Na natureza não existe lixo. Se uma árvore abundante produz frutos demais, estes frutos, mesmo caídos ao chão, serão alimento para pequenos animais ou se tornarão adubo para o solo e serão naturalmente transformados em novas vidas. Então como é que, hoje, no nosso sistema produtivo, as roupas são criadas de forma linear e, após o fim da vida útil, podem infelizmente se tornar lixo? A economia circular surge justamente para propor um novo modelo, em que o final da vida dos produtos seja considerado desde o processo de criação e ele fique em uso o mais tempo possível. Assim, na prática, considerar o design, matérias-primas, sistemas de coleta, reciclagem, upcycling e venda de segunda mão são caminhos para enfrentarmos a problemática de resíduos têxteis na moda. Como um problema sistêmico merece atenção de todos, a atuação do poder público é fundamental. Um grande avanço legislativo na área é a Lei de Incentivo à Reciclagem, uma política brasileira criada para estimular investimentos em projetos que fortaleçam a cadeia da reciclagem no país, coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e na qual projetos relacionados ao setor têxtil e à moda podem ser contemplados. Saiba mais A lei funciona de forma semelhante à Lei de Incentivo à Cultura: empresas e até pessoas físicas podem destinar parte de seus impostos para financiar projetos aprovados. Embora seja recente, a legislação já abre diversas possibilidades para avançar em investimentos em pesquisa, tecnologias e aplicações voltadas à reciclagem e à circularidade no setor. “Mais do que incentivar a reciclagem em si, ela abre caminho para estruturar melhor todo o sistema de gestão de resíduos no Brasil e acelerar a transição para modelos mais circulares de produção”, diz a especialista em sustentabilidade na moda Marina de Luca e pesquisadora da UFBA. Estima-se que apenas 1% dos têxteis no mundo sejam efetivamente reciclados, há inúmeros desafios para que a reciclagem seja uma realidade no Brasil e para que aconteça é necessária a participação de diversos atores. Projetos de logística reversa também fazem parte do ecossistema de soluções e vêm sendo implementados por grandes varejistas, que instalam caixas de coleta em suas lojas físicas para que os consumidores possam devolver roupas usadas. A partir daí, a marca se responsabiliza pela coleta, triagem e destinação desses materiais. Desta forma, marcas se responsabilizam também por peças que nem foram produzidas por elas, e realizam parcerias que rendem reciclagem de parte das roupas para a criação de nova matéria-prima. Porém, a reciclagem de peças com fibras mistas ou determinados tipos de beneficiamento são desafiadoras, pois não há tecnologias de reciclagem para todos os tipos de roupa. Outro ponto importante é a estruturação de cooperativas, já que grande parte desse trabalho ainda depende da atuação de catadores e sistemas de coleta informal, que desempenham um papel fundamental na gestão de resíduos no Brasil. Antes da reciclagem, a prevenção. Para Marina de Luca, é importante ampliar o debate para além da reciclagem. Segundo ela, a própria Política Nacional de Resíduos Sólidos já traz diretrizes importantes sobre o tema. “A Política Nacional já é antiga, ela é meio que a mãe de todas as políticas. E nessas diretrizes têm, basicamente, o que cada um deve fazer, empresas, poder público e pessoas, e a primeira ação recomendada é não poluir.” A especialista também chama atenção para um limite estrutural da reciclagem no setor têxtil. “Quando você recicla vidro, por exemplo, ele é um produto incrível dentro da economia circular, porque quando é reciclado vira o mesmo vidro. Mas com os tecidos não funciona assim, inclusive algumas matérias-primas nem são recicladas no Brasil”. Na avaliação dela, embora a reciclagem seja um avanço importante, ela não consegue resolver sozinha o volume crescente de resíduos gerados pela indústria da moda. “Claro que a lei da reciclagem é benéfica e traz vantagens para o setor, mas precisamos também pensar no atual modelo de produção, pois com a quantidade de resíduo têxtil que estamos gerando não vai ter nenhuma reciclagem que dê conta. Para a especialista, a reciclagem deve ser entendida como apenas um dos passos dentro de uma mudança maior no sistema da moda. O alerta da Marina está relacionado ao alto volume de produção e descarte de roupas que se escala principalmente com a chegada do ultra fast fashion. Contudo, a Lei de Incentivo à Reciclagem é uma grande aliada para a moda, pois abre grandes possibilidades para que haja mais investimento nos sistemas circulares de moda no Brasil e assim fazer com que soluções sejam cada vez mais aprimoradas. Porém, para que a indústria da moda, no Brasil e no mundo, resolva a problemática de resíduos é preciso sensibilização e participação de diversos atores para buscarem soluções cada vez mais sistêmicas. Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.