Empresário é condenado a 9 anos de prisão por tentar matar jovem negro em Açailândia

Empresário acusado de tentar matar jovem negro vai a julgamento em Açailândia O empresário Jhonnatan Silva Barbosa foi condenado a 9 anos de prisão em regime inicialmente fechado por tentar matar Gabriel Silva Nascimento, em Açailândia, no sul do Maranhão. A decisão foi tomada pelo Tribunal do Júri nesta segunda-feira (16). Os jurados desconsideraram o racismo como motivação do crime. Durante o julgamento, Gabriel Silva Nascimento foi o primeiro a depor diante do juiz e dos jurados. Mais de quatro anos após ser confundido com um ladrão e agredido, o jovem afirmou que aguardava ansioso por justiça. “Gostaríamos de ter aqui não só ele, mas a moça também que participou, mas esperamos que se resolva.” Além da vítima, outras cinco testemunhas foram ouvidas durante o julgamento. O júri popular começou por volta das 10h e ocorreu após três adiamentos do processo. Durante a sessão, Jhonnatan Silva Barbosa permaneceu acompanhado de dois defensores públicos e também teve a oportunidade de prestar depoimento. Clique aqui e se inscreva no canal do g1 Maranhão no WhatsApp Após ouvir testemunhas, acusação e defesa, os jurados se reuniram para decidir o caso. O empresário respondia por tentativa de homicídio triplamente qualificado. Para a promotoria responsável pelo caso, não havia dúvidas sobre a intenção do réu ao cometer as agressões. “É inequívoco para o Ministério Público que as manobras que ele fez demonstram, sem sombra de dúvida, a intenção dele de matá-lo.” Gabriel foi agredido em dezembro de 2021, na porta da própria casa, enquanto fazia manutenção no carro antes de viajar. Segundo a denúncia, ele foi asfixiado e agredido com socos e chutes por Jhonnatan Barbosa e uma mulher. O processo foi desmembrado, e Ana Paula Costa Vidal, apontada como participante das agressões, será julgada separadamente por lesão corporal. Para a defesa da vítima, o racismo teria sido o motivo das agressões. “Ele olhou Gabriel e entendeu que ele era ladrão, só por ser negro, porque não havia nenhum elemento que fizesse com que ele acreditasse nisso.” Desde o início, o caso foi acompanhado pelo Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humano Carmen Bascarán (CDVDHCB) entidade que atua na defesa dos direitos humanos e no combate ao racismo. “É extremamente importante que a Justiça dê uma resposta a casos como esse para que a sociedade compreenda a gravidade do crime cometido e entenda que isso não pode acontecer.” Apesar das discussões durante o processo, os jurados não reconheceram o racismo como motivação do crime. Jhonnatan Silva Barbosa será julgado após agredir o jovem Gabriel da Silva Nascimento, no dia 18 de dezembro de 2021, na cidade de Açailândia-MA. Reprodução/TV Mirante LEIA TAMBÉM Casal que agrediu jovem negro no MA é denunciado por tentativa de homicídio triplamente qualificado 'Eu achei que iria morrer', diz rapaz negro agredido dentro do próprio carro, no Maranhão 'Eu poderia ser mais um número', diz homem negro espancado na porta de casa no Maranhão O Crime O crime aconteceu no dia 18 de dezembro de 2021, quando Jhonnatan e Ana Paula agrediram Gabriel, acusando-o de tentar roubar o próprio carro. Os indiciados moram no mesmo prédio em que o jovem residia. 'Eu achei que iria morrer', diz rapaz negro agredido dentro do próprio carro, no Maranhão Imagens de câmeras de segurança (veja acima) flagraram o momento em que Jhonnatan e Ana Paula mandam Gabriel sair do carro. O jovem sai e coloca as mãos para cima, em sinal de rendição. Depois, passa a ser agredido com socos, chutes e pisões, tapas, sendo que Ana Paula chega a colocar os joelhos na barriga da vítima, enquanto Jhonnatan pisa o pescoço do jovem. Gabriel afirma ter dito aos agressores que era dono do carro e que o documento dele estava dentro do veículo, porém eles não deram atenção e o agrediram. “Foi aqui que eu achei que iria morrer. É no momento que ele sobe em cima de mim, junto com ela, com os joelhos... Ali é sufocante, porque ela manda ele me imobilizar, pisando no meu pescoço. Eu me senti sem ar”, disse o jovem em entrevista ao Fantástico. Polícia entrega inquérito sobre agressões contra um jovem negro no MA A sessão de espancamento só parou quando um vizinho viu a situação e reconheceu que a vítima morava no prédio e era dono do carro de onde foi retirado. De acordo com Gabriel, ele estava a caminho da confraternização da empresa em que ele trabalha como recepcionista e havia comprado o carro há 2 meses. Gabriel Silva foi apontado como ladrão e agredido dentro do condomínio onde mora Reprodução/Redes Sociais No dia das agressões, Gabriel foi à delegacia para fazer um boletim de ocorrência, mas, em três tentativas diferentes, foi informado de que o sistema estava fora do ar. Por isso, só conseguiu registrar a queixa no dia seguinte, o que impediu a prisão em flagrante dos agressores. Gabriel afirma ainda que as agressões podem ter sido motivadas pelo fato de ele ser negro. "Eu quero que aconteça a justiça. É revoltante uma situação dessa, por achar que, por ser magro, negro, não poderia ter um carro. Quero que haja justiça porque isso não pode acontecer com as pessoas. Se fecharmos os olhos, pode acontecer até pior até com um familiar nosso. Isso é racismo. É crime", declarou Gabriel. Para o advogado de Gabriel, o racismo é evidente. "Foi um caso de racismo. Muitas vezes se busca, para a caracterização de um episódio claro de racismo, a verbalização, a utilização de palavras que denotem o preconceito racial, mas isso não é o padrão brasileiro, baseado em racismo estrutural", defende o advogado Marlon Reis, em entrevista ao Fantástico. Entenda a diferença entre racismo e injúria racial e veja como denunciar Racismo no comércio: relembre casos que marcaram 2021 Papai Noel de shopping em SP faz declarações racistas a crianças Entenda a diferença entre racismo e injúria racial Jhonnatan Silva Barbosa já foi condenado pela Justiça por ter atropelado e matado um senhor de 54 anos, em 2013. Ele foi condenado a 2 anos e 8 meses de prisão, que foram convertidos em serviços comunitários e multa de um terço de um salário mínimo. Ele foi procurado para se manifestar sobre o caso de Gabriel, mas se negou a falar com a imprensa sobre o caso. Já Ana Paula Vidal pediu desculpas, por meio de nota, e disse que não teve uma atitude racista. Já Gabriel se mudou do prédio que morava, pois ele pertence à família de Ana Paula. Com medo, o jovem teve acompanhamento da polícia para retirar seus pertences do local.