Filiação de ex-deputados tucanos a partido de Kassab deixa PSDB de Sorocaba sem cargos políticos pela primeira vez em 34 anos

Filiação de deputados a partido de Kassab deixa PSDB de Sorocaba sem cargos políticos A filiação do deputado federal Vitor Lippi e da deputada estadual Maria Lúcia Amary ao PSD, na sexta-feira (8), marcou o fim de uma era para o PSDB em Sorocaba (SP). Pela primeira vez desde 1992, o partido, que já dominou a política local, não terá nenhum representante eleito pela cidade. A mudança simboliza o esvaziamento da sigla, que busca se reerguer após perder suas principais lideranças. Foi em 1992 que os primeiros dois vereadores foram eleitos pela sigla na cidade. O partido, que teve a hegemonia consolidada com a vitória de Renato Amary, em 1996, é hoje apenas a sombra do que foi na cidade, em especial nos anos 2000, quando tinha o comando da cidade no Executivo e ainda cadeiras no Legislativo local, estadual e federal. Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Filiação de deputados a partido de Kassab deixa PSDB sem cargos eletivos em Sorocaba (SP) Marcel Scinocca/g1 O evento de filiação ao PSD contou com a presença de lideranças nacionais, como o presidente do partido, Gilberto Kassab, e os governadores Eduardo Leite (RS), Ronaldo Caiado (GO) e Ratinho Junior (PR). O discurso principal foi o da construção de uma "terceira via", alternativa à polarização entre lulismo e bolsonarismo. A busca pela terceira via Deputada estadual Maria Lucia Amary (PSDB), de Sorocaba (SP) Reprodução/TV TEM Deputado Vitor Lippi, do PSDB Vinícius Loures/Câmara dos Deputados Gilberto Kassab, presidente do PSD e secretário de Governo de Tarcísio, durante entrevista em SP Reprodução/TV Globo A deputada Maria Lúcia endossou a questão da terceira via e disse que saiu do PSDB sem olhar para trás, mas sem esquecer a importância que a legenda teve na sua trajetória. "Agora é a hora de virar a chave, porque o partido não é mais o partido que foi, as pessoas que me inspiraram não estão mais no partido. E a forma nova das novas executivas do partido, do PSDB, não têm sintonia com a minha forma de ver a forma de fazer política", afirma. Vitor Lippi evitou críticas e focou no novo momento: "Acho que foi um aprendizado muito bom. Aprendi muito, fizemos muito, aprendi muito com grandes pessoas do PSDB. Agora o PSD está em um ótimo momento, é um partido que está crescendo, ele conseguiu aglutinar grandes lideranças do país e eu entendo que hoje é um partido em que tenho condição de continuar o trabalho que eu sempre fiz". Da hegemonia ao ostracismo O PSDB já foi a força política dominante em Sorocaba. O partido elegeu o prefeito por cinco vezes consecutivas a partir de 1996. Em 2009, por exemplo, tinha o prefeito, o vice e a maior bancada da Câmara, com um terço dos vereadores. Ainda do partido, Antonio Carlos Pannunzio era deputado federal. Na Alesp, o nome era Maria Lúcia Amary. A hegemonia terminava no estado, com José Serra governador. Às sombras do que já foi, o PSDB sequer tem um diretório constituído na cidade atualmente. De acordo com informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a lista, desatualizada, ainda conta com Vitor Lippi e Maria Lúcia Amary como presidente e vice-presidente, respectivamente. Hoje, o cenário é de esvaziamento total. A sigla não tem nenhum vereador e, com a saída de Lippi e Amary, ficou sem representação na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional pela cidade. O diretório municipal está desatualizado e precisa ser refeito. O monopólio no sexto andar do Paço Municipal terminou quando, em 2016, depois de 20 anos, João Leandro perdeu a disputa para José Crespo. Em 2024, o partido sequer colocou um nome para a disputa. Análise: por que o partido encolheu? O declínio de um reduto histórico com o esvaziamento do PSDB em Sorocaba reflete um fenômeno nacional de perda de identidade e avanço da polarização política. É o que pensa a socióloga e especialista em marketing político Érica Regina, pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Segundo ela, o partido ficou "espremido" pela polarização, não conseguindo sustentar seu posicionamento de "centro" diante de um eleitorado que passou a exigir definições mais claras entre esquerda e direita. Initial plugin text A pesquisadora explica que o voto no Brasil é muito ligado a pessoas e, não, a siglas. Com a saída de lideranças como Vitor Lippi, o partido se desestruturou. Para ela, a migração de lideranças desestruturou os diretórios municipais, deixando o partido em uma espécie de vácuo político. "No PSDB começou a acontecer isso: sem posição e sem ter uma pessoa centralizada. O processo de declínio de fato começa a partir da mudança do (Geraldo) Alckmin e, municipalmente, acontece com o (Vitor) Lippi." Érica ainda destaca que o modelo de voto no Brasil é fortemente "personificado". Com a fragmentação interna e a ascensão do bolsonarismo como contraponto ao PT, ainda de acordo com ela, o PSDB perdeu o espaço que ocupava desde a redemocratização. "O PSDB ficou muito perdido nessa questão da polarização que nós vivemos hoje no nosso país. Quando o Lippi sai para ir para o PSD, aí realmente desmonta, porque ele era uma liderança aqui na cidade", explica a pesquisadora. LEIA TAMBÉM: Câmara de Sorocaba gasta R$ 800 mil em serviço ignorado por maioria dos vereadores Influencer é condenado a devolver R$ 950 mil por expor crianças em vídeos: ‘Pornografia da pobreza', diz juiz Empresa que fornece alimentos a prefeituras de Sorocaba e Votorantim é investigada por receber carga de leite roubada A análise conclui que a sobrevivência partidária depende da capacidade de adaptação às novas dinâmicas do país. Comparando as legendas a estruturas corporativas, a socióloga afirma que o partido que não entende o "jogo" atual acaba sendo absorvido por máquinas partidárias mais organizadas, como o PSD de Gilberto Kassab. "Um partido é como uma empresa: se ele não se adapta, se ele não entende o jogo e se ele não joga conforme, ele realmente vai se esvaziando. É o fim realmente desse partido que teve uma importância, mas que foi se esvaziando", pontua. PSDB de Sorocaba (SP) vive momento difícil após saída de Maria Lúcia Amary e Vitor Lippi Emerson Ferraz/PSDB Espaço vazio A tarefa de reconstruir o partido na cidade ficará a cargo de Luiz Salmeron, que assume o diretório. Ele afirma que o primeiro passo é "reestruturar e ocupar este espaço vazio". "O primeiro passo é reestruturar e ocupar este espaço vazio deixado pelas lideranças que se ausentaram do partido, iniciando pelo diretório de Sorocaba e, consequentemente, demais cidades da região. O PSDB tem dezenas de lideranças eleitas e vamos fortalecê-las", diz. Ele diz ainda que, em Sorocaba, nos últimos anos o partido deixou de participar dos movimentos políticos locais, não renovou seus quadros e, assim, acabou perdendo o protagonismo. "Hoje podemos construir uma nova agenda, buscando um diálogo direto e mais atual com a cidade que Sorocaba se tornou. Assim, construindo novamente estruturas para que a social democracia seja representada tanto no Legislativo quanto no Executivo em nossa cidade." Luiz Salmeron assume desafio de reestruturar o PSDB em Sorocaba (SP) Divulgação Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM