FOLHAPRESS O dólar registra forte queda nesta segunda-feira (16), recuando mais de 1% na manhã com a guerra do Irã e trajetória dos juros brasileiros no radar dos investidores. Às 13h05, a moeda norte-americana caía 1,01%, cotada a R$ 5,263, em sintonia com o recuo no exterior (na mínima, o dólar chegou a 5,2515, uma queda de 1,22%) . O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a seis outras moedas, recua 0,48% durante o dia. No mesmo horário, o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, avançava 1,34%, a 180.039 pontos, com grande parte das ações do índice no campo positivo. O movimento devolve os ganhos da moeda norte-americana e as perdas da Bolsa, que haviam registrado alta de 1,35% e queda de 0,9%, respectivamente, na sexta-feira (13). "Encerramos a sexta-feira com o dólar em R$ 5,32. Agora, porém, vemos uma correção desses movimentos: enquanto o dólar se enfraquece no exterior, o real acaba se beneficiando", diz Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da StoneX. Naquele dia, o receio do mercado financeiro foi influenciado por declaração do presidente norte-americano, Donald Trump, ao canal Fox News, afirmando que iria "atacar o Irã com muita força" nesta semana. Nesta segunda, o movimento é de revisão, apesar de não haver uma mudança do ponto de vista diplomático no Oriente Médio para tal. "A gente vê uma desvalorização do dólar diante de um cenário de um pouco mais de apetite por risco e isso favorece moedas emergentes", diz Bezzon. O conflito tem ganhado status de uma guerra regional. Nesta segunda-feira, Israel invadiu novas áreas do sul do Líbano, em uma ofensiva terrestre contra Hezbollah, grupo armado apoiado pelo Irã. No centro do conflito estão os temores de gargalos no mercado de energia —o estreito de Hormuz, na costa iraniana, é responsável por 20% de todo petróleo e gás global—, que podem causar um repique inflacionário global. "A persistência da guerra no Oriente Médio mantém volatilidade no preço do petróleo, com o Brent orbitando novamente a faixa de US$ 100 por barril, o que reforça temores de pressões inflacionárias a nível global e sustenta a busca por ativos considerados mais seguros, como a moeda americana", diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad. No sábado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, convocou outros países a enviarem navios de guerra para manter o estreito de Hormuz aberto à navegação. O pedido ainda não surtiu efeito. "Os países do mundo que recebem petróleo pelo estreito de Hormuz precisam zelar por essa passagem, e nós vamos ajudar —E MUITO!", escreveu Trump em publicação no Truth Social. "Os EUA também vão se coordenar com esses países para que tudo ocorra de forma rápida, tranquila e satisfatória." No mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse que a via está aberta para todos, menos para aliados dos Estados Unidos. A travessia estaria bloqueada "apenas para petroleiros e navios de inimigos e os aliados deles", afirmou Araghchi para a mídia estatal iraniana. "Ainda há muitos petroleiros e navios que estão passando pelo estreito", disse o chanceler. O Irã também advertiu que a guerra se ampliará se houver intervenção de outros países. As tensões no Oriente Médio têm afetado as previsões de política monetária dos bancos centrais. O mercado já estima que o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) mantenha o patamar atual de juros até julho. Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, os investidores veem uma chance de 99,2% de que o Fed mantenha o patamar atual de juros, entre 3,5% e 3,75%, na reunião desta quarta-feira (18). As previsões também apontam maior probabilidade de manutenção da taxa nas reuniões subsequentes: 93% na reunião de abril e 71,7% na de junho. O quadro começa a mudar na reunião de julho, com 59,5% prevendo manutenção, mas 34,3% projetando redução para a faixa entre 3,25% e 3,5%. Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, vê uma pressão global com o conflito. "O petróleo mais caro tende a pressionar as expectativas de inflação global, principalmente em economias desenvolvidas, o que pode reduzir o espaço para cortes de juros mais rápidos pelo Fed". No Brasil, a postura também é mais cautelosa. Para a decisão desta quarta-feira (18), cresceu a aposta de redução de 0,25 ponto percentual da taxa básica, a Selic. A mediana das previsões coletadas pela agência Bloomberg aponta taxa de 14,75%. O boletim Focus, divulgado nesta segunda, aumentou a previsão da inflação ao seu maior patamar neste ano e diminuiu o tamanho da redução que esperam na reunião desta semana do Copom (Comitê de Política Monetária) para a taxa de juros. A previsão do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) saltou para 4,10%, maior nível neste ano, e da Selic, para 14,75%. "Para o Banco Central brasileiro, houve mudanças importantes no ambiente macro. O dólar passou a apresentar maior volatilidade e voltou a subir, superando R$ 5,25. Além disso, o mecanismo de transmissão do aumento do petróleo —que passou a negociar em patamares próximos de US$ 100 o barril— representa um choque com potencial inflacionário relevante", diz Bruno Shahini, da Nomad. O preço do petróleo começou a semana em alta e chegou a bater em US$ 106 nesta segunda. Na máxima do dia, a commodity alcançou US$ 106,50 (R$ 560,38) às 19h30 de domingo (horário de Brasília), quando era manhã na Ásia.