Após decisão de Dino no STF, Senado tenta avançar com PEC que acaba com aposentadoria compulsória como punição

Na esteira da decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino que considerou incompatível com a Constituição a aposentadoria compulsória como punição a magistrados, o Senado deve analisar nesta quarta-feira uma proposta que trata do mesmo tema. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) tem na pauta a Proposta de Emenda à Constituição (PEC), apresentada por Dino quando ainda exercia mandato de senador. Relatada pela senadora Eliziane Gama (PSD-MA), que apresentou parecer favorável, a proposta será analisada a partir das 9h. Caso seja aprovada, seguirá diretamente para o plenário do Senado. O texto propõe alterar a Constituição para vedar expressamente o uso da aposentadoria como sanção disciplinar e permitir a perda do cargo — inclusive em funções vitalícias — em casos de infração grave. A mudança alcança magistrados, integrantes do Ministério Público e militares, aproximando as regras dessas categorias das já aplicadas aos demais servidores públicos. A movimentação no Senado ocorre um dia após Dino afirmar, em decisão no STF, que a aposentadoria compulsória deixou de ter respaldo constitucional após a Reforma da Previdência de 2019. Segundo o ministro, a sanção — que mantém o pagamento de salários ao punido — contraria o princípio da moralidade administrativa e deve ser substituída, nos casos mais graves, pela perda do cargo. No parecer apresentado à CCJ, Eliziane Gama argumenta que a proposta corrige distorções históricas e contribui para fortalecer a credibilidade das instituições. Para a relatora, a manutenção de remuneração a agentes punidos por irregularidades alimenta a percepção de impunidade e fragiliza a confiança da população no Estado. Ela também sustenta que a PEC uniformiza o regime disciplinar no serviço público ao eliminar diferenças entre carreiras. O texto prevê que a perda do cargo possa ser aplicada após processo administrativo, com garantia de contraditório e ampla defesa, sem exigir, em alguns casos, decisão judicial prévia. Na justificativa da proposta, Dino afirma que a aposentadoria compulsória distorce a finalidade de um instituto de natureza previdenciária. Ele também critica situações em que a penalidade acaba sendo, na prática, financeiramente vantajosa para o agente sancionado. O tema voltou ao centro do debate após decisões recentes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que reacenderam discussões sobre a adequação das punições aplicadas a magistrados. Nos bastidores, senadores avaliam que o alinhamento entre a decisão do STF e o avanço da PEC pode acelerar a tramitação da proposta no Congresso.