A ascensão de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo do Irã pode ter parecido sucinta, até predestinada. Na verdade, não foi nenhuma das duas hipóteses. Ele chegou ao posto depois de uma guerra interna, que guarda semelhanças com a série “Game of Thrones”: um trono vazio, um conselho de clérigos e duas dinastias — Khamenei e Khomeini — competindo entre si. Políticos agiram nos bastidores, comandantes defenderam seus quinhões e um ex-espião conhecido por planejar assassinatos entrou em campo. Sob pressão: Guerra no Oriente Médio expõe limites militares da Europa em meio a mobilização inédita Vídeo: Após pronunciamento, Irã anuncia novos ataques a Tel Aviv sob o lema 'Atendemos ao chamado, ó Khamenei' Mesmo em tempos de paz, encontrar o terceiro líder supremo do Irã, um homem que representa Deus na Terra e tem autoridade sobre militares e políticos, teria sido desafiador. Afinal, Ali Khamenei, que morreu nos primeiros momentos do conflito, ocupava o posto desde 1989. Mas em meio à guerra contra EUA e Israel, essa escolha para um posto vitalício se tornou um teste de sobrevivência para a teocracia. Segundo fontes de diferentes cargos e níveis hierárquicos no Estado iraniano, Mojtaba Khamenei provavelmente não seria eleito se seu pai tivesse morrido de causas naturais — o aiatolá havia dado a seus assessores três nomes para sucedê-lo, e seu filho não estava entre eles. Encontros secretos No dia 3 de março, a Assembleia dos Especialistas, um órgão composto por 88 clérigos que tem entre suas funções escolher o líder supremo, realizou um encontro secreto e virtual para iniciar o processo de votação. Para que um novo líder seja confirmado, ele precisa de dois terços dos votos. Naquele mesmo dia, Israel bombardeou escritórios da Assembleia em Qom, matando alguns funcionários administrativos. Desde a morte de Khamenei, no dia 28 de fevereiro, facções políticas rivais e comandantes da Guarda Revolucionária atuaram para fortalecer seus candidatos e proteger suas bases. A linha-dura do regime preferiu enfrentar os chamados internos e externos por mudança de regime, se pautando pela continuidade das políticas de governo. Facções moderadas queriam um rosto novo, com um estilo renovado de liderança e o fim das hostilidades com os EUA. 'Estratégia do Mosaico': Saiba como funciona a guerra assimétrica do Irã contra EUA e Israel e seus potenciais erros de cálculo Mojtaba Khamenei tinha aliados poderosos ao seu lado: a Guarida Revolucionária e seu novo chefe, Ahmad Vahidi; Ali Aziz Jaffari, estrategista da Guarda Revolucionária na atual guerra; e Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do Parlamento e ex-comandante da Guarda. Hossein Taeb, ex-chefe da unidade de inteligência da Guarda e responsável por assassinatos em outros países, também estava na linha de frente pró-Mojtaba. A oposição ao filho do aiatolá morto veio de lugares inesperados. Ali Larijani, chefe do Conselho de Segurança Nacional e que na prática comanda o Irã hoje, disse a membros da Assembleia dos Especialistas acreditar que o país precisava de um líder moderado e unificador, e que Mojtaba seria uma figura polarizadora. Masoud Pezeshkian, o moderado presidente iraniano, além de outros clérigos e funcionários do governo, se juntaram ao coro, segundo fontes. Bombardeios israelenses atingem o Irã perto de marcha pró-regime em Teerã Este campo tinha dois candidatos em potencial: o ex-presidente Hassan Rouhani, que comandou as negociações para o acordo internacional sobre o programa nuclear do país, em 2015; e o neto de Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica, Hassan Khomeini, alinhado a partidos reformistas. Outro nome foi o de Alireza Arafi, acadêmico e jurista, era encarado como um nome com sólidas credenciais religiosas, mas considerado de fácil gerenciamento. Em meio aos debates na Assembleia, a revolta contra o presidente dos EUA, Donald Trump, e o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, deu força ao discurso de enfrentamento da linha dura, jogando os moderados para as margens. O interesse dos clérigos estava mais interessado na reencarnação de seu líder martirizado para vingar sua morte do que em resgatar um país em crise profunda. Guerra de