Entenda em 5 pontos por que é tão difícil reabrir o Estreito de Ormuz, rota vital para o transporte global de 20% do petróleo

Antes dos Estados Unidos e de Israel lançarem sua ofensiva coordenada, o Irã advertiu que, se atacado, infligiria o máximo de prejuízo econômico à região e ao mundo como forma de retaliação. Dito e feito. Desde o início da guerra, que entra na terceira semana, Teerã tem atacado navios dentro e ao redor do Estreito de Ormuz, rota marítima vital para o escoamento de cerca de 20% do petróleo comercializado mundialmente, praticamente paralisando o tráfego marítimo. O bloqueio fez com que os preços do petróleo e do gás natural disparassem em todo o mundo — e a disposição da República Islâmica em persistir com sua medida pegou de surpresa o presidente americano, Donald Trump, que exigiu ajuda de aliados para reabrir o Estreito. Pressionada por Trump: Europa resiste em ampliar missão naval para ajudar a reabrir Estreito de Ormuz Recuo: 'Não precisamos da ajuda de ninguém', diz Trump após aliados da Otan negarem envio de navios de guerra ao estreito de Ormuz O Iraque, por sua vez, entrou em contato com o Irã para tentar garantir a passagem de alguns de seus petroleiros pelo Estreito de Ormuz, segundo informou o ministro do Petróleo iraquiano, Hayan Abdel Ghani, na terça-feira. Como membro fundador da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), as vendas de petróleo bruto representam 90% da receita orçamentária do Iraque, que exportava cerca de 3,5 milhões de barris por dia pelo Estreito. Initial plugin text — Estamos em contato com as autoridades competentes para autorizar a passagem de certos petroleiros pelo Estreito de Ormuz, para que possamos retomar nossas exportações — disse Ghani, em entrevista à emissora local Al Sharqiya, referindo-se aos navios iranianos. — Precisamos fornecer a eles a identidade desses navios. Também na terça, um petroleiro ancorado ao largo de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos — palco de ataques retaliatórios iranianos contra bases americanas — foi atingido por destroços e, segundo o Centro de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido, a embarcação sofreu "pequenos danos estruturais". Não há, até o momento, informações sobre feridos. Crise previsível Em 2011, um comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, o Exército ideológico do Irã, disse que bloquear o Estreito seria "mais fácil do que beber um copo de água". Entenda: Enquanto bloqueia o tráfego no Estreito de Ormuz, Irã mantém fluxo de petróleo e exporta mais do que antes da guerra Há décadas, os estrategistas militares americanos e as companhias petrolíferas do Golfo têm se preocupado com esse cenário. O Estreito é vital — uma artéria crucial para um quinto do abastecimento mundial de petróleo — e extremamente vulnerável a ataques. Tem apenas 34 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, obrigando todos os navios a passar bem próximos à fronteira sul do Irã. Petroleiros trafegam por rotas estreitas, vulneráveis a ataques Arte / O Globo Desde o início da guerra, grande parte da Marinha iraniana foi afundada por ataques dos EUA e de Israel. Centenas de seus mísseis foram destruídos. Mas enquanto o Irã mantiver a capacidade de atacar navios em uma estreita faixa de água, terá uma ferramenta poderosa à sua disposição. Esforço de Trump Durante o fim de semana, Trump pressionou outros países para que enviassem seus próprios navios de guerra ao Estreito. Mas, por ora, poucos parecem dispostos a cooperar. China, Coreia do Sul, França e Reino Unido não responderam diretamente à exigência de Trump. Japão, Austrália e Alemanha a descartaram explicitamente. A chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Kaja Kallas, foi categórica: "Esta não é uma guerra da Europa". Presidente dos EUA, Donald Trump, em entrevista coletiva reunião no Centro Kennedy, na Casa Branca Doug Mills/The New York Times Na terça, após a recusa dos países, o republicano criticou, em sua plataforma Truth Social, a Otan, dizendo que a aliança é uma "via de mão única". E afirmou que os EUA não precisam "da ajuda de ninguém". No entanto, em meio a pressão do líder republicano — que criticou na última segunda-feira a falta de “entusiasmo” de aliados ao seu apelo para proteger a navegação no Estreito —, ministros das Relações Exteriores da UE reuniram-se para discutir a possibilidade de ampliar a missão naval do bloco no Mar Vermelho. A ideia é encontrar formas de ajudar a reabrir a estratégica passagem. Initial plugin text Ao mesmo tempo, autoridades reagiram ao alerta de Trump, classificando-a como “muito ruim” para o futuro da Otan, se os países europeus não se juntarem a Washington em seu esforço para reabrir a rota. Embora as pressões econômicas sobre autoridades europeias sejam reais, há também um sentimento de déjà vu. Líderes na Europa e em outras partes do mundo lembram bem da última vez em que um presidente americano pediu a aliados que reunissem forças no Oriente Médio: em muitas partes do continente europeu, a invasão do Iraque em 2003 é vista como um erro custoso, impulsionado por informações falhas sob insistência do então presidente George W. Bush. Desafio para reabertura Trump parece frustrado. Na semana passada, ele perguntou ao general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, por que os EUA não conseguiam reabrir o estreito. A resposta é simples, disseram-lhe: um único soldado iraniano ou membro de uma milícia, atravessando o estreito em uma lancha, pode disparar um míssil contra um petroleiro em baixa velocidade ou plantar uma mina magnética em seu casco. CNN: Irã começa a instalar minas navais no Estreito de Ormuz; Trump ameaça impor resposta 'sem precedentes' Segundo a rede americana CNN, a Guarda Revolucionária do Irã começou a instalar dezenas de minas navais na região do Estreito de Ormuz, cobrindo uma área relativamente pequena da passagem que leva do Mar da Arábia ao Golfo Pérsico. A Guarda Revolucionária possui capacidade considerável de ação naval na área, com lanchas de ataque rápido, mísseis em áreas costeiras e barcos para instalar novas minas. Teerã não confirmou a informação. Navio militar transita pelo Estreito de Ormuz, na entrada do Golfo Pérsico Sahar AL ATTAR / AFP Trump estimulou os proprietários de navios-tanque a "mostrarem coragem". Além disso, Washington sondou a possibilidade da Marinha dos EUA escoltar navios no Estreito. Na década de 1980, durante a guerra Irã-Iraque, a Marinha dos EUA garantiu com sucesso a passagem de petroleiros pelo Estreito. Mas hoje, com a evolução da tecnologia, essa manobra seria cara e arriscada. Formar uma escolta desse tipo poderia levar semanas e exigiria a destruição dos inúmeros mísseis iranianos ao longo do estreito. E provavelmente mobilizaria ainda mais navios de guerra no Oriente Médio. Em entrevista à agência de notícias Reuters, Tom Sharpe, comandante aposentado da Marinha Real Britânica, afirmou que a escolta de três ou quatro navios por dia no Estreito seria viável a curto prazo, utilizando sete ou oito destróieres para cobertura aérea. Para ele, fazer a escolta durante meses exigiria mais recursos. Possível reabertura A questão de como manter o estreito aberto não é nova. Na década de 2000, o Pentágono pediu a um de seus principais estrategistas no Oriente Médio que avaliasse uma situação semelhante. O tenente-general Samuel Clinton Hinote, aposentado da Força Aérea americana, disse que, embora os EUA pudessem usar sensores avançados e ataques de precisão para mitigar os ataques iranianos, não conseguiriam impedi-los completamente. As rotas marítimas, segundo ele, são muito estreitas e as embarcações muito vulneráveis ​​a foguetes, mísseis e enxames de pequenas embarcações. — O Estreito de Ormuz é um problema difícil, quase impossível, de ser resolvido apenas por meios militares — disse Hinote. Para ele, manter a hidrovia aberta por meios militares significaria tomar e manter o território iraniano que margeia o Estreito. Em outras palavras: tropas terrestres. Ofensivas: Ataques do Irã deixam oito marinheiros mortos e 20 mil presos no Estreito de Ormuz desde o início do conflito — Seria necessário um grande número de tropas terrestres para tomar o controle da costa. Na falta disso, a única solução duradoura para o Estreito é diplomática — acrescentou. Os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita têm procurado maneiras de contornar o Estreito construindo mais oleodutos. Mas eles não estão atualmente operacionais e um ataque a um oleoduto saudita que liga o leste ao oeste, realizado pela milícia Houthi em 2019, mostrou que essas alternativas também são vulneráveis. O que diz o Irã Há muito, analistas consideram o fechamento do Estreito como uma medida de último recurso, pois a ação tem potencial de gerar represálias contra o próprio setor energético iraniano. O assassinato do aiatolá Ali Khamenei, porém, mudou essa equação. Na semana passada, os EUA bombardearam a Ilha de Kharg, terminal estratégico responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo bruto do Irã, e Trump ameaçou atacar instalações petrolíferas na região caso Teerã não reabrisse o Estreito. No Telegram, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o Estreito “está aberto a todos, exceto aos navios americanos e de seus aliados”. Na prática, porém, o petróleo transportado pela passagem vem do Irã ou de aliados dos Estados Unidos, como a Arábia Saudita e o Kuwait. Em primeiro pronunciamento: Estreito de Ormuz certamente seguirá bloqueado, diz novo líder supremo do Irã Após o apelo de Trump para nações protegerem o Estreito, o chanceler iraniano advertiu a outros países de que, se intervierem, haverá "uma escalada" na guerra no Oriente Médio. O ministro pediu aos países a "se absterem de qualquer ação que possa levar a uma escalada" e afirmou que dispõe de "muitas provas" de que bases americanas no Oriente Médio foram utilizadas para atacar seu país, citando os Emirados Árabes Unidos. Na televisão americana, Mike Waltz, embaixador dos EUA na ONU, reforçou o apelo de Trump. Na CNN, durante entrevista no último domingo, Waltz foi questionado se Trump estava preparado para atacar instalações petrolíferas na ilha de Kharg e, em caso afirmativo, se ele temia que isso pudesse acarretar uma escalada ainda maior na guerra. — O presidente Trump não vai descartar nenhuma opção — disse Waltz. — Certamente acredito que ele manterá essa possibilidade em aberto, se quiser desmantelar a infraestrutura energética deles. (Com New York Times)