Após 'Ainda estou aqui' e 'O agente secreto', profissionais do cinema brasileiro avaliam desafios do setor

“Obrigado, Brasil. Pronto para o próximo.” Foi assim que Kleber Mendonça Filho se despediu da maratona do Oscar 2026, em publicação no X, logo após o fim da cerimônia, que contou com “O agente secreto” concorrendo em quatro categorias. Apesar de sair derrotado em todas, o sentimento do diretor e da equipe é um só: celebrar a trajetória premiada do filme, responsável por dar mais visibilidade nos últimos tempos ao cinema brasileiro, que se viu pelo segundo ano no palco mais famoso de Hollywood. Não custa lembrar: em 2025, “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, trouxe para o país seu primeiro Oscar, na categoria de melhor filme internacional. Análise: Derrota de 'O agente secreto' no Oscar deixa gosto amargo, mas não apaga trajetória de sucesso Após ‘Ainda estou aqui’ e ‘O agente secreto’: confira filmes que podem representar o Brasil no Oscar 2027 Enquanto Kleber Mendonça Filho parte para seu próximo projeto, um drama passado nos anos 1930, antes da Segunda Guerra Mundial, também no Recife, o audiovisual nacional especula se outro longa conseguirá repetir o feito de “Ainda estou aqui” e “O agente secreto” na próxima temporada de premiações. Ao longo de 2026, filmes de cineastas cultuados como Cao Hamburger, Anna Muylaert, Gabriel Martins, Carlos Saldanha, Carolina Jabor e Fellipe Barbosa chegarão às telas e poderão pleitear representar o país na próxima edição do prêmio da Academia. Mas para chegar lá, é preciso mais do que qualidade. Num cenário de muita expectativa e pouca certeza, o GLOBO ouviu profissionais do setor sobre que roteiro o Brasil deve seguir na indústria do cinema. Comentarista da cerimônia do Oscar na TV Globo nos últimos dois anos, o crítico Waldemar Delanogare lembra que o país ficou mais de duas décadas fora da disputa de melhor filme internacional, não recebendo indicações entre “Central do Brasil”, em 1999, e “Ainda estou aqui”, em 2025. — Acredito que nas duas últimas temporadas tivemos vários aprendizados importantes. Torço para que esses dois casos de sucesso sejam debatidos e compreendidos também na indústria de cinema do Brasil — destaca Delanogare. — A fórmula não muda: para chegar ao Oscar, é necessário ter ampla rodagem em festivais, distribuição nos Estados Unidos e um período longo de sessões comentadas e campanha. Compreendendo essas mecânicas, penso que é viável imaginar o retorno do Brasil ao Oscar e a outros prêmios internacionais no futuro. 'Ainda estou aqui' vence o Oscar 2025 de melhor filme internacional KEVIN WINTER / AFP Em janeiro, durante participação na Mostra de Cinema de Tiradentes, o produtor Rodrigo Teixeira, de “Ainda estou aqui”, não se mostrou otimista em ver o Brasil retornando rapidamente à premiação. — “O agente secreto” e “Ainda estou aqui” são agentes mais isolados do que parecem, que não vão se concretizar com uma frequência muito grande. Não vai ser frequente no cinema brasileiro. Eu não vejo o cinema brasileiro, nos próximos dois, três anos, voltando para o Oscar ou ocupando uma posição de destaque como a gente está tendo agora com esses dois filmes — disse ele durante um debate no evento. — São filmes de dois artistas autorais consagrados no mundo inteiro, com carreiras muito longas, construídas ao longo de 20, 30 anos, com longas que sempre estiveram presentes nos principais festivais e sempre foram apresentados com relevância. No cenário internacional, o sentimento é que o Brasil vive momento especial de reconhecimento, despertando a atenção das premiações. Não por acaso, Bill Kramer, CEO da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, visitou o Brasil em outubro para se reunir com profissionais do audiovisual nacional. Amanhã, o Rio recebe a primeira edição do Golden Globes Tribute Gala Brazil. A cerimônia de gala no Copacabana Palace, no Rio, reunirá a presidente do Globo de Ouro Helen Hoehne, votantes brasileiros e personalidades como Fernanda Montenegro, Antônio Pitanga e Valentina Herszage, homenageados da noite. O interesse não é por acaso. Em um mundo cada vez mais digital, a presença (real e on-line) dos brasileiros desperta a cobiça e a admiração para além das fronteiras do país. Apesar disso, profissionais da indústria cinematográfica brasileira lembram que há a necessidade de se evoluir internamente em diversas frentes para que os longas de Walter e Kleber não sejam casos isolados. — O grande desafio do cinema brasileiro hoje é encontrar o público. Como disse Marcel Duchamp, um dos grandes artistas do século XX, sem o público a arte não faz sentido — defende Bruno Barreto, diretor de “O que é isso, companheiro?”, indicado ao Oscar de melhor filme internacional em 1998. Produtora de obras populares como a trilogia “De pernas pro ar”, Mariza Leão lembra que, em 2025, 54,7% dos 203 filmes brasileiros lançados não alcançaram a marca de mil ingressos comercializados. — Apesar de celebrarmos o reconhecimento de filmes como “Ainda estou aqui” e “O agente secreto”, dentre outros, fechamos o primeiro trimestre do quarto ano do governo Lula numa crise muito grande — diz Leão. Analista do mercado audiovisual, Rodrigo Saturnino Braga, diretor do Filme B, lembra outras demandas importantes do segmento: — Os filmes tiveram desempenhos excepcionais nos cinemas brasileiros, em festivais e em eventos internacionais de premiação. Além de sólidas carreiras comerciais em vários países. Os talentos e as empresas envolvidas merecem reconhecimento e congratulações. Porém, nada mudou para a nossa indústria audiovisual: continuam os graves problemas provocados pela não regulação do mercado de streaming e pela necessidade de uma melhor gestão da política pública de apoio à produção e à comercialização das obras nacionais. Projetos dos oscarizáveis Se o futuro do audiovisual nacional desperta incertezas, os artistas brasileiros indicados ao Oscar possuem diversos projetos a caminho. Enquanto Kleber Mendonça Filho tem um novo filme pretende começar a escrever em abril, seu protagonista em “O agente secreto”, Wagner Moura, está com a agenda lotada. O primeiro a chegar nas telas deve ser “11817”, ficção científica dirigida por Louis Leterrier para a Netflix. Co-estrelado por Greta Lee, de “Vidas passadas”, o longa foi rodado em Londres em 2025 e foi o motivo pelo qual o baiano precisou faltar a cerimônia de premiação do Festival de Cannes do ano passado. Na sequência, Wagner rodará seu segundo longa como diretor. Em 2019, ele lançou “Marighella” no Festival de Berlim. Em conversa com O GLOBO em outubro, ele descreveu sua nova empreitada como um “filme de Natal anticapitalista”. — Eu tenho um filme chamado “Last night at the lobster”, baseado em livro de Stewart O’Nan e produzido pelo Peter Serafin, de “Pequena Miss Sunshine” e “Adaptação”. Tem um elenco ótimo. Brian Tyree Henry, meu brother, vai fazer. Elisabeth Moss, minha amiga, vai fazer. Sofia Carson, uma menina massa, cantora e atriz — revelou o astro. — É um filme de Natal, seguindo a tradição de filmes de Natal americanos. Mas dirigido por mim, portanto é um filme de Natal anticapitalista sobre os últimos dias de funcionamento de um restaurante, que faz parte de uma cadeia de restaurantes em que os executivos decidem fechar o local e demitir todos os funcionários uma semana antes do Natal. Além de atuar e dirigir em seu próprio filme, Wagner também dividirá funções de ator e produtor no primeiro projeto da esposa, Sandra Delgado. Em setembro, a artista anunciou sua estreia na direção e roteiro de longa-metragem de ficção, no filme “A estrangeira”, inspirado na vida da fotógrafa Claudia Andujar. O diretor de fotografia paulista Adolpho Veloso, indicado ao Oscar por “Sonhos de trem”, também já possui novos projetos a caminho. No mês passado, ele apresentou “Queen at sea”, drama de Lance Hammer estrelado por Juliette Binoche, no Festival de Berlim. O brasileiro também foi responsável pela fotografia de “Remain”, aguardadíssimo novo longa de M. Night Shyamalan, com estreia prevista para 2027. No tapete vermelho, ele desmentiu a informação de que teria sido procurado por Steven Spielberg para um novo projeto, mas as notícias na imprensa americana é de que o diretor de “E.T.” e “Tubarão” teria ficado impressionado com a fotografia de “Sonhos de trem”. Trio principal de “Ainda estou aqui”, Walter Salles, Fernanda Torres e Selton Mello também seguem trabalhando ativamente. O cineasta, no momento, desenvolve uma série sobre o jogador Sócrates (1954-2011) para o Globoplay. Já Fernandinha rodou “Os corretores”, comédia escrita por ela com direção do marido, Andrucha Waddington, com estreia prevista para o segundo semestre. Selton, então, nem se fala. Após lançar “Anaconda”, o ator já rodou novos projetos no Chile (“La perra”, de Dominga Sotomayor) e na França (“I don’t even know who I was”, de João Paulo Miranda Maria). Ele também prepara uma adaptação de “O alienista”, como diretor.