Gestora de 'planilha de propinas’, deputada e 'líder da organização criminosa’: conheça os alvos da PF no esquema de fraudes do INSS

Uma deputada que comprou apartamento de R$ 4,4 milhões com dinheiro desviado de aposentados, a gestora da “planilha de propinas” pagas a servidores que contribuíram para fraudes ao INSS e o “administrador” que desenvolvia estratégias de como ocultar os pagamentos indevidos. Esses são os três alvos principais da nova fase da Operação Sem Desconto, aberta nesta manhã. A Polícia Federal pediu a prisão preventiva dos três investigados: Gorete Pereira (MDB-CE), Cecília Rodrigues Mora e Natjo de Lima Pinheiro. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, negou encarcerar a parlamentar e impôs a ela o uso de tornozeleira eletrônica. Em nota, a defesa da parlamentar afirmou que ela "não praticou qualquer ato ilícito". Na representação ao STF, a Polícia Federal apontou que estava pedindo as prisões dos “líderes da organização criminosa”. Alegou que havia um risco em manter os investigados livres: a possibilidade de eles “ocultarem e dilapidar” os patrimônios decorrentes do lucro do crime, o que inviabilizaria o ressarcimento das vítimas do esquema. Veja a seguir o que os investigadores apontam sobre cada um dos alvos da Sem Desconto: Cecília Rodrigues Mora A advogada é apontada pela PF como uma das “articuladoras centrais” da suposta organização criminosa. Segundo os investigadores, era o elo entre os integrantes do grupo, agentes públicos e associações. Ela pagava propina aos servidores do INSS para viabilizar o esquema de descontos em aposentadorias e pensões, diz a PF. O dinheiro usado para pagamento das propinas era de Natjo. Cecília era quem controlava os pagamentos, por meio de planilhas. Natjo enviava os recursos para pagamento das propinas mês a mês sob o título ‘Comissão Brasília BSB’. Ainda de acordo com o inquérito, Cecília também era diretora de associações sob investigação e atuava perante ao INSS na “formalização em massa de atos associativos fraudulentos”. De acordo com a PF, ela organizava e executava a inclusão indevida de aposentados em associações; usava dados pessoais de beneficiários sem consentimento; assinava termos de adesão fraudulentos; e coordenava desbloqueios em lote para viabilizar os descontos automáticos. Como pagamento pelas atividades, a advogada recebia percentuais fixos dos desvios. Segundo a PF, ela adquiriu bens com os recursos ilícitos, transferiu dinheiro para outras pessoas visando evitar bloqueios e vendeu bens após a abertura da Sem Desconto. O companheiro de Cecília, por exemplo, é tido pela PF como “beneficiário direto” da lavagem de bens do esquema, tendo recebido de sua mulher R$ 2 milhões entre junho de 2022 e fevereiro de 2025. A advogada ainda passou para o nome do companheiro um Ford Mustang avaliado em R$ 400 mil, que não foi apreendido inicialmente pela PF. Natjo de Lima Pinheiro O empresário é apontado como “líder e administrador financeiro da organização criminosa”, sendo responsável pela gestão de operações financeiras do grupo, definição de estratégias e “pagamento sistemático de propinas”. Ele era chamado por Cecília de “ADM” e usou, segundo a PF, pelo menos cinco empresas de fachada - inclusive um laboratório e uma clínica de saúde - para lavar o dinheiro desviado do INSS. Ao pedir a prisão do empresário, a PF apontou que ele mencionou valores superiores a R$ 50 milhões em contratos e repasses, fora as tratativas para pagamentos de propina. Natjo chegou a orientar Cecília para que abrisse contas de seu escritório em quatro estados para distribuir os pagamentos de propinas. A banca para ocultar valores e emitir notas fiscais por serviços inexistentes, dizem os investigadores. Segundo a Polícia Federal, o empresário adquiria imóveis e veículos com recursos ilícitos e registrava bens em nome de terceiros. Os investigadores dizem ainda que a compra de um jato por parte de Natjo reforça os indícios de envolvimento dele nos crimes sob suspeita. A corporação ainda revelou que, no dia da primeira fase da Operação Sem Desconto, Cecília enviou, “discretamente”, a um funcionário de Natjo uma BMW X 6, logo após as equipes da PF deixarem a casa da investigada. Gorete Pereira A organização sob suspeita ainda é composta pela deputada Gorete Pereira (MDB-CE), que, segundo a PF, “atuava na articulação política e operacional das associações fraudulentas”. Os investigadores dizem que a parlamentar usava sua influência para viabilizar acordos com o INSS, manter contato direto com autoridades e pressionar servidores para acelerar processos. Na tabela de propina trocada entre Natjo e Cecília o nome da deputada aparece ao lado de um registro da quantia de R$ 780.433,50. A PF encontrou, por exemplo, comprovantes de transferência de valores expressivos, para a conta da deputada, a partir de uma “empresa de fachada” ligada ao esquema, administrada por sua sobrinha. É no nome desta empresa que consta a promessa de compra e venda de um imóvel de R$ 4,4 milhões. Um dos pagamentos pelo imóvel, de R$ 1,1 milhão saiu da conta da deputada. Os demais, partiram da conta da empresa. Segundo a PF, o apartamento é de Gorete, inclusive em razão de documentos sobre obras no imóvel constarem do nome da deputada. Ainda de acordo com a PF, despesas com viagens da deputada eram custeadas pelos integrantes do esquema. Cúpula do INSS De acordo com a representação da PF, Gorete articula diretamente com o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e com um diretor da Dataprev para agilizar a ativação de entidades usadas no esquema de desvios indevidos. A corporação chega a destacar que a “engenharia criminosa” colocada em prática pelo trio “contava com a participação da lata cúpula do INSS”. Nesse sentido, PF encontrou comprovantes de supostos pagamentos, reservas de hospedagem e passagens aéreas em nome do assessor do ex-presidente do INSS. Também citou conversas entre Natjo e Cecília sobre o possível pagamento de valores indevidos ao então Diretor de Benefícios e Relacionamento com o Cidadão do INSS e o então Procurador-Geral da Procuradoria Federal Especializada junto ao INSS. Tais pagamentos teriam ocorrido pelo escritório de advocacia do filho de André, diz ainda a corporação. Prisões Ao decretar as prisões de Cecília e Natjo, o ministro André Mendonça destacou os “fortes indícios” de eles terem organizado uma “complexa estrutura para a prática de crimes com uma profunda repercussão negativa na sociedade”. Ele apontou que os investigados se “apropriaram indevidamente de valores dos beneficiários do INSS e promoveram a lavagem de quantias expressivas por meio da criação de empresas de fachada, e emissão de notas fiscais não amparadas por serviços efetivamente prestados”. Nessa linha, o magistrado argumentou que a liberdade da dupla compromete a “efetividade da investigação e a confiança social na Justiça”. Também apontou risco concreto de destruição de provas, de “articulação com agentes políticos” e da continuidade do crime de lavagem de capitais.