O avanço das epistemologias africanas na cultura brasileira

A cultura e a produção intelectual africana, durante séculos, não foram retratadas devidamente. Os saberes africanos — que passam também pela religiosidade — foram negados ao povo brasileiro, impossibilitando que a sociedade se reconhecesse a partir da herança africana presente nas narrativas culturais, na música, na culinária e na espiritualidade. A história dos nossos ancestrais — e consequentemente a nossa própria história, que se distanciou de nós — está sendo retomada com profundidade em todos os contextos. Como trazer para o centro do debate o avanço das epistemologias africanas no Brasil? Epistemologias que funcionam como formas de produzir conhecimento baseadas em experiências históricas, cosmologias e práticas sociais originadas no continente africano e nas diásporas negras. Para essa reflexão, contei com a contribuição de Rosane Santos, executiva de Sustentabilidade e ESG. Com graduação em Ciências Contábeis pela UERJ, especialista em Controladoria e Finanças pela UFF, MBA Executivo pela Saïd Business School, da Universidade de Oxford, e 25 anos de experiência em governança corporativa, estratégias de negócios e sustentabilidade. Rosane integra o WCD (Women Corporate Directors), é cofundadora do Instituto Pactuá, membro do Conselho Consultivo da revista Brasil Mineral, articulista do Diário do Comércio, além de palestrante e mentora de mulheres. E, diretamente da África do Sul — onde também estudou sustentabilidade em países emergentes na Universidade de Pretória — trouxe uma perspectiva essencial: a diferença entre teorizar Ubuntu e vivê-lo. Saiba mais “Passei as últimas semanas na África do Sul. Visitei Robben Island, a prisão onde Mandela ficou 27 anos. Caminhei por Cape Town e Johannesburg. Conversei com quem vive Ubuntu, não com quem teoriza sobre ele. E entendi uma coisa que nenhum workshop corporativo ensina: Ubuntu não nasceu como filosofia bonita. Nasceu como estratégia de sobrevivência sob o apartheid. E entender essa origem muda completamente o contexto”, enfatiza a especialista. Epistemologia, no campo da filosofia, refere-se às formas pelas quais sociedades constroem, validam e transmitem conhecimento. Quando falamos em epistemologias africanas, estamos falando de sistemas de pensamento que articulam, de maneira integrada, comunidade e natureza. Um dos conceitos mais conhecidos desse universo é Ubuntu, frequentemente traduzido como “eu sou porque nós somos”. Popularizado globalmente por lideranças como Nelson Mandela e Desmond Tutu, Ubuntu representa uma visão de humanidade baseada na interdependência. Trata-se de uma forma de compreender o indivíduo como parte inseparável da comunidade — e isso explica como chegamos até aqui, apesar de todos os processos de opressão histórica. A colunista Rachel Maia Acervo Pessoal “Quando você vive sob opressão estrutural, colaborar não é uma escolha inspiradora. É condição de existência. ‘Eu sou porque nós somos’ não significa ‘vamos trabalhar em equipe’. Significa: sozinho, eu não sobrevivo. A África usa Ubuntu para existir, não para inspirar slides corporativos”, contextualiza Rosane Santos. Essa perspectiva contrasta profundamente com a tradição individualista predominante em muitas sociedades ocidentais e tem despertado interesse crescente em áreas como liderança, sustentabilidade e governança corporativa. Epistemologia: universidades, cultura e economia como vetores dessa transformação Nas universidades, pesquisadores têm ampliado estudos sobre filosofia africana, pensamento diaspórico e saberes tradicionais. A produção acadêmica inspirada em intelectuais africanos como Achille Mbembe, Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí e Cheikh Anta Diop tem contribuído para reposicionar o continente africano não apenas como objeto de estudo, mas como fonte legítima de teoria social e política. A legislação educacional brasileira também contribuiu para esse processo. A aprovação da Lei 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas, permitindo que novas gerações se reconheçam a partir dessa herança. Assim, podemos crer que estamos caminhando para o conhecimento, o reconhecimento e o pertencimento global. Na cultura contemporânea, o impacto dessas epistemologias também se manifesta de forma crescente. Artistas, escritores e produtores culturais têm revisitado cosmologias africanas para reinterpretar identidade, pertencimento e memória coletiva. A literatura afro-brasileira, por exemplo, tem ampliado o debate sobre ancestralidade e território, dialogando com tradições e narrativas africanas e com experiências da diáspora. Outro campo de expansão é o empreendedorismo cultural negro, que vem articulando estética, história e identidade em novos modelos de produção e consumo. Marcas, editoras independentes, coletivos artísticos e projetos educacionais têm utilizado referências africanas não apenas como inspiração estética, mas como base conceitual para repensar negócios, comunicação e organização social. Em um momento em que empresas e instituições discutem novas formas de liderança e impacto social, conceitos oriundos de tradições africanas oferecem perspectivas que valorizam comunidade, responsabilidade coletiva e equilíbrio entre sociedade e natureza. No entanto, esse avanço também traz um desafio importante: evitar que esses conhecimentos sejam apenas incorporados como tendência cultural ou discurso institucional vazio. “A diferença entre usar Ubuntu e viver Ubuntu? Usar Ubuntu é escolher colaborar quando você poderia não colaborar. Viver Ubuntu é colaborar porque, sem o outro, você literalmente não existe. Essa distinção não é filosófica. É prática. E corporações que citam Ubuntu sem entender sua origem correm o risco de esvaziar seu significado”, alerta Rosane. O Brasil ocupa uma posição singular nesse debate. Como país que abriga a maior população negra fora do continente africano, nossa história está profundamente conectada às experiências da diáspora. Reconhecer epistemologias africanas implica aceitar que diferentes formas de conhecimento podem — e devem — coexistir, contribuindo para a compreensão e ampliação das distintas culturas. O avanço dessas epistemologias no Brasil não é apenas cultural. É político, econômico e estratégico. E quanto mais compreendermos suas origens reais — e não apenas suas versões corporativas esvaziadas —, mais próximos estaremos de uma transformação verdadeira. Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.