palavras: Guarda Revolucionária do Irã promete 'perseguir e matar' Netanyahu Mojtaba foi eleito na primeira rodada de votações, no dia 3 de março, confirmando que a Guarda Revolucionária hoje dá as cartas no país, e rapidamente foi dada a ordem para que a imprensa oficial anunciasse o nome do novo líder no dia seguinte. Mas o processo só estava começando. Larijani cancelou o anúncio, dizendo que seria um risco à vida de Mojtaba, no momento em que Trump e o governo de Israel ameaçaram eliminar qualquer sucessor. Ele sugeriu que esperassem até o fim da guerra. No dia 6 de abril, Israel usou bombas antibunker contra o complexo do líder supremo em Teerã, que ficou em ruínas. Mojtaba não estava lá. A pausa no anúncio deu aos moderados uma última oportunidade para pressionar a Assembleia dos Especialistas, mas conseguir uma nova eleição exigiria razões sólidas. Após pressão de Trump: Alemanha diz que guerra contra o Irã 'não tem nada a ver com a Otan' Larijani, aliado próximo de Ali Khamenei, argumentou que a votação virtual foi inválida, uma vez que a Constituição exige que a decisão seja feita de maneira presencial. A Assembleia também foi informada que Mojtaba, que se recuperava de ferimentos sofridos no primeiro dia da guerra, não queria o cargo. Por razões de segurança, contatá-lo diretamente era impossível. Galerias Relacionadas Mas outros disseram que recusar o posto era uma mera formalidade. — Quando contaram a Mojtaba que fora eleito, ele disse “não quero aceitar, escolham outra pessoa” — afirmou Abdolreza Davari, um político próximo ao novo líder supremo, em entrevista por telefone de Teerã. — Essa recusa é costume entre os clérigos xiitas, uma forma de dizer “não estou atrás do poder”, mas eles eventualmente aceitam . Os moderados afirmaram ter descoberto uma ordem nova e importante de Ali Khamenei, e pediram uma reunião presencial com a mesa diretora da Assembleia. No encontro, dois assessores do aiatolá morto testemunharam que ele não queria que seu filho, ou qualquer membro da família, o sucedesse. Quem manda mais? Entenda como é a estrutura política do Irã, alvo de ataque dos EUA e de Israel Eles ainda alegaram que a sucessão hereditária vai contra a essência da Revolução Islâmica de 1979, que derrubou a monarquia, e pediram que a votação inicial fosse anulada. A ofensiva deixou os clérigos atordoados, e eles pediram tempo para consultas mais amplas. A Guarda Revolucionária, que defende Mojtaba, Os generais No dia 7 de março, Pezeshkian anunciou o fim dos ataques contra as nações árabes no Golfo Pérsico e pediu desculpas. Ele afirmou que a decisão veio de um conselho de transição, composto por três pessoas e do qual faz parte, e que era responsável por comandar o país até que um novo líder supremo fosse eleito. Os generais da Guarda Revolucionária ficaram ultrajados. Vahidi, o comandante da Guarda, e Jaffari exigiram que a Assembleia dos Especialistas se reunisse para uma votação final e para anunciar Mojtaba Khamenei como novo líder. Taeb, o ex-espião, ligou para os 88 membros e pediu que apoiassem o Mojtaba, alegando que se tratava de um dever moral, religioso e ideológico. A Assembleia se reuniu novamente no dia 8 de março, de forma virtual, e debateu as questões dos moderados. Alguns disseram que deveriam honrar os desejos de Ali Khamenei e descartar seu filho. Outros apontaram que a Constituição não exige que tomem decisões com base nos desejos do antecessor, e que têm a autoridade de votar de forma independente. Todos concordaram que, em tempos de guerra, a votação virtual seria legítima. Vídeo mostra ataque à embarcação perto de Bandar Lengeh, no Irã Cada um dos clérigos escreveu um nome em um pedaço de papel, dobrou em um envelope e selou com cera. Mensageiros levaram pessoalmente as cédulas a uma comissão responsável por contar e validar os votos. Mojtaba Khamenei recebeu 59 dos 88 votos, superando a marca dos dois terços, mas deixando evidente que não é unanimidade. Pouco antes da meia-noite, a mídia estatal anunciou o novo líder supremo, e as parabenizações e declarações de lealdade rapidamente surgiram, mesmo de pessoas que votaram contra ele. Ao menos publicamente, o regime está com Mojtaba, que não é visto desde o início da guerra.