, gerando mapas inéditos sobre o fundo marinho costeiro do país. Navio Professor Wladimir Besnard durante o Reconhecimento Global da Margem Continental Brasileira Reprodução/ Universidade de São Paulo Com o sucesso das pesquisas realizadas sobre o mar brasileiro, o navio passou a atrair olhares internacionais ainda nos anos 70. A Organização dos Estados Americanos, que conta com 34 países de todo continente americano como signatários, contratou o navio para o Projeto Multinacional de Ciências do Mar, que durou de 1972 a 1980, década em que o veículo aquático assumiria a sua mais importante e desafiadora missão: desbravar a Antártica. Primeira expedição do Brasil na Antártica Navio Professor Wladimir Besnard durante o Prontoar Reprodução/ Universidade de São Paulo Financiado pela Marinha do Brasil e apoiado por empresas privadas Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) foi a primeira expedição oceanográfica do país no continente da Antártica. A missão foi um marco para a ciência brasileira e possibilitou que a nação se fizesse presente em acordos internacionais. A série de viagens viabilizou a participação do Brasil como membro pleno do Conselho Consultivo do Tratado da Antártica, e do Comitê Científico de Pesquisa na Antártica. Os cruzeiros oceanográficos à bordo do Professor Wladimir Besnard ocorreram entre 1982 e 1988, mas o Proantar segue ativo, pesquisando os fenômenos que ocorrem na Antártica e as prováveis influências sobre o Brasil. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) administra as atividades científicas do programa, realizadas por diversas universidades, institutos de pesquisas e entidades públicas e privadas, de acordo com o planejamento elaborado pela Marinha. Da aposentadoria ao abandono Depois do fim das viagens para o Proantar, o navio ainda realizou outras seis grandes missões focadas em estudar o oceano brasileiro, aposentando-se em 2011. Dentre suas últimas expedições, a mais relevante foi a Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva, que permitiu que o Brasil conhecesse os recursos marinhos que poderiam ser explorados em sua costa. Quando a Convenção de Direitos do Mar , promovida pela Organização das Nações Unidas, entrou em vigor, em 1994, os países costeiros passaram a ter o direito de explorar, com exclusividade, os recursos marinhos dentro de uma zona que conta com 200 milhas a partir da costa. Para isso, as nações eram obrigadas a realizar estudos marinhos nessa zona. Tendo em vista a norma, o navio foi utilizado para averiguar o potencial brasileiro. Três anos após o fim das atividades do veículo aquático, a USP, em 2014, anunciou uma iniciativa de resgate de memórias, que celebraria os feitos possibilitados pelo navio Professor Wladimir Besnard. "O projeto Memória da Oceanografia no Brasil – O Papel do Navio Oceanografico Prof. Vladimir Besnard pretende recuperar os relatos e memórias que existem em torno dessa embarcação que navegou por tantos anos na história da Oceanografia no Brasil" divulgou a universidade na época. As lembranças estão dispostas em páginas virtuais da USP, mas o navio enfrentou o abandono. Hoje administrado pela ONG Instituto do Mar (IMar), o veículo aquático fica atracado no Parque do Valongo, no porto santista, e, ao longo dos anos vem enfrentando diversos incidentes, como a entrada de água contaminada no interior do navio, anunciada pela IMar em suas redes sociais, em 2020. A instituição foi procurada pelo GLOBO sobre as condições da embarcação, mas até o momento, não houve resposta.