"Estou sofrendo um linchamento virtual faz 20 dias seguidos", afirmou o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa, ao negar que assassinou sua esposa, em entrevista ao "Domingo Espetacular, da TV Record, no último domingo. Casada com Geraldo, a policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, morreu no dia 18 de fevereiro, com um tiro na cabeça dentro de própria casa, no bairro paulistano do Brás. Neto disse ter encontrado a esposa morta e afirmou às autoridades policiais que teria sido suicídio. À polícia, familiares de Gisele relataram ameaças e crises de ciúme por parte do militar, que, na entrevista à Record, admitiu instabilidade no relacionamento do casal. Ele justificou relatos de brigas feitos por vizinhos com o comportamento exaltado da esposa: — Eu não tenho culpa se minha esposa gritava. Ia fazer o quê? Ia tapar a boca dela pra ela não gritar? Ela gritava, ela se exaltava, ela me ofendia. Ela gritava me xingando e me ofendendo. Ela não gritava por socorro. Relatos de abuso, ciúme e divórcio: entenda o caso da policial militar encontrada morta no Brás Veja mais: Justiça envia caso de PM achada morta para Vara responsável por feminicídios Na entrevista ao programa, o tenente-coronel relatou o dia da morte de Gisele: — Eu disse (à Gisele): "conforme a gente conversou ontem, acho que é melhor a gente se separar mesmo". Ela se levantou imediatamente da cama, veio na minha direção me empurrando para fora do quarto. E, quando ela me empurrou, bateu a porta do quarto com muita força. Daí, eu saí e entrei no banho. Quando eu estava no banho, eu escutei um barulho, abri a porta, e vi ela caída no chão. Imediatamente, nem desliguei o chuveiro, vesti a bermuda, peguei meu celular em cima da pia, saí do banheiro, abri a porta do apartamento e deixei a porta aberta para ter transparência, que todos vissem o que estava acontecendo se alguém saísse no corredor — afirmou. Vizinhos e um policial militar que esteve no apartamento e foi ouvido pela emissora, no entanto, contam outra história. De acordo com o agente, Neto desobedeceu a orientações e insistiu em tomar banho após a morte de Gisele, o que poderia prejudicar a preservação de vestígios. O policial afirmou não acreditar que a morte da PM foi suicídio. — Uma coisa que me chama muita atenção é a Gisele de toalha. Não tinha circunstâncias de suicídio. E o sangue de Gisele também estava coagulado, ou seja, é uma prova técnica e científica de que ela não foi baleada no tempo que o tenente contou, mas, sim, quando a vizinha escutou o tiro (uma vizinha afirmou ter ouvido o disparo 30 minutos antes de o marido pedir socorro). Diga-se de passagem, não tinha nenhum motivo para ela cometer suicídio. O único problema que ela tinha era o conjugal. Ao ensejar o pedido de separação, ele não aceitou e decidiu ceifar a vida dela — acredita José Miguel da Silva Júnior, o advogado da família de Gisele, que aponta Geraldo como suspeito pela morte. Confrontado sobre a Gisele ter sido encontrada com marcas de arranhões no pescoço e esganamento, o tenente-coronel afirmou que as marcas teriam sido deixadas pela filha de 7 anos da policial ao pedir colo e segurar as mãozinhas no pescoço da mãe. Por outro lado, um dia antes da morte da PM, a criança relatou que a mãe estava em sofrimento ao lado de Neto, seu padrasto. — Menos de 24 horas antes do falecimento da Gisele, o ex-esposo dela vai buscar a criança (filha dele com Gisele), e a criança diz que não quer mais retornar à casa "do tio Neto e da mamãe", porque ela está sofrendo muito. Palavras da criança — relatou o advogado da família da PM. Relatos de brigas e possessividade Familiares, amigos e até vizinhos de Gisele relatavam que o relacionamento do casal era conturbado, marcado por brigas e possessividade da parte dele. A mãe da agente afirmou que Neto implicava com as vestimentas da filha e podava sua diversão em público, como danças em festas que o casal frequentava. "Tem que controlar os ciúmes dele, qualquer hora me mata", escreveu Gisele em mensagem de WhatsApp para uma amiga. — Eu moro no mesmo andar que o casal e frequentemente ouvia brigas e gritos vindos do apartamento deles. Geraldo era uma pessoa muito reservada e possessiva. Uma vez o vi tentando esconder a Gisele para que não a víssemos. Recentemente, ouvi Gisele gritando que sairia de casa com a filha e voltaria para os pais porque não aguentava mais as agressões — contou uma vizinha. Confrontado sobre as denúncias de agressividade contra a esposa, o tenente-coronel afirmou que nunca a agrediu e que nunca teve brigas, apenas discussões. Ele alegou ainda que nunca teve ciúme doentio. E, apesar de ter sustentado em depoimento que a esposa se matou, Geraldo diz que ela era "jovem, saudável, bonita, com uma filha de 7 anos, com a vida inteira pela frente" e "não tinha razão para isso (suicídio)". O tenente-coronel foi afastado no dia 3 de março de suas funções, nos desdobramentos da morte de sua esposa. Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP), o pedido de afastamento partiu do próprio oficial. O órgão informou que todas as circunstâncias relativas aos fatos são apuradas por meio de procedimentos instaurados pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar. O inquérito civil tramita no 8º Distrito Policial (Brás), que já realizou oitivas e solicitou laudos periciais complementares. A Polícia Militar afirmou "que não compactua com irregularidades ou desvios de conduta e que, caso seja constatada qualquer ilegalidade, todas as medidas cabíveis serão devidamente adotadas". Já o Tribunal de Justiça de São Paulo declara que a investigação ocorre sob sigilo.