Cientistas recuperam canto de ave ameaçada de extinção com ‘tutores vocais’ na Austrália; entenda

Os melífagos-regentes já foram abundantes nas florestas do sudeste da Austrália, reunindo-se em grandes bandos vistosos. Hoje, essas aves canoras pretas e amarelas estão criticamente ameaçadas, com apenas algumas centenas restantes na natureza. À medida que as aves desapareceram da paisagem, seu canto característico — uma melodia suave e trêmula que os machos usam para defender território e atrair parceiras — também se perdeu. Aves sofisticadas: Corvos necrófagos estão usando técnicas de navegação e memória espacial nos territórios de caça dos lobos, diz estudo Vídeo: Meteoro cruza céu dos EUA e provoca estrondo ouvido em estados de Ohio e Pensilvânia Em vez disso, alguns machos jovens passaram a adotar cantos de espécies totalmente diferentes. Outros produziram versões mais curtas e simples do canto padrão. Já os melífagos nascidos em zoológicos, como parte de um programa de reprodução em cativeiro, não aprenderam a melodia. Agora, cientistas estão restaurando esse canto ao utilizar alguns indivíduos habilidosos como tutores vocais. Os pesquisadores constataram que melífagos-regentes que conheciam o canto padrão conseguiram ensiná-lo a aves jovens nascidas em cativeiro antes de sua soltura na natureza. Algumas dessas aves “alunas” chegaram a aprender o canto bem o suficiente para ensiná-lo à geração seguinte, segundo artigo publicado no mês passado na revista Scientific Reports. Canto é essencial para reprodução Embora mais pesquisas ainda sejam necessárias, os cientistas esperam que o programa de tutoria, que continua em andamento, ajude a aumentar as taxas reprodutivas na natureza e, possivelmente, faça com que os últimos melífagos-regentes voltem a cantar a mesma melodia. — O canto tradicional tem algum valor intrínseco, mas também é muito importante que as aves tenham um canto estável — explica Daniel Appleby, biólogo da conservação da Universidade Nacional da Austrália e um dos autores do estudo: — O canto é fundamental para a reprodução. O estudo também reflete uma compreensão crescente da importância da cultura animal — e o reconhecimento de que programas de conservação bem-sucedidos podem precisar encontrar formas de preservar comportamentos aprendidos socialmente, como o canto das aves. — À medida que a reprodução em cativeiro para conservação e reintrodução se torna cada vez mais essencial para a sobrevivência das espécies, precisamos considerar a cultura — afirma Appleby. População reduzida e perda de aprendizado A população de melífagos-regentes caiu drasticamente ao longo do século XX, à medida que seus habitats florestais foram desmatados. Hoje, estima-se que cerca de 250 indivíduos vivam em florestas fragmentadas do sudeste da Austrália, espalhados por uma área do tamanho da Espanha. — Estudá-los é um pesadelo, como se pode imaginar — disse Appleby, que integra um laboratório apropriadamente chamado Grupo de Pesquisa de Aves Difíceis. Essa baixa densidade populacional pode explicar por que o canto da espécie começou a mudar. Normalmente, os jovens aprendem a melodia ao ouvir e observar machos adultos, mas menos aves no ambiente significam menos oportunidades de aprendizado. Um problema paralelo surgiu no programa de reprodução em cativeiro, onde os jovens frequentemente tinham pouco contato com machos adultos durante o período crítico de aprendizado. Quando essas aves nascidas em zoológicos eram soltas na natureza, emitiam “cantos estranhos e rudimentares”, disse Appleby, e poucas conseguiam encontrar parceiras selvagens. Experimentos e resultados do programa Diante disso, Appleby e seus colegas decidiram ensinar o canto selvagem às aves nascidas em cativeiro nos zoológicos Taronga e Taronga Western Plains. Ao longo de vários anos, testaram diferentes estratégias. Algumas aves jovens foram mantidas em viveiros com alto-falantes que reproduziam gravações do canto selvagem do amanhecer ao entardecer. — Isso simplesmente falhou por completo— conta Appleby: — Não notamos nenhuma diferença nas aves. Outras, porém, tiveram tutores reais: dois machos nascidos na natureza que cantavam o repertório tradicional da espécie. Quando os filhotes passaram a viver próximos a esses tutores — primeiro em viveiros vizinhos e depois no mesmo espaço — começaram a reproduzir o canto. — Após três meses, começamos a ouvir as primeiras versões do canto tradicional — relata. Para obter bons resultados, os cientistas descobriram que era necessário manter turmas pequenas, com no máximo cinco aves por tutor. Nesses grupos reduzidos, muitas aves produziram cantos praticamente indistinguíveis do padrão selvagem. — Essas aves produziram cantos muito bons — tão bons que, no ano seguinte, elas próprias se tornaram tutoras — diz Appleby. Seus “alunos”, por sua vez, também aprenderam o canto tradicional. Segundo a cientista de conservação Rebecca Lewis, do Zoológico de Chester, no Reino Unido, o método tem potencial para manter o aprendizado por várias gerações "sem grandes problemas" — É excelente. É um método sustentável — diz. Preservação da cultura animal De fato, o programa de tutoria continua em andamento. Os pesquisadores pretendem acompanhar de perto as aves treinadas para avaliar seu desempenho na natureza e verificar se o canto tradicional se espalha à medida que filhotes selvagens passam a aprender ao ouvir esses indivíduos. O estudo demonstra que é possível que programas de reprodução em cativeiro adotem medidas concretas para preservar a cultura de espécies ameaçadas, afirmou Peter McGregor, especialista em comunicação animal e canto de aves do ISPA — Instituto Universitário, em Portugal, que também não participou da pesquisa. — Eles fizeram o trabalho difícil de aplicar isso em populações em cativeiro — explica: — Está cada vez mais claro que muitos aspectos críticos da sobrevivência e reprodução dos animais são aprendidos socialmente.