Médica morta em perseguição policial no Rio é lembrada como 'força da natureza' e referência na saúde feminina

“A gente nunca imagina que o ‘até logo’ será o último. O Rio de Janeiro nos roubou não apenas uma médica, mas uma força da natureza.” Foi assim que a médica Cristhiane Pinto descreveu, em uma rede social, a morte da amiga Andrea Marins Dias, de 61 anos, baleada durante uma perseguição de policiais militares do 9º BPM (Rocha Miranda) a suspeitos, em Cascadura, na Zona Norte do Rio. Guarda armada: Próximas áreas a serem patrulhadas pela Força Municipal são no Centro do Rio, diz prefeitura Violência: Secretário do Rio perseguido por criminosos diz que 'não tinha dúvida' que era o alvo: 'apontaram dois fuzis para meu carro' Ginecologista e cirurgiã, Andrea tinha 32 anos de formada e dedicou 27 deles ao cuidado da saúde feminina. Em uma gravação publicada nas redes sociais, ela própria definiu sua missão: “Resolvi que seria um desafio para ajudar as mulheres. Valorizar a dor das mulheres”. Ao longo da carreira, teve passagens pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), pelo Hospital Federal Cardoso Fontes e pela Unimed de Nova Iguaçu, onde também atuava. No desabafo, Cristhiane relembra a trajetória da amiga: “Uma mulher que desafiou estatísticas todos os dias para se tornar o que era: preta, mãe solo dedicada e o porto seguro de seus pais idosos”. E descreve sua personalidade: “Ela passava longe daquela ‘perfeição’ de comercial; era visceral, intensa e real. Falava alto, falava um palavrão a cada três frases e soltava a voz desafinada como se estivesse em um palco”. A médica também destacou o contexto da morte: “O destino foi cruel e cego. No caminho do afeto, indo visitar a família, teve a trajetória interrompida porque seu carro foi ‘confundido’. Um erro absurdo que não foi dela, mas que deixa uma ausência inconfundível para quem fica”. O impacto da perda fez a amiga escrever mais: “A medicina perde uma profissional batalhadora, os pais perdem o arrimo, e sua filha perde o mundo”. E completa, em tom pessoal: “Eu perco a companheira de rotina que me irritava com suas doideiras e agora me deixa em um silêncio que machuca muito mais que qualquer grito dela”. Ao final, ela se despede: “Obrigada por cada risada, pelos sustos e pela parceria. A autora do desabafo, Cristhiane Pinto, também é médica e atua na área de cuidados paliativos